Quando escreveu Quinze Dias , em 2017, Vitor Martins já imaginava que a história poderia ser adaptada para o cinema. Quase uma década depois, o sonho finalmente
se tornou realidade. E, curiosamente, não foi apenas o autor que parecia ter certeza de que aquilo aconteceria. Para Miguel Lallo, intérprete de Felipe, a convicção surgiu ainda nos primeiros testes para o papel. Se você não acredita em lei da atração, talvez comece agora.
Em cartaz nos cinemas brasileiros, o filme dirigida por Daniel Lieff transforma um dos livros mais queridos da literatura young adult nacional em uma comédia romântica que promete emocionar tanto quem cresceu acompanhando a trajetória de Felipe quanto quem ainda não conhece a história.
Na trama, acompanhamos Felipe, um adolescente gordo, tímido e apaixonado por cultura pop, que vê suas férias virarem de cabeça para baixo quando Caio (no filme interpretado por Diego Lira), sua paixão de infância, passa quinze dias hospedado em sua casa. Entre descobertas, inseguranças e novos sentimentos, a história fala sobre amor, autoestima e pertencimento de uma forma que conquistou milhares de leitores ao longo dos anos.
Em entrevista exclusiva à CAPRICHO, Vitor Martins, Daniel Lieff, Miguel Lallo, Diego Lira e Débora Falabella falaram sobre a responsabilidade de adaptar uma obra tão querida pelos leitores, a conexão construída durante as filmagens e os desafios de colocar no mundo histórias que esbarram em suas vivências pessoais.
A pressão de dar vida à um livro queridinho
Adaptar um best-seller nunca é simples. Afinal, cada leitor cria sua própria versão dos personagens na cabeça. E o elenco admitiu que esse foi um dos maiores medos. “Cada pessoa tem um Felipe na sua cabeça. E foi algo que a terapia me ajudou a entender: eu tinha esse medo, mas não podia querer satisfazer todas as pessoas que tinham um Felipe diferente imaginado", compartilhou Miguel.
"Existia um receio quando fosse sair a primeira foto, sabe? Imagina se ninguém gosta? Aí acabou", contou Diego.
O receio não era à toa. Assim que as primeiras imagens do filme chegaram à internet, surgiram comparações com outras produções LGBTQIA+, debates sobre representatividade e até comentários questionando escolhas do elenco. Em meio ao barulho das redes sociais, Miguel e Diego precisaram lidar com expectativas que iam muito além do filme. Mas, enquanto as discussões tomavam conta da internet, os fãs do livro receberam com muito carinho.
"Eu recebi tantas mensagens bonitas e carinhosas. Muitos diziam que era exatamente como imaginavam o Felipe. Recebi até desenhos feitos antes do filme, e alguns eram realmente parecidos comigo. Eu ficava chocado. Isso me tranquilizou", disse Miguel.
Para Débora Falabella, que vive a mãe de Miguel, Rita (e dessa vez muito diferente da Rita de Avenida Brasil), a dimensão da responsabilidade só ficou clara depois. "As pessoas falavam da Rita como se ela já fosse uma personagem muito conhecida. Achei isso muito bonito, porque eu também tive livros na infância e na juventude que ficaram para sempre na minha vida."
Se para os fãs existia a expectativa de finalmente ver aqueles personagens ganhando vida nas telas, Miguel tinha certeza de que Felipe já fazia parte do seu caminho. Muito antes de ser escolhido para protagonizar o longa, o ator conta que enxergou algo de si mesmo na descrição do personagem.
A identificação foi imediata. "Quando li a descrição, me arrepiei inteiro. Além de ser um sonho para qualquer ator contar uma história como essa, tinha tudo a ver comigo. Era um personagem gordo, tímido, mas que usava o humor para se sobressair e lidar com as próprias inseguranças. Eu decidi que era meu e foi meu", brincou.
Curiosamente, ele não era o único com essa convicção. Diego conheceu Miguel ainda durante os testes presenciais e diz que, mesmo antes da escalação ser anunciada, já enxergava nele o Felipe que havia conhecido nas páginas do livro. "Ele odiou essa cena porque estava muito nervoso. Mas eu olhava para ele com um olhar de admiração muito grande", contou.
Uma amizade para além das câmeras
A conexão entre Felipe e Caio é o grande coração da história. E ela não precisou ser construída apenas na frente das câmeras. O elenco teve um longo período de preparação antes das filmagens começarem. Durante cerca de dois meses, Miguel e Diego passaram praticamente todos os dias juntos desenvolvendo os personagens, ensaiando cenas e criando intimidade para que a amizade dos protagonistas parecesse genuína na tela.
