Texto Bruno Carbinatto Design Cristielle Luise Edição Rafael Battaglia Ilustração Felipe Del Rio
Lamar Hunt dedicou boa parteamar Hunt dedicou boa parte de sua vida a popularizar o futebol nos Estados Unidos.
O empresário, herdeiro de uma fortuna bilionária da indústria do petróleo, é um dos grandes nomes da história do futebol americano – o da bola oval e dos touchdowns. Em 1960, fundou a American Football League (AFL), que, mais tarde, se uniria à poderosa NFL. Foi o primeiro dono do time Kansas City Chiefs e o inventor do termo “Super Bowl”, que dá nome à final do campeonato nos EUA.
Em 1962, quando já era uma referência nesse mercado, Hunt assistiu a uma partida de futebol (o da bola redonda) enquanto visitava Dublin, na Irlanda. Foi paixão à primeira vista, que só aumentou com a Copa de 1966, na Inglaterra. De volta à terra natal, o magnata começou a investir também no soccer (como é chamado o nosso futebol nos EUA). Comprou clubes, fundou as primeiras ligas e financiou a construção de estádios.
Essa nova empreitada se mostrou mais difícil. Vários de seus investimentos foram infrutíferos ou faliram, por um motivo que você conhece: o futebol nunca foi muito popular por lá.
Hunt não chegou a desistir, mas também era realista: “Não tenho dúvida de que o futebol vai ser um grande esporte nos EUA”, disse após 35 anos na missão. “Mas não vou viver para ver esse dia, porque os americanos têm medo de gostar de algo em que são ruins.”
De fato: Hunt morreu em 2006, num país pouco afeito à bola redonda. Com a exceção do futebol feminino [mais sobre isso adiante], os EUA têm uma seleção fraca e clubes com pouca relevância mundial.
Parece um contrassenso que uma prática como o futebol não seja gigante nos EUA, potência econômica – e esportiva: o país tem uma sólida estrutura de esporte colegial e universitário, que alimenta o nível profissional. Nos Jogos Olímpicos de Verão, os norte-americanos ficaram em primeiro no quadro de medalhas em 19 de 30 edições.
A bola redonda é, de certa forma, a última fronteira do soft power estadunidense. Agora, o Tio Sam parece estar empenhado em mudar isso.
Depois de sediar a última edição da Copa América e do Mundial de Clubes, os Estados Unidos são de novo o centro das atenções com a Copa de 2026, compartilhada com os vizinhos México e Canadá. Os EUA serão o palco principal, com 75% dos jogos.
E haja jogo. Pela primeira vez, 48 nações (e não mais 32) participarão da Copa. Serão 104 partidas, ao longo de 39 dias, em 16 cidades da América do Norte.
É a segunda vez que o Mundial ocorre em solo norte-americano, depois da edição de 1994. Na época, o país nem sequer tinha uma liga profissional ativa, e sua seleção masculina era ainda mais irrelevante: o país chegou a ficar quatro décadas sem se classificar para a Copa. Em fevereiro de 1994, só 20% dos estadunidenses sabiam que o país receberia o evento dali a quatro meses (1).
Desde então, muita coisa mudou. Em uma pesquisa divulgada no começo de 2026 pela The Economist, o futebol americano, sem novidade, apareceu como o esporte favorito dos estadunidenses, com 36% das respostas. Depois o basquete, com 17%. Mas aí a surpresa: o soccer está em terceiro lugar, com 10% das preferências, superando o hóquei (4%) e o tradicional beisebol (9%) (2).
Outra pesquisa mostrou que 45% dos americanos dizem que seu interesse pelo futebol está aumentando, e 70% dos entusiastas elencam o fato de o país sediar a Copa como o principal motivo pela animação (3).
A United States Soccer Federation (a CBF deles) tem um projeto de transformar os EUA numa espécie de “país do futebol” (chamado Pathways Strategy), e a Copa é o auge desses esforços. A Fifa, por sua vez, quer ver o esporte deslanchar no lugar onde estão os maiores e mais poderosos patrocinadores do mundo. E a iniciativa privada vê nas chuteiras um dos raros mercados ainda subexplorados do império norte-americano.
