Da primeira edição da Copa do Mundo, em 1930, até a primeira vitória do Brasil, em 1958, foram 28 anos de espera até que pudéssemos levantar a taça.
É o maior intervalo que ficamos sem títulos na Copa,
período que será igualado caso o Brasil perca neste ano. Vamos torcer para que não.
Mas houve um único brasileiro que não sofreu com esse hiato. O seu nome era Amphilóquio Marques Guarisi (1905-1974), conhecido como Filó, atacante nascido na cidade de São Paulo e que foi campeão da Copa do Mundo em 1934, jogando pela Itália.
Vamos entender essa história.
Os pais de Filó eram imigrantes: a mãe, italiana; o pai, português. O jogador começou a carreira na Portuguesa, não por acaso: o pai dele, Manuel Augusto Marques, foi o segundo presidente da história do clube paulista, fundado em 1920.
Na Lusa, Filó jogou por dois anos. Depois, foi para o Paulistano jogar com Arthur Friedenreich, atleta negro filho de imigrante alemão que é tido como o primeiro craque brasileiro (algo ainda mais relevante se considerarmos que, naquela época, os clubes de futebol eram voltados sobretudo aos brancos).
Ao lado de Fried, Filó ganhou três títulos paulistas. Em um deles, foi o artilheiro da competição com 16 gols. Em 1925, foi convocado pela seleção brasileira e jogou 5 partidas. Em 1929, foi jogar no Corinthians.
Segundo o jornalista esportivo Rafael Reis, em publicação no UOL, Filó até tinha chance de ir para a Copa de 1930. Mas isso não aconteceu, e por culpa de uma disputa política.
Na época, a CBD (Confederação Brasileira de Desportos), com sede no Rio de Janeiro, não convidou a Associação Paulista de Esportes Atléticos (Apea) para integrar a comissão técnica que viajaria para o Mundial. Em retaliação, a Apea não permitiu que jogadores de times do estado fossem convocados. Atletas do Corinthians (caso de Filó) e de outros clubes paulistas ficaram de fora.
No começo dos anos 1930, Filó foi contratado pelo time italiano Lazio, de Roma. Não foi o único: com negócios no Brasil, o dono do time, Remo Zenobi, fez a rapa em diversos clubes daqui. A Lazio tinha tantos brasileiros no começo daquela década que foi apelidada de Brasilazio.
Filó, que na Itália era chamado de Guarisi, era destaque no time. Considerado cidadão italiano por conta de sua mãe, ele acabou sendo convocado para representar a Itália na Copa de 1934, sediada no país.
Junto a outros países europeus, a Itália se recusou a participar da Copa de 1930 devido ao custo das viagens de navio para a América do Sul. Em 1934, jogando em casa, os italianos queriam vencer a qualquer custo.
O ditador Benito Mussolini sabia que era possível usar o torneio como ferramenta de promoção política. Um triunfo da Itália significaria um triunfo do regime fascista.
Mussolini ofereceu subsídios para que os torcedores viajassem até as partidas, e escolheu os juízes de cada jogo. Hoje, acredita-se que algumas decisões da arbitragem podem ter favorecido a Itália.
O ditador tinha influência na associação italiana de futebol e nas decisões da seleção. A equipe fazia a saudação fascista com o braço erguido antes de cada jogo da Copa.
A Itália montou uma equipe com jogadores naturalizados de diversos países, não apenas Filó (que jogou só um jogo daquela Copa, um 7 x 1 em cima dos EUA). Um dos destaques do time era o argentino Monti, o único atleta a disputar finais de Mundial por dois países diferentes (Argentina em 1930 e Itália em 1934).
Filó jogou na Lazio até 1937. Depois voltou ao Brasil e vestiu novamente a camisa do Corinthians. Encerrou a carreira em 1940, no Palestra Itália (atual Palmeiras).
Jogadores naturalizados
Hoje, é cada vez mais comum que jogadores atuem por outras seleções, como Filó fez quase um século atrás. Para a Copa de 2026, a primeira com 48 seleções, a FIFA registrou um aumento no número de atletas interessados em trocar de equipe – seja para tentar a vaga em uma seleção menor, menos competitiva, seja pela vontade de voltar a jogar pelo país de origem após anos em outra nação.
Só não dá para fazer como o argentino Monti e jogar duas Copas por dois países diferentes. As regras, formalizadas em 2020, só permitem que um jogador participe das Eliminatórias por um time antes de jogar o Mundial por outro (caso seja a vontade do atleta).
E, salvo exceções, só é possível mudar de país uma vez. O craque Di Stéfano (1926-2014), que jogou por Colômbia, Espanha e Argentina, teria desaprovado a regra.











