Tifanny Abreu pode ter disputado a última partida de sua carreira profissional na noite de terça-feira (13), em Bauru. Protagonista da conquista do 19º
título do Campeonato Paulista feminino pelo Osasco, a oposta voltou a falar sobre a possibilidade de aposentadoria após a vitória sobre o Sesi-Bauru no golden set. Em entrevista exclusiva ao Olimpíada Todo Dia, ela prometeu continuar lutando para disputar a Superliga 2026/27, competição da qual está impedida de participar após mudanças nas regras de elegibilidade da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) para atletas trans.
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A jogadora já havia revelado que pretendia se aposentar ao término da temporada 2026/27. Entretanto, a nova política da CBV ameaça antecipar sua despedida das quadras. O cenário ganhou um significado especial porque Tifanny iniciou sua trajetória no vôlei feminino brasileiro justamente em Bauru, cidade que recebeu a decisão estadual.
"É um cenário que não está fácil para mulher trans, para LGBTs. Estou passando por muita dificuldade, nossa comunidade está passando por muita dificuldade. Terminar com essa vitória e uma reviravolta tão grande, para mim, é um orgulho. Aqui foi o meu primeiro jogo no Brasil e aqui em Bauru pode também ser o último. Mas eu vou continuar lutando para terminar minha temporada. E não se esqueça: gente, dia 25 é 13”, afirmou Tifanny, fazendo uma referência ao dia 25 de outubro, data do segundo turno das eleições e ao número 13, do presidente Lula.
A conquista veio depois de uma decisão equilibrada. Osasco havia vencido o primeiro confronto por 3 sets a 2, mas perdeu o segundo por 3 a 1, levando a disputa para o golden set. Na parcial decisiva, a equipe comandada por Luizomar de Moura venceu por 25 a 21 e garantiu mais uma taça estadual. Tifanny teve participação importante na conquista e marcou o ponto que confirmou o título.
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Tifanny questiona mudança nas regras e quer cumprir contrato
Em agosto, a CBV anunciou novos critérios de elegibilidade para a categoria feminina, alinhados às diretrizes internacionais. A mudança impede a participação de Tifanny na Superliga 2026/27. A atleta, porém, pôde disputar o Campeonato Paulista porque a competição estadual já havia começado quando as novas regras foram anunciadas.
Com o futuro indefinido, Tifanny afirmou que pretende buscar alternativas jurídicas para concluir a temporada. A oposta ressaltou que sua preocupação não se limita à despedida esportiva, mas também envolve os compromissos profissionais assumidos com o Osasco antes da mudança regulatória.
"Agora, o primeiro passo é Deus agir, e o segundo é os advogados trabalharem para que eu possa terminar, cumprir meu contrato. Acho que uma regra, uma lei, pode sim sair, mas não dessa forma. Tem que ser preparado antes, não pode pegar um clube de surpresa, não pode pegar um atleta de surpresa, porque a gente é trabalhador, não é somente atleta", declarou.
A jogadora também destacou as consequências financeiras e profissionais de uma eventual interrupção antecipada da carreira.
"Não é 'ah, você já não pode jogar mais, pronto, acabou'. Não é simples assim. A gente tem que terminar um contrato, eu tenho contas a pagar, o clube tem contas a pagar, eu tenho o dever a cumprir com o clube. Então, vou lutar por isso", completou.
Além da Superliga, Tifanny deseja disputar o Mundial de Clubes, previsto para dezembro. Sua participação, entretanto, depende das regras de elegibilidade aplicáveis à competição e de uma eventual solução para sua situação.
Aposentadoria já estava nos planos para 2027
Embora a possibilidade de despedida tenha ganhado força com a decisão da CBV, Tifanny explicou que já planejava encerrar a carreira em 2027. A atleta revelou que enfrenta dores físicas e considera que chegou o momento de se preparar para deixar o esporte profissional.
"Quero terminar com dignidade. Foi para isso que me preparei. Quero me aposentar já no ano que vem, de qualquer forma. Infelizmente, estou com muitas dores. Eu amo treinar, eu amo treinar, mas às vezes o corpo fala que você precisa dar uma segurada", contou.
Aos olhos da jogadora, a principal questão é poder escolher como encerrar sua trajetória. Ela deseja cumprir o contrato com Osasco e disputar os compromissos previstos para a temporada, em vez de ter a carreira interrompida pela mudança nas regras.
"Vou lutar, vou lutar muito para terminar minha temporada com dignidade. E quero terminar assim, ganhando", reforçou.
Tifanny fez história ao se tornar a primeira mulher trans a disputar a Superliga feminina, em 2017, pelo então Vôlei Bauru. Posteriormente, transferiu-se para o Osasco, onde conquistou títulos importantes, incluindo a Superliga 2024/25. Agora, o ginásio de Bauru pode ter recebido tanto um dos primeiros capítulos quanto a última partida de sua trajetória no voleibol feminino brasileiro.
Ponto do título teve trabalho de Luizomar
Além das declarações sobre o futuro, Tifanny comentou o desempenho esportivo na decisão. A oposta destacou o trabalho do técnico Luizomar de Moura para encontrar alternativas diante da marcação adversária, especialmente sobre ela e a polonesa Magdalena Stysiak.
Segundo a jogadora, os treinamentos foram fundamentais para que as atacantes conseguissem variar suas ações e superar o sistema defensivo do Sesi-Bauru.
"É muito trabalho do senhor Luizomar, que pega a gente para treinar e fala: 'Olha, quero que você faça assim, faça assim'. Treina, treina, treina. Porque a marcação é muito grande em cima de mim, em cima da Magda", explicou.
Tifanny ressaltou que a capacidade de adaptação foi determinante para o desfecho da final.
"A gente tem que se reinventar a cada ataque, a cada ponto, a cada movimento. E, no final, o importante é dar certo. E deu certo, graças a Deus", concluiu.
O título paulista mantém o Osasco em destaque no início da temporada 2026/27. Para Tifanny, porém, a conquista também representa um momento de indefinição. Enquanto aguarda os próximos passos de seus advogados, a jogadora segue sem garantia de que poderá voltar às quadras para disputar a Superliga e encerrar a carreira conforme havia planejado.