O episódio mais ilustrativo desse fenômeno é a ida de Lionel Messi para o Inter Miami, clube administrado por David Beckham. Em vez de seguir para a Arábia Saudita (outro país que investe bilhões para ser um dos protagonistas do futebol global), como fizeram Neymar e Cristiano Ronaldo, o oito vezes Bola de Ouro deixou o francês PSG em 2023 para protagonizar a missão de alavancar o futebol praticado nos EUA dentro e fora do país.
O “efeito Messi” é a principal aposta para atrair público aos estádios norte-americanos e para colocar a ainda pacata Major League Soccer (MLS), a liga profissional dos EUA, no radar dos espectadores globais, ao lado dos campeonatos europeus e sul-americanos.
Por enquanto, parece estar funcionando [veja no gráfico abaixo]. Mas essa não é a primeira vez que o país tenta popularizar o esporte por lá. Será que agora vai? E o que isso representa para o futebol global?
Para inglês ver
O futebol como conhecemos surgiu na Inglaterra do século 19, herdeiro de uma longa e difusa tradição de jogos com bola que existem desde, pelo menos, a Idade Média.
Com a padronização das regras e o surgimento das primeiras associações, não demorou para ele se espalhar pelo mundo. No Brasil, chegou na segunda metade do século 19 com os imigrantes britânicos que vieram trabalhar nas primeiras ferrovias. O paulista Charles Miller, filho de um escocês que veio ao País trabalhar na São Paulo Railway, foi figura-chave para organizar a prática por aqui.
Nos EUA, a novidade chegou num período crítico para a formação da identidade nacional. Seguindo a chamada “Doutrina Monroe”, o país buscava se estabelecer como a grande potência do Novo Mundo. O combinado era: os EUA não iriam se intrometer nos assuntos do outro lado do Atlântico. Em troca, não aceitariam a interferência dos impérios europeus nas Américas. Foi o início das campanhas imperialistas no continente.
Em um cenário de isolacionismo e nacionalismo exacerbados, o futebol não conseguiu competir com o trio de queridinhos locais: o futebol americano, o basquete e o beisebol. Os três foram criados em solo estadunidense também no século 19 e adotados como símbolos do país.
Tal qual o sistema métrico, o futebol era visto como algo estrangeiro, europeu – pior, inglês. Nem o termo football a modalidade conquistou, mesmo envolvendo muito mais os pés do que seu primo da bola oval. Restou soccer, que deriva de association football.
Quando o Tio Sam se consagrou como a grande potência econômica e cultural do mundo, após as Grandes Guerras, as preferências dos torcedores já estavam cristalizadas. O futebol existia, claro – os ianques participaram da primeira Copa do Mundo, em 1930, no Uruguai, terminando na terceira colocação –, mas era pouco expressivo.
Enquanto isso, as outras modalidades formavam gerações de atletas-prodígio a partir de um sistema esportivo baseado nas escolas e universidades: elas oferecem bolsas aos melhores talentos (que, por sua vez, abastecem as ligas profissionais), e ganham dinheiro com a venda de ingressos, patrocínio e direitos de transmissão dos jogos.
Foi só na década de 1970 que houve uma tentativa mais séria de popularizar o esporte. A North American Soccer League (NASL foi) a primeira liga profissional relevante do país, e seu principal time, o New York Cosmos, apostou numa contratação de peso: Pelé.
Tal qual Messi hoje, o Rei desembarcou em 1975 com a missão de alavancar o esporte. Mas, apesar do burburinho inicial causado pela chegada do tricampeão mundial, o hype não durou. Ao contrário do craque argentino, Pelé encontrou uma estrutura precária e uma liga lotada de problemas financeiros. Com pouco público, a NASL faliu em 1984.
Quando os EUA foram eleitos para sediar a Copa de 1994, nem sequer tinham uma liga profissional (a atual MLS estreou só em 1996). Na época, o jornalista esportivo George Vecsey resumiu em um artigo do New York Times: “Fomos escolhidos pela oportunidade de ganhar dinheiro aqui, não por excelência no esporte. Nosso país foi alugado e transformado em um gigantesco estádio, em um hotel e em um estúdio de televisão”.
