Nos últimos anos, o jejum intermitente tornou-se uma das dietas mais comentadas. A proposta parece simples: ficar horas sem comer, concentrando as refeições
em uma janela restrita. Muitos adeptos relatam perda de peso e sensação de bem‑estar, mas pesquisas recentes apontam que a prática pode trazer efeitos indesejados, especialmente para quem já tem relação complicada com a comida. Antes de aderir a qualquer protocolo, é fundamental entender como o jejum funciona, avaliar suas contra-indicações e buscar orientação especializada.
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O que é o jejum intermitente e para quem ele é indicado?
O jejum intermitente não é uma dieta com alimentos pré‑definidos, mas uma estratégia que alterna períodos de alimentação com períodos de abstinência. Existem vários protocolos: o método 16/8, em que se jejua por 16 horas e se come durante 8; o 5:2, que prevê cinco dias de alimentação normal e dois de grande restrição calórica; e outros modelos mais restritivos. O jejum pode beneficiar pessoas que desejam reduzir a ingestão calórica sem ter que controlar cada porção. A redução nas calorias vem do fato de que, ao encurtar o período de alimentação, a pessoa tende a comer menos.
No entanto, o jejum não é indicado para todos. Crianças, gestantes, lactantes e idosos devem evitar essa prática. Pessoas com doenças crônicas ou transtornos alimentares, como compulsão alimentar, bulimia ou anorexia, também precisam de cautela. Na pesquisa da Faculdade de Medicina da USP, universitários que praticavam jejum apresentaram níveis significativamente maiores de compulsão alimentar e desejos por comida do que os que não jejuavam. Esses achados sugerem que o jejum pode agravar sintomas em grupos vulneráveis.
Como o jejum pode desencadear compulsão alimentar?
O jejum prolongado desencadeia uma série de respostas hormonais e comportamentais. De acordo com a endocrinologista, durante o período sem alimento, a grelina – hormônio responsável pela fome – aumenta progressivamente, intensificando o desejo de comer. Quando finalmente se quebra o jejum, o cérebro libera dopamina de maneira intensa, ampliando a sensação de prazer ao comer. Esse mecanismo de recompensa pode levar à perda de controle, fazendo com que a pessoa consuma grandes quantidades de comida de uma só vez, principalmente alimentos ultraprocessados e ricos em açúcar.
Outro fator é a oscilação de glicose. Ao terminar o jejum com refeições ricas em carboidratos refinados, há liberação rápida de insulina, provocando queda brusca no nível de açúcar no sangue e gerando nova sensação de fome. Soma-se a isso o efeito psicológico da restrição: quando um alimento é proibido, ele se torna mais desejado, o que pode aumentar a compulsão. Um estudo da USP reforça esse quadro, mostrando que jejuadores que relataram episódios severos de compulsão permaneciam 140 % mais horas em jejum do que aqueles sem compulsão. Ou seja, quanto mais longo o jejum, maior o risco de descontrole.
Benefícios e limitações: o que dizem os especialistas
Embora a prática tenha adeptos, as evidências sobre seus benefícios ainda são inconclusivas. Apesar de propagada por influenciadores e alguns profissionais como solução para reduzir peso e controlar doenças metabólicas, o jejum intermitente carece de estudos robustos em humanos. A Associação Brasileira de Nutrição (Asbran) ressalta em parecer técnico que faltam ensaios clínicos de longo prazo comparando jejum e restrição calórica contínua, e que não há comprovação suficiente para recomendá-lo como método de emagrecimento. O documento aconselha basear-se no Guia Alimentar para a População Brasileira, focando em uma alimentação equilibrada e adequada às necessidades individuais.
Isso não significa que o jejum intermitente não possa funcionar. Alguns praticantes relatam maior flexibilidade na rotina e menor preocupação em dividir refeições ao longo do dia. Entretanto, especialistas alertam que os efeitos positivos observados – como perda de peso ou redução da pressão arterial – resultam da restrição calórica, e não necessariamente da forma de distribuição das refeições. Para quem tem uma relação saudável com a comida e prefere essa estratégia, o jejum pode ser uma ferramenta entre outras, desde que acompanhado por profissionais.
Como adotar um jejum equilibrado e evitar armadilhas?
Caso você decida testar o jejum intermitente, o primeiro passo é buscar orientação médica e nutricional. A sugestão é começar com janelas menores de jejum e observar as reações do corpo antes de avançar. Durante a janela de alimentação, priorize alimentos nutritivos, ricos em fibras, proteínas e gorduras saudáveis, evitando açúcares e ultraprocessados. Isso ajuda a manter a saciedade e a reduzir a chance de compulsão.
Alguns sinais indicam que o jejum pode estar prejudicando sua relação com a comida: comer rapidamente e sem controle ao encerrar o jejum, pensar obsessivamente no que vai comer enquanto jejua e sentir-se incapaz de parar de comer. Se esses sintomas aparecerem, pare a prática e procure ajuda. Lembre-se de que a alimentação deve ser parte de um estilo de vida sustentável, com inclusão de frutas, legumes, grãos integrais e proteínas de qualidade, e não um ciclo de restrição e recompensa. Dietas restritivas podem levar a um ciclo de controle e descontrole alimentar, com implicações para a saúde mental e emocional.
Conclusão: equilíbrio e acompanhamento são essenciais
O jejum intermitente pode ser uma estratégia útil para algumas pessoas, mas não é uma solução mágica para perda de peso nem um método isento de riscos. Estudos sugerem que, em certos grupos, ele aumenta a frequência de compulsão alimentar e intensifica desejos por comida. Antes de aderir, avalie seu histórico de saúde, suas expectativas e sua relação com a comida. Adotar práticas mais seguras – como refeições equilibradas ao longo do dia, atividade física regular, sono adequado e suporte emocional – costuma trazer benefícios duradouros sem comprometer a saúde. Sempre conte com a orientação de nutricionistas e médicos para criar um plano que atenda suas necessidades de forma respeitosa e realista.