A mesma conexão acabou se estendendo para Débora. No filme, Rita é uma das figuras mais queridas pelos leitores justamente pela relação afetuosa de mãe e filho com Felipe. E a dinâmica entre os dois atores parece ter encontrado terreno fértil também nos bastidores, tanto que se emocionaram quando perguntamos sobre essa relação.
Quando Felipe saiu das páginas
Para Vitor Martins, acompanhar a adaptação de seu primeiro livro para os cinemas já era emocionante por si só. Mas houve um momento específico em que a realidade bateu de verdade. E ele aconteceu durante sua participação especial no filme. Sim, ele é o nosso Stan Lee friburguense.
O escritor conta que estava no set observando toda a movimentação da equipe quando percebeu a dimensão do que estava acontecendo. Foi então que Miguel apareceu caracterizado como Felipe. "Quando eu olhei para ele, pensei: 'Meu Deus, ele é o Felipe. Eu inventei esse menino e ele existe agora na minha frente'."
A emoção foi tanta que Vitor precisou segurar o choro para conseguir gravar a cena. Daniel Lieff, diretor do longa, lembra que o autor chegou ao set visivelmente nervoso. "Meu medo era porque ele tinha que entregar uma sacola em cena e estava tremendo. Quando ele passava a sacola com o livro, eu pensava: 'Isso nem a pós-produção arruma'. Então eu falava: 'Vitor, calma. Confia em mim. Vai dar tudo certo'. Mas eu via a carinha dele. Ele parecia um menino.", relembrou.
A situação ficou ainda mais intensa quando Miguel percebeu que Vitor estava emocionado e perguntou se estava tudo bem. "Ele ainda perguntou: 'Quer um abraço?'. E eu falei: 'Não me abraça que é pior'", contou o escritor, aos risos.
As mudanças necessárias para chegar às telas
Quem já leu o livro vai perceber que algumas mudanças foram feitas na adaptação. E, segundo Daniel Lieff, encontrar o equilíbrio entre agradar aos fãs e fazer a história funcionar no cinema foi um dos maiores desafios do processo. A principal delas envolveu o terceiro ato, que é bem diferente do texto original.
"O livro tem uma dinâmica que funciona perfeitamente para a literatura. Mas, para o audiovisual, a gente precisava ter um momento de queda, um conflito mais forte", explicou.
Isso significou adicionar novos elementos dramatúrgicos, repensar cenas e encontrar caminhos que ampliassem a carga emocional da narrativa sem perder a essência que conquistou os leitores. "Houve muitas ideias, muito vai e volta, muitas discussões sobre o que aconteceria e como determinadas cenas seriam construídas", contou Vitor.
CUIDADO! Spoiler abaixo.
Vitor tem uma alteração favorita bem específica: a troca da tradicional festa junina pela Festa do Caqui. E existe outra cena inédita que parece ocupar um lugar especial no coração da equipe: o momento em que Caio se assume para seus pais em um momento super emocionante. "Essa cena vai além. Ela conversa também com os pais, com os adultos e com as famílias. Exigiu bastante cuidado", disse Daniel.
Nós avisamos.
Muito além de um romance
Segundo o autor, as inseguranças que acompanham Felipe ao longo da trama nasceram diretamente de experiências que ele viveu durante a adolescência. A forma agressiva como o personagem enxerga o próprio corpo, por exemplo, é muito parecida com a maneira como Vitor cresceu enxergando a si mesmo.
Durante a escrita, ele chegou a acreditar que aqueles pensamentos eram exclusivamente seus. O sucesso do livro mostrou justamente o contrário. "Descobrir que outras pessoas também pensam sobre si mesmas dessa forma foi, ao mesmo tempo, perturbador e reconfortante."
Por isso, para ele, o que existe de mais íntimo em Quinze Dias não é necessariamente o romance entre Felipe e Caio, mas a relação que o protagonista constrói com o próprio corpo e com a própria existência. E mesmo sem reproduzir os pensamentos do personagem palavra por palavra, Vitor acredita que o filme encontrou uma forma de traduzir tudo isso para a tela.
Entre lágrimas no set, amizades que saíram das telas e um protagonista que finalmente ganhou rosto, Quinze Dias prova que algumas histórias encontram exatamente as pessoas que precisam delas. E, quase dez anos depois, talvez você seja essa pessoa. De qualquer maneira, Felipe está pronto para te fazer rir e chorar, nas páginas ou na tela grande.
+ Quer receber as principais notícias da CAPRICHO direto no celular? Faça parte do nosso canal no Whatsapp, clique aqui.