Vecsey estava certo, mas em parte. O soccer nunca engatou por lá – mas só entre homens. A categoria feminina triunfou apesar da pouca popularidade do esporte, e não dá para continuar essa história sem explicar como isso aconteceu.
O esporte delas
A seleção feminina dos EUA já ganhou quatro Copas do Mundo (de um total de nove) e cinco ouros nas Olimpíadas (de oito edições). Somando essas competições, elas têm mais títulos do que todo o resto dos times femininos do planeta, juntos.
De certa forma, isso é uma consequência irônica do pouco apreço histórico pelo esporte no país. O futebol americano era a atividade mais relevante para os estadunidenses, e, por isso, era praticado quase exclusivamente pelos homens. “No mundo todo, o que é tido como ‘o esporte nacional’ dificilmente é associado às mulheres”, diz Fernanda Haag, doutora em História pela USP e professora do Instituto Federal do Paraná (IFPR).
Como o futebol americano era associado a virilidade e masculinidade, o soccer despontava como uma alternativa mais “aceitável” para as mulheres: uma prática mais lúdica, menos violenta – e também menos importante aos olhos da sociedade. Para a família americana do século 20, não era um escândalo se a filha treinasse alguns chutes na escola.
Enquanto isso, a maior parte do mundo tinha a visão oposta. O futebol era uma atividade tão essencialmente masculina que, no Brasil, mulheres foram proibidas de jogar por quase 40 anos. Uma lei de 1941 impedia que elas praticassem modalidades “incompatíveis com sua natureza”, incluindo o futebol.
Não foi só por aqui: Inglaterra, França, Alemanha e várias outras nações também restringiram o acesso das mulheres aos campos por décadas, com base em explicações pseudocientíficas sobre o corpo feminino.
Nos EUA, onde elas nunca foram impedidas de jogar bola, o futebol feminino começou a engatinhar décadas antes do que no resto do mundo, o que por si só já garantiu uma vantagem. Mas a verdadeira guinada veio em 1972, com a aprovação de uma lei federal conhecida como Title IX. O decreto não falava nada sobre futebol, mas proibia a discriminação por sexo em instituições de ensino que recebiam financiamento federal.
A Title IX mudou para sempre o esporte nas escolas e universidades norte-americanas. Depois dela, as instituições de ensino foram obrigadas a investir nas suas meninas tanto quanto nos meninos, oferecendo programas de ensino, bolsas estudantis e condições de treino equivalentes.
Nesse cenário, apostar no futebol foi uma solução natural – e não só porque ele já era associado às mulheres, mas também porque era o jeito mais rápido de cumprir a lei. “É um esporte acessível e barato. É fácil garantir a estrutura: um campo, que já existia, uma bola, um uniforme e uma trave”, diz Haag.
Antes da Title IX, existiam apenas 13 times de futebol universitário femininos em todo o país, totalizando 313 jogadoras. Em 2021, cinco décadas depois, 28 mil mulheres batiam bola em mais de mil equipes universitárias. Hoje, já são mais de 31 mil atletas.
Os incentivos financeiros ajudaram a formar uma geração de pioneiras jovens (como a bicampeã mundial Michelle Akers) quando boa parte do mundo ainda nem sequer permitia mulheres no futebol. A proibição brasileira caiu em 1979, e a modalidade só foi regulamentada em 1983. Quando a primeira Copa do Mundo Feminina chegou, em 1991, as norte-americanas já contavam com uma estrutura muito maior, o que as ajudou a conquistar o título.
Os EUA seguem como a principal referência da área e atraem talentos do mundo todo. Grandes atletas brasileiras, como Marta e Debinha, atuam em times americanos. Na última Copa, de 2023, 151 jogadoras – 20% do total – atuavam no futebol estadunidense (profissional ou universitário) ou tinham passado por ele (4).
O sucesso da seleção feminina é um dos motivos que ajudam a explicar o interesse crescente do futebol nos EUA. Outra razão é demográfica: a população está ficando mais diversa, com uma fatia de imigrantes e seus descendentes cada vez maior. Eles trazem consigo o amor pelo grito de gol para o país dos touchdowns e enterradas.
