Fevereiro de 2026. O empresário estadunidense Brad Heppner era investigado por fraude financeira. Depois de contratar advogados, ele utilizou o Claude para resumir provas, elaborar estratégias jurídicas
e produzir memorandos para sua defesa. Quando o FBI executou um mandado de busca em sua casa e apreendeu seus dispositivos eletrônicos, obteve 31 documentos gerados com o Claude.
Os promotores pediram acesso a esses registros, mas os advogados de Heppner alegaram que as conversas com a IA deveriam ser protegidas pelo mesmo privilégio de confidencialidade que existiria se aquelas discussões tivessem ocorrido diretamente entre cliente e advogado.
O juiz discordou. Afirmou que, como o usuário estava compartilhando informações com um serviço operado por uma empresa terceira (Anthropic), cujos termos de uso permitiam determinados tratamentos dos dados, as conversas não eram protegidas pelo sigilo advogado-cliente. Bradley Heppner acabou sendo condenado – com as conversas com o Claude sendo usadas como prova pela promotoria.
Esse caso criou um precedente inédito nos EUA. Ficou demonstrado que, em uma situação onde você seja acusado de um crime, suas conversas com uma IA podem ser confiscadas, lidas pelas autoridades e usadas contra você. Depois disso, advogados no país começaram a alertar seus clientes de que as conversas com ferramentas de IA generativa podem ser solicitadas como provas em processos judiciais.
No Brasil, o caso mais parecido que tivemos com esse foi de um homem no Espírito Santo em junho de 2026. Ele teria revelado ao ChatGPT um plano para matar o próprio filho de oito anos. Uma análise automática da ferramenta detectou a ameaça e então a OpenAI, dona do produto, alertou o FBI, que avisou as autoridades brasileiras. O suspeito foi preso na véspera da data em que pretendia cometer o crime.
Quem pode ler suas conversas com a IA?
Nenhuma das principais IAs promete confidencialidade. Todas elas armazenam as conversas em seus servidores por algum período e, sob diferentes circunstâncias, pessoas ligadas às empresas podem ter acesso ao conteúdo.
- ChatGPT (OpenAI): as conversas ficam disponíveis para sempre na sua barra lateral até você deletá-las — quando isso acontece, a empresa afirma que elas são apagadas dos servidores após um período de 30 dias. Enquanto estiverem disponíveis, porém, um monte de gente pode ter acesso: “provedores de serviço confiáveis” e “um número limitado de funcionários autorizados da OpenAI”, além da própria ferramenta, para fins de machine learning. Casos que envolvem crimes ou violações de segurança estão especialmente sujeitos a vistoria.
- Claude (Anthropic): Também afirma deletar as conversas após 30 dias, a não ser em casos de violação dos termos de uso, em que o armazenamento pode chegar a 2 anos. A Anthropic diz que os dados são encriptados e que os funcionários não têm acesso, mas não menciona a possibilidade de uso por parceiros autorizados. É considerado o mais privado por alguns analistas.
- Gemini (Google): Este é o caso mais delicado. O padrão de armazenamento das conversas é 18 meses, mas você pode configurar para deixar por apenas três. O Google afirma explicitamente que revisores humanos podem analisar conversas (sem identificar o usuário) para melhorar os sistemas. Além disso, recomenda: "Por favor, não insira informações confidenciais que você não gostaria que um revisor visse ou que o Google utilizasse para melhorar nossos serviços". Algumas conversas são enviadas rotineiramente para revisores humanos e essas interações revisadas podem ser armazenadas por até três anos, mesmo que você desative o salvamento de dados ou exclua seu histórico.
- Grok (xAI): Tudo que é compartilhado publicamente no X/Twitter é usado pelo Grok para treinar sua própria IA, incluindo as interações diretas com ele. Isso inclui empresas terceirizadas que são parceiras da xAI. É possível configurar a ferramenta para optar não ter seus dados usados para essa finalidade. Até porque o próprio serviço alerta: “Por favor, não compartilhe dados pessoais ou quaisquer informações sensíveis e confidenciais em suas conversas com o Grok”. Quando você deleta uma conversa com o Grok, os arquivos são excluídos dos servidores após 30 dias (a não ser em casos com envolvimento judicial).
- Perplexity: A empresa afirma que armazena uma série de informações sobre os usuários não apenas a partir das interações com a ferramenta, mas a partir de qualquer informação pública que exista sobre você na internet. Essas informações são compartilhadas internamente e com empresas parceiras de forma anônima, sem identificar o usuário. As conversas são armazenadas para sempre, a não ser que você delete sua conta. Nesse caso, são excluídas dos servidores após 30 dias.
Além disso, como foi demonstrado no caso citado no começo do texto, todas as empresas podem fornecer suas informações às autoridades em casos de cumprimento de ordem judicial, intimações, investigações criminais e afins. Não é algo novo: essas condições já valiam para serviços como Gmail, Outlook e Dropbox.
Se você quiser se manter mais anônimo, há algumas dicas úteis:
- Use os modos temporários ("Temporary Chat") quando disponíveis.
- Quando a opção existir, desative o uso das conversas para treinamento nas configurações.
- Evite inserir senhas, documentos sigilosos, dados bancários ou informações médicas em contas gratuitas ou nos planos mais baratos.
- Se precisar usar as IAs com informações confidenciais, prefira planos Enterprise/Business, que oferecem compromissos contratuais de privacidade mais fortes e, em geral, não utilizam os dados para treinamento por padrão.







