O dólar registrou alta expressiva no pregão desta quinta-feira (18/6). A moeda americana avançou 1,37% em relação ao real, cotada a R$ 5,17. Já o Ibovespa, o principal índice da Bolsa brasileira (B3),
fechou em leve queda de 0,13%, aos 168,2 mil pontos, resultado que, na prática, mostrou estabilidade do indicador.
Os mercados de câmbio e ações operaram numa espécie de contraponto de tensões. Por um lado, houve forte alívio no front geopolítico, como reflexo da assinatura de um acordo de cessar-fogo entre Washington e Teerã. Por outro, o estresse disparou com as posturas adotadas pelos bancos centrais dos Estados Unidos e do Brasil.
Na quarta-feira (17/6), os BCs americano e brasileiro cumpriram o script previsto pelos agentes econômicos. O Federal Reserve manteve os juros no intervalo entre 3,50% e 3,75% e o Comitê de Política Monetária (Copom), do BC do Brasil, cortou a taxa básica do país, a Selic, em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano.
Ruídos nos comunicados
Os comunicados emitidos pelos dois bancos centrais depois das decisões, contudo, provocaram turbulência entre os analistas. Nos Estados Unidos, contando com a estreia de Kevin Warsh no comando do Fed, a mensagem foi de que os juros permanecerão elevados por mais tempo.
No Brasil, o Copom apontou uma inequívoca piora do cenário inflacionário. Ainda assim, manteve uma porta aberta para a discussão sobre novas reduções da Selic.
No caso americano, a projeção da maioria dos dirigentes do Fed foi favorável a uma alta dos juros ainda em 2026. No Brasil, a celeuma deu-se em torno da menção no comunicado do Copom ao “horizonte relevante” da política monetária. “Horizonte relevante”, grosso modo, é o termo usado pelo BC para identificar o período em que os juros terão maior efeito sobre a economia.
Mudança de “horizonte”
Até a última reunião do órgão do BC, esse horizonte estava fixado no quarto trimestre de 2027. O comunicado desta quarta-feira, no entanto, faz referência ao primeiro trimestre de 2028.
Na avaliação dos economistas da Warren Investimentos, foi essa alteração do horizonte que permitiu a redução de 0,25 ponto percentual da Selic. “No entanto, com a deterioração observada do cenário, esse alongamento não deve ser suficiente para justificar cortes adicionais”, afirmam os especialistas da corretora.
Além disso, o comunicado do Copom incluiu uma menção ao problema fiscal, que não vinha sendo feita nos últimos documentos veiculados pelo órgão do BC.
Petróleo
No ambiente externo, o preço do petróleo continuou abaixo dos US$ 80, embora a queda da cotação tenha sido parcial. Nesta quinta-feira, o barril do tipo Brent, a referência internacional da commodity, fechou em leve alta de 0,38%, a US$ 79,85. O tipo West Texas Intermediate (WTI), que baliza o comércio nos Estados Unidos, caiu 1,22%, a US$ 75,85.
Dólar global
No mundo, o dólar também se fortaleceu. Às 16h45, o índice DXY, que mede a força da moeda americana frente a uma cesta de seis divisas de países desenvolvidos (como o euro, o iene e a libra esterlina), subia 0,43%, aos 100,81 pontos.
A tendência é que a alta dos juros nos Estados Unidos eleve a cotação global ao dólar ao aumentar a atratividade dos títulos da dívida americana, os Treasuries. Em contrapartida, esse mesmo movimento pode reduzir o interesse dos investidores por ativos chamados de risco, caso das ações negociadas em bolsas.
Bolsas no exterior
Ainda assim, os principais índices de Nova York, que começaram o pregão em queda, mas se recuperaram ao longo do pregão. Às 16h30, as altas eram de 0,96, no S&P 500; de 0,21%, no Dow Jones; e de 1,63%, no Nasdaq, que concentra ações de empresas de tecnologia.
No caso de Wall Street, o movimento de alta do índice foi favorecido pela queda dos preços internacionais do petróleo e pela valorização das ações de tecnologia, especialmente do setor de semicondutores.
Europa
Os resultados das bolsas europeias, contudo, foram mistos. O índice FTSE 100, de Londres, caiu 1,04%, depois que o Banco Central da Inglaterra (BoE) decidiu manter os juros básicos do país no patamar de 3,75% ao ano.
O índice Stoxx 600, que reúne ações de empresas de 17 países da Europa, fechou em queda de 0,35%. Já o DAX, de Frankfurt, e o CAC 40, de Paris, subiram 0,37% e 0,44%, respectivamente.
Análise
Para Paula Zogbi, da Nomad, o movimento de alta do dólar depois da decisão do Copom “reflete uma combinação de cautela doméstica e pressão externa”. “Embora o Banco Central tenha reduzido a taxa Selic, o comunicado não se comprometeu com novos cortes e enfatizou a necessidade de monitorar indicadores futuro, além de o BC aumentar sua projeção de inflação”, diz.
“Além disso, pela primeira vez, o BC citou explicitamente os estímulos à demanda, numa referência ao impulso fiscal eleitoral, como fator de risco inflacionário, além de reconhecer que a inflação corrente superou o limite superior da meta na última leitura”, acrescenta a analista.
Zogbi observa que, globalmente, o Fed manteve os juros, numa decisão também considerada dura, especialmente pelas sinalizações de expectativa de aumento da taxa de juros ainda em 2026. “Os juros futuros sobem e o real fica pressionado neste cenário de maior incerteza sobre a trajetória da taxa Selic”, diz.