O destaque aqui fica para os latinos, que representam 30% dos fãs da MLS, segundo a própria organização. Na década de 1970, só 4,5% da população estadunidense era latina; em 2000, o número saltou para 12,5%; no último Censo, de 2020, esse grupo já representava 18% dos norte-americanos.
Mas, embora haja um aumento genuíno do interesse da população, o principal motor para a ascensão do esporte na maior economia do mundo é outro: os negócios.
Soccer S.A.
As marcas americanas sempre souberam que não dava para ignorar o titânico mercado global de futebol. Coca-Cola, McDonald's e Budweiser são alguns dos anunciantes mais fiéis da Fifa desde o século passado. A Electronic Arts, da Califórnia, criou o jogo que, por anos, levou o nome da entidade – e que se tornou o game esportivo mais vendido da História.
A dificuldade era justamente monetizar o esporte em terras norte-americanas, onde a NFL e a NBA se tornaram indústrias para lá de lucrativas. Desde a Copa de 1994, esse vem sendo o objetivo.
Nada ilustra melhor o movimento do que o contrato entre a Apple e a MLS. Em 2022, a empresa pagou US$ 2,5 bilhões para adquirir os direitos de transmissão exclusivos da liga por uma década, a partir da temporada de 2023. Foi um movimento atípico: em geral, os direitos de transmissão de competições como a Premier League (o campeonato de futebol inglês) ou a NFL são vendidos para emissoras específicas em cada país. Já a Apple será a única a exibir para o mundo todo.
Antes disso, a MLS tinha uma audiência modesta, pulverizada entre vários parceiros de mídia. Mas, com a chegada de Messi, o número de espectadores disparou.
No dia de estreia do argentino, o MLS Season Pass, o pacote do streaming específico de transmissão das partidas, registrou mais de 110 mil novos assinantes – um aumento de 1.800% em relação ao dia anterior, quando 6 mil pessoas pagaram pelo serviço.
Desde então, a popularidade só aumenta: no primeiro fim de semana da temporada de 2026, a liga registrou audiência recorde de 9,7 milhões de telespectadores, alta de 59% em comparação com o mesmo período da temporada passada.
O investimento da Apple não foi por acaso: a companhia esteve diretamente envolvida no processo de contratação do astro para o Inter Miami. Messi, como garoto-propaganda, embolsa uma generosa fatia da grana das novas assinaturas do streaming. A Adidas, patrocinadora oficial da liga com um contrato de US$ 830 milhões, também participou das negociações.
O esforço conjunto da iniciativa privada norte-americana foi crucial para vencer a Arábia Saudita, onde o dinheiro estatal do petróleo também tentou atrair Messi para seu projeto de expansão futebolística. Prova de que as empresas estão dispostas a apostar no soccer como nunca antes.
Em 2022, o Los Angeles FC se tornou o primeiro clube da MLS a ultrapassar a marca de US$ 1 bilhão em valor de mercado. Desde então, Inter Miami e LA Galaxy se juntaram ao “clube do bilhão”. É uma quantia similar à do Flamengo, o mais valioso do Brasil. Mas ainda longe dos europeus (o PSG vale US$ 4,6 bi; o Real Madrid, US$ 6,7 bi).
A MLS ainda está longe de conquistar o mesmo número de fãs das grandes ligas europeias ou mesmo de outros esportes americanos [veja no box abaixo]. Provavelmente, a modalidade nunca será dominante por lá. Mas, para os negócios, tudo bem: os EUA têm a vantagem de ter uma população grande e de alta renda. Mesmo que o soccer conquiste apenas uma fatia dos estadunidenses, isso já representará um enorme mercado.
Enquanto o futebol cresce dentro de casa, os norte-americanos se infiltram cada vez mais no futebol global. Dos 78 episódios de compra e venda de clubes ocorridos em 2025, 40 envolveram investidores estadunidenses (5). Os dólares estão nas principais ligas do mundo: hoje, 11 times da Premier League pertencem a americanos (os britânicos têm quatro). É um outro jeito pelo qual o país aumenta seu soft power no esporte.
O canal NBC, que detém os direitos da Premier League nos EUA, faz campanha aberta para levar partidas a estádios ianques. Já a La Liga, da Espanha, chegou a planejar uma partida entre Barcelona e Villarreal em Miami (que foi cancelada após protestos dos espanhóis).
