Se o primeiro dia foi de recorde, o segundo dia da 1ª Etapa Nacional de Parabadminton 2026, em São Paulo, foi de histórias que ajudam a explicar o crescimento
da modalidade.
Nas quadras do Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro, o que se viu foi um retrato raro no esporte de alto rendimento: atletas de diferentes gerações dividindo o mesmo espaço competitivo e em condições reais de disputa. De um lado, jovens de apenas 12 anos iniciando suas trajetórias. Do outro, atletas com mais de 70 anos, acumulando experiência e mostrando que a longevidade também é uma marca do paradesporto.
Mais do que competir, eles jogam de igual para igual, respeitando as especificidades de cada classe e as limitações naturais que o tempo impõe, sem que isso diminua o nível técnico ou a intensidade dentro de quadra.
Um dos exemplos mais emblemáticos do dia foi o carisma de “Seu Luiz”, que entrou em quadra ao lado de João Gabriel Carbajal, de 21 anos, e contou com uma verdadeira torcida organizada acompanhando cada ponto. A dupla respondeu com vitória, em uma parceria que uniu gerações dentro e fora do jogo.
“É muito bom ter a torcida perto da gente, porque é o que dá força. Eu tava muito nervoso também, mas passou o nervosismo. Conseguimos mais uma vitória, o que é muito bom. A gente vem pra buscar o melhor. Eu aprendo muito quando jogo com alguém mais jovem que eu. Eu não sabia nem o que era o badminton, conheci depois da minha lesão por meio de um amigo e hoje estou apaixonado por ele. Cada vez que passa eu vou melhorando mais e o meu parceiro é muito bom comigo”, comenta Luiz Alves Fernandes, do clube CETEFE-DF, após a vitória ao lado de João Gabriel Carbajal.
Outro momento marcante foi protagonizado por Maria Eduarda Sousa, de 15 anos, e seu pai, Rennê Sousa, de 43. Pela primeira vez, os dois competiram juntos na dupla mista. Das três partidas que tiveram nos dois primeiros dias de campeonato, venceram duas delas, mas de acordo com eles, essa é uma experiência que vai além do resultado.
“Pra mim tá sendo muito emocionante, muito marcante. Jogar dupla é deixar fora da quadra a questão de ser pai e ser filha pra poder colocar a concentração dentro da quadra. A gente trabalhou muito pra esse momento. A diferença de idade pra mim tá sendo tratada de uma forma tão leve e isso vem muito do paralímpico. Quando eu tinha a idade da Duda, a gente não tinha a mesma oportunidade que os jovens têm hoje. A maioria dos atletas que são bem ranqueados tem inclusive atletas veteranos, como é o caso do levantamento de peso paralímpico. Na harmonia, o mais maduro consegue colaborar com os mais jovens que conseguem absorver um pouco da experiência que a maturidade traz”, explica Rennê Sousa.
“É a nossa primeira vez jogando juntos dupla mista. Dá um friozinho na barriga, porque estou jogando com o meu pai. Sempre jogamos juntos em treino, mas é diferente em um campeonato. Eu acho muito legal, eu vejo que o badminton tá crescendo no Brasil, chegando gente nova e na minha faixa etária e, a gente, novinho, tá chegando e dando trabalho pros veteranos”, completa Duda Souza.
A atleta vem quebrando barreiras na sua classe. Em abril, conquistou mais uma medalha internacional, o bronze no Campeonato de Parabadminton da República Tcheca. Ano passado, Duda também trouxe medalhas para o Brasil no Pan-Americano e nas Gimnasíades. “É muito gostoso jogar um campeonato internacional. Eu nunca imaginei jogar um campeonato desse porte sendo tão jovem. Eu ainda tenho que melhorar muito, mas o que me motiva e me dá um gás para treinar mais e ser melhor é saber que tem muitas meninas da minha idade jogando esses torneios e eu quero ganhar delas”, contou Maria Eduarda.
Outro confronto que simboliza o espírito do torneio envolveu Rennê Souza e Marcio Dellafina na disputa de dupla absoluta (duplas masculinas e femininas se enfrentam). Ambos com mais de 40 anos, eles venceram Bruna Izabelly e Milena Mayer, atletas na faixa dos 15 anos, por 2 sets a 0 — um retrato claro do encontro entre gerações que marca a competição.
Momentos como esses ajudam a explicar o que é vivido no esporte paralímpico no Brasil. Em um cenário em que atletas de 12 a mais de 70 anos competem lado a lado, só reforça o quanto a ideia de “idade limite” para praticar esporte é totalmente equivocada.













