Aideia de que felicidade significa estar bem o tempo todo nunca esteve tão presente na vida das
ideia de que felicidade significa estar bem o tempo todo
nunca esteve tão presente na vida das pessoas e, em especial, na dos adolescentes (né, leitor e leitora de CAPRICHO?). Basta abrir qualquer rede social para encontrar promessas de “zerar a ansiedade”, “parar de pensar demais” ou “eliminar pensamentos negativos” como se fossem fórmulas mágicas. Sem falar nas sugestões de consumo para que uma rotina de "autocuidado" seja iniciada. Mas especialistas em saúde mental têm chamado atenção para um efeito colateral dessa lógica: transformar emoções naturais em algo que precisa ser combatido o tempo inteiro.
A discussão ganha ainda mais importância diante do aumento dos problemas de saúde mental entre a nossa galera. E os dados mostram isso: segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada sete pessoas entre 10 e 19 anos vive com algum transtorno mental, e essas condições representam cerca de 15% da carga global de doenças nessa faixa etária. Ainda de acordo com a OMS, o suicídio é a quarta principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos.
Foi nesse contexto que a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), escritório regional da OMS para as Américas, lançou a versão brasileira do guia Faça o que importa em tempos de estresse. Baseado em evidências científicas e adaptado para a realidade brasileira, o material reúne cinco habilidades práticas para ajudar qualquer pessoa a lidar melhor com situações estressantes do cotidiano, sem a promessa de eliminar sentimentos como medo, ansiedade ou tristeza.
“O guia parte de um princípio importante: o estresse faz parte da vida. O objetivo não é impedir que ele exista, mas oferecer ferramentas para que as pessoas consigam responder a essas situações de uma forma mais saudável”, explica a publicação. O material foi desenvolvido para qualquer pessoa que esteja vivendo situações de estresse, de familiares e estudantes a profissionais de saúde, e reforça que as técnicas podem ser praticadas em poucos minutos por dia.
O problema não é sentir ansiedade, não
Um dos conceitos centrais do guia pode parecer estranho no princípio: o sofrimento nem sempre vem da emoção em si, mas da tentativa constante de controlá-la. Em outras palavras, sentir ansiedade antes de uma prova, medo ao começar um estágio ou tristeza depois de um término não significa necessariamente que existe algo errado. Significa que você está perfeitamente em estado normal e passando por um momento temporário em relação às situações em que está vivendo.
Essas emoções cumprem funções importantes na adaptação humana. O problema começa quando toda a energia passa a ser direcionada para evitá-las. A neuropsicóloga Marcella Bianca explica, em texto sobre repertório emocional publicado na CAPRICHO, que "repertório emocional refere-se ao conjunto de emoções, sentimentos e experiências emocionais que uma pessoa acumula ao longo da vida".
Ter um repertório emocional rico e variado significa conseguir identificar o que sente em diferentes situações e validar esses sentimentos. Já tentar controlar pensamentos e emoções o tempo inteiro costuma produzir o efeito contrário ao desejado.
"Isso permite que a pessoa tenha mais recursos internos para lidar com diferentes emoções e circunstâncias, promovendo maior resiliência, equilíbrio e bem-estar", ressalta. Esse fenômeno é conhecido na psicologia há décadas e ajuda a explicar por que frases como “para de pensar nisso” raramente funcionam – e você certamente já experimentou isso em algum momento, né?
Aceitar não significa se conformar
A palavra “aceitação” costuma gerar desconforto porque muitas pessoas a confundem com resignação. Mas o guia propõe outra definição. Aceitar significa reconhecer que uma emoção existe naquele momento, sem transformar sua presença em mais uma fonte de sofrimento.
Na prática, isso pode significar trocar pensamentos como “só vou apresentar esse trabalho quando a ansiedade passar” por “estou ansioso e ainda assim posso apresentar esse trabalho”. Parece uma mudança pequena, mas ela representa uma alteração importante de perspectiva.
Em vez de esperar que a emoção desapareça para agir, a proposta é continuar caminhando na direção do que faz sentido para a própria vida, mesmo quando existe desconforto.
Essa ideia aparece em diferentes momentos do guia, que incentiva o leitor a identificar quais são seus valores pessoais e tomar decisões alinhadas a eles, em vez de reagir apenas ao medo ou à ansiedade.
Cinco habilidades para enfrentar o estresse
O material está organizado em cinco etapas, que podem ser praticadas aos poucos:
- colocar os pés no chão (grounding);
- desprender-se dos pensamentos;
- agir de acordo com aquilo que realmente importa;
- cultivar a gentileza consigo e com os outros;
- criar espaço para emoções difíceis.
Segundo a OPAS, as técnicas são simples, levam poucos minutos e podem ser incorporadas à rotina, seja em casa, na escola, no trabalho ou antes de dormir. A organização também ressalta que elas não substituem acompanhamento profissional quando o sofrimento é intenso ou persistente.
Um novo jeito de falar sobre saúde mental
Talvez a principal contribuição do guia seja lembrar que saúde mental não significa viver sem emoções difíceis. Significa desenvolver recursos para continuar vivendo uma vida coerente com aquilo que importa, mesmo quando medo, tristeza, ansiedade ou frustração aparecem pelo caminho.
Em um momento em que as redes sociais frequentemente transformam qualquer desconforto em um problema que precisa ser resolvido imediatamente, a mensagem da OPAS caminha na direção oposta: sentir faz parte da experiência humana. Aprender a responder a esses sentimentos, em vez de lutar contra eles o tempo todo, pode ser um passo importante para cuidar da própria saúde mental.
Acesse o guia Faça o que importa em tempos de estresse neste link.