Todas essas mudanças, porém, ainda não se refletem no desempenho das equipes masculinas. A seleção nacional continua medíocre. No Mundial dos Clubes de 2025, apenas um time estadunidense, o Inter Miami, passou da fase de grupos – para ser derrotado de 4 a 0 pelo PSG.
American way
A aceleração do futebol nos EUA pode ter um efeito colateral desagradável para muitos fãs mundo afora: a “americanização” do esporte.
Com pouca tradição no campo, os ianques não veem problema em mudar modelos consolidados em prol do lucro – mesmo que isso signifique impactar (para pior) a experiência dos torcedores. Não que, no mundo todo, o futebol não seja um mercado bilionário, é claro. Mas ele ganha um tempero especialmente capitalista por lá.
Não é um fenômeno de hoje. “Os americanos estão comprando clubes ingleses desde os anos 2000”, diz Irlan Simões, jornalista e pesquisador do Observatório Social do Futebol da Uerj. “A indústria do futebol está se americanizando há algum tempo, mas os torcedores e as comunidades do futebol resistem a essas transformações. Isso segura um pouco as mudanças, embora recentemente tenham surgido exemplos cada vez mais extremos.”
A Copa deste ano ilustra bem isso. As pausas para hidratação, interrupções de dois a três minutos no jogo para evitar danos à saúde pelo calor extremo, serão obrigatórias pela primeira vez no campeonato. Até aí, tudo normal… Mas ficou decidido que o torneio aproveitará esses intervalos para veicular publicidade, tal qual os jogos da NFL e da NBA, que são carregados de anúncios ao longo das partidas.
A final terá um show musical, numa tentativa de recriar o Super Bowl. Mas talvez o maior exemplo da “americanização” seja a adoção da chamada precificação dinâmica na venda dos ingressos.
Nesse modelo, adotado pela primeira vez pela Fifa mas usado há bastante tempo em eventos nos EUA, o valor do produto flutua de acordo com a demanda. Isso fez o preço dos ingressos para algumas partidas disparar. A entrada na final chega a custar mais de US$ 10 mil, dez vezes mais do que a decisão de 2022.
Aos preços altos, soma-se a dificuldade de chegar aos estádios, que costumam ficar afastados dos centros urbanos e sem muitas opções de transporte público (algo típico do urbanismo estadunidense). Às vésperas do Mundial, o setor hoteleiro está reclamando da baixa demanda e tendo que reduzir os preços para atrair turistas.
Há um possível fracasso de público se desenhando. Mas não só por causa dos custos.
O dono da bola
Em 2014, a Super tentou prever como seriam as próximas Copas na Rússia (2018), no Catar (2022) e a de 2026, cujo país-sede não havia sido escolhido até então. Os EUA, porém, já despontavam como favoritos: eram candidatos declarados e haviam perdido a edição de 2022 por poucos votos.
A reportagem concluía que, àquela altura, a Fifa acumulava uma sequência de quatro escolhas controversas (África do Sul, Brasil, Rússia e Catar), com preocupações ligadas à corrupção, aos elefantes brancos e aos direitos humanos. Dessa forma, para a edição de 2026, “é de se esperar que a entidade opte por reduzir conflitos para se concentrar nos negócios. Os EUA surgem como favoritos nesse cenário”, dizia o texto. “Seria uma nova aposta num mercado emergente do futebol. E há a vantagem de ser um país notoriamente competente para organizar eventos.”
A previsão otimista de uma competição pouco conflituosa soa irônica 12 anos depois. Os preços dos ingressos são apenas a ponta do iceberg: a Copa atual está tomada por várias controvérsias geopolíticas.
Quando os três países fizeram a proposta conjunta para sediar o campeonato, em 2017, a mensagem era de cooperação de um continente unido. Hoje, Trump ameaça anexar o Canadá como o 51º estado americano e invadir o México para combater os cartéis. Os líderes dos outros países-sede da Copa mal aparecem em eventos relacionados ao Mundial, diga-se. A Copa virou uma espécie de “show de Trump”.
