Quando Dani Lins e Fabíola encerraram o ciclo olímpico da Rio-2016 como as levantadoras da seleção brasileira de vôlei feminino, parecia natural imaginar
uma disputa aberta pela posição nos anos seguintes. Mas o que aconteceu foi diferente. A partir de 2017, Macris e Roberta assumiram o comando da armação do Brasil e praticamente não deram espaço para a concorrência. Uma década depois, as duas seguem como nomes centrais nas listas de José Roberto Guimarães e chegam à Liga das Nações (VNL) de 2026 ainda disputando quem começa jogando.
WHATSAPP, TWITTER,A longevidade impressiona. Macris, hoje com 37 anos, e Roberta, com 36, atravessaram três ciclos olímpicos em alto nível. As duas foram convocadas como protagonistas da posição de 2017 até 2026, período em que dividiram títulos, finais e responsabilidades na seleção brasileira. Elas estiveram nas campanhas do Brasil na prata olímpica em Tóquio-2020, no bronze em Paris-2024, na prata no Mundial de 2022 e no bronze no Mundial de 2025. Natural de Santo André (SP), Macris passou mais tempo como titular no duelo contra a paranaense de Curitiba, mas o revezamento tem sido maior nos últimos anos.
Estilos distintos que se completam
O estilo de cada uma ajuda a explicar por que a disputa se manteve tão duradoura. Macris é reconhecida pela ousadia, pela velocidade e pela imprevisibilidade. Gosta de acelerar o jogo, envolver centrais e criar soluções pouco óbvias. Roberta, por sua vez, costuma ser vista como uma levantadora mais pragmática. Joga de forma mais conservadora, mas com eficiência, controle, bola um pouco mais alta e boa leitura dos momentos decisivos. Em vários períodos, Macris teve mais tempo como titular, mas Roberta assumiu a vaga em fases importantes, especialmente nos últimos anos, quando a alternância ficou mais presente.
Os números das últimas edições da Liga das Nações mostram essa disputa prolongada. Em 2019, Macris foi eleita a melhor levantadora da VNL, competição em que o Brasil ficou com a prata. Já em 2021, de novo com vice brasileiro, ela apareceu como a terceira melhor da posição, com 333 levantamentos perfeitos e 25,89% de eficiência, enquanto Roberta foi a 26ª, com 33 levantamentos perfeitos e 19,41%. Em 2022, Macris foi a segunda melhor levantadora, com 316 levantamentos perfeitos e 25,97%, e Roberta ficou em 21º, com 78 levantamentos perfeitos e 33,05%.
A partir de 2023, a diferença estatística entre as duas ficou menos linear. Na VNL daquele ano, Macris foi a oitava melhor levantadora, com 160 levantamentos perfeitos e 16,05% de eficiência, enquanto Roberta terminou em 21º, com 73 levantamentos perfeitos e 19,47%. Em 2024, Roberta apareceu à frente no ranking geral, em 14º, com 131 levantamentos perfeitos, enquanto Macris ficou em 21º, com 95. Já em 2025, ano de mais uma prata do Brasil, Macris voltou a aparecer melhor, em oitava, com 280 ações perfeitas e 32,37% de eficiência, enquanto Roberta foi a 16ª, com 163 levantamentos perfeitos e 30,19%.
Excelência que sufoca a concorrência
Também há conquistas individuais e coletivas relevantes para as duas levantadoras neste período de dez anos. Roberta foi eleita a melhor levantadora do Campeonato Sul-Americano de 2023. Tanto ela quanto Macris foram tetracampeãs sul-americanas em 2017, 2019, 2021 e 2023, além de conquistarem o título do Grand Prix de 2017. A trajetória de cada uma na seleção brasileira também vem de longe: Roberta foi chamada por Zé Roberto pela primeira vez em 2013, aos 23 anos, enquanto Macris recebeu a primeira convocação em 2015, aos 26.
O fato de as duas seguirem no topo por tanto tempo também revela uma questão importante para o futuro da seleção brasileira. A sucessão ainda não parece resolvida. Nomes como Kenya, Vivian, Bruninha, Marina Sioto, Giovana, Naiane Rios e Lyara aparecem como possibilidades para o futuro. As quatro primeiras estão com o Brasil, mas no time B. Porém, nenhuma conseguiu, até agora, romper de forma definitiva a hegemonia construída por Macris e Roberta. Essa soberania também deixa uma pergunta: essa supremacia aconteceu por total mérito delas ou também por falta de concorrência em alto nível?
Preocupação de Zé Roberto
Zé Roberto já demonstrou preocupação com o tema em entrevista exclusiva ao Olimpíada Todo Dia (OTD) em meados de 2025, antes da temporada de seleções. “A gente precisa formar mais levantadoras! Enquanto a gente tiver importando levantadoras, será sempre difícil. A gente precisa ter essas levantadoras boas, brasileiras, jogando aqui ou fora para terem mais experiência”, afirmou o treinador ao falar sobre a escassez de jogadoras da posição com mais tempo de quadra. Muitos dos nomes citados acima, acabam sendo reservas de estrangeiras em clubes brasileiros de maior investimento.
Após todos os argumentos apresentados, fica claro que a disputa entre Macris e Roberta é mais do que uma briga por titularidade. É uma marca de longevidade, consistência e resistência em alto nível. Elas sobreviveram a mudanças de geração, diferentes formações, novas ponteiras, centrais, opostas e ciclos. E, enquanto a sucessão não se impõe, a seleção brasileira segue dependendo de duas levantadoras que transformaram uma disputa interna em uma década de estabilidade. Elas seguem como incontestáveis para a VNL de 2026.
Por opção pessoal, Macris seria a minha escolhida para iniciar entre as titulares a Liga das Nações deste ano. Acredito que o complemento de estilos pode funcionar melhor com a imprevisibilidade começando tendo a garantia de uma Roberta segura como opção para momentos de adversidades. Mas fica a questão no ar: quem merece mais ser titular do Brasil a partir da próxima quarta-feira (3) diante da Holanda?