Desde sempre o presidente usou os esportes como palco para seus espetáculos midiáticos, mas a Copa atual se destaca por uma característica curiosa: a proximidade do republicano com o presidente da Fifa, Gianni Infantino.
É comum que a entidade queira agradar o país-sede, mesmo em relações no mínimo desconfortáveis (como foi com Putin). Mas a amizade atual inaugurou um novo nível de constrangimento, que chegou ao seu ápice com o “Prêmio da Paz” criado às pressas pela Fifa numa clara tentativa de consolar o americano pela derrota no Nobel.
A poucas semanas do torneio, a participação do Irã, um país que se classificou mas está em guerra com o anfitrião, segue indefinida. Um representante do governo norte-americano chegou a sugerir à Fifa que a vaga do país seja dada à Itália, que não passou das eliminatórias.
Há ainda o principal elefante na sala: a imigração. Trump assumiu com a promessa de uma política dura sobre essa questão, e tem mantido a palavra. Por causa de uma restrição na aprovação de vistos, a maioria dos cidadãos de países que se classificaram para a Copa, como Haiti, Costa do Marfim e Senegal, não podem entrar no país. Há exceções para os jogadores e as equipes técnicas – mas os torcedores não poderão estar nos estádios. É a primeira vez que um país-sede da Copa barra turistas em massa (algo que, em tese, é proibido pelas regras da Fifa).
O ICE, a polícia imigratória do governo federal, já prendeu e deportou centenas de milhares de pessoas, muitas vezes com truculência e sem seguir o devido processo legal. Dois cidadãos americanos foram assassinados pelos agentes, e protestos contra a instituição são frequentes.
Há um temor de que a administração use os jogos da Copa como “iscas” para atrair imigrantes e prendê-los. O receio é tão grande que, segundo informações de bastidores levantadas pelo portal The Athletic, a própria Fifa cogita pedir uma pausa nas atividades do ICE durante o torneio (6).
“Mesmo que Trump não use o evento para deportar imigrantes, é imoral realizar uma Copa num local que diz que aqueles que gostam do esporte não pertencem ao país”, diz o jornalista Jamil Chade, especialista em cobertura de futebol e geopolítica.
A Copa de 2026, que deveria ser, em tese, um evento de união global, atraindo turistas de todo o mundo pelo amor ao esporte, corre o risco de virar o oposto.
Algumas organizações de direitos humanos chegaram a pedir o boicote do torneio. Até o ex-presidente da Fifa, Joseph Blatter, repercutiu a ideia.
“Trump está instrumentalizando o evento para atingir seus objetivos políticos e comerciais. Não há nenhuma diferença para o que muitos ditadores de países em desenvolvimento fizeram ao longo das décadas”, diz Chade. “Mas há uma hipocrisia gigantesca por parte da imprensa ocidental. Se fosse outro governo atacando um país, como os EUA atacaram o Irã, eventualmente haveria um movimento para bani-lo do mundial, como ocorreu com a Rússia.”
Os estadunidenses têm grana de sobra para construir os maiores palcos, atrair grandes astros e monetizar cada segundo de uma partida. Mas não dá pra fazer isso desrespeitando a paixão e a integridade dos fãs do esporte, seja qual for a camisa pela qual torcem. É lance pra cartão – vermelho.
Agradecimentos Sérgio Settani Giglio, professor do curso de Educação Física da Unicamp e cofundador do portal Ludopédio, e Aira Bonfim, historiadora e autora do livro Futebol feminino no Brasil: entre festas, circos e subúrbios, uma história social (1915-1941).
Para saber mais livro The great game: A tale of two footballs andAmerica's quest to conquer global sport, de Andrés Martinez.
Fontes (1) reportagem "Poll finds 20% know World Cup in U.S.", do Los Angeles Times; (2) Ampere Analysis/The Economist; (3) pesquisa "Rise of soccer fandom", da Harris Poll; (4) reportagem "The U.S. law that made the rest of the globe so strong at the Women’s World Cup", da Slate Magazine; (5) relatório "Football M&A activity hits record high in 2025 as majority deals and US capital expand", do Off the Pitch; (6) reportagem "Infantino and Fifa discuss asking President Trump for moratorium on World Cup ICE raids", do The Athletic.












