A Índia se prepara para realizar um pedido recorde de drones militares, avaliado em mais de 2 bilhões de dólares (R$10 bilhões), junto a fabricantes nacionais, incluindo desde grandes empresas até startups.
Trata-se da maior aquisição de sistemas não tripulados da história do país.
Durante décadas, as Forças Armadas indianas dependeram principalmente de tropas, aeronaves de combate, satélites e sistemas convencionais de vigilância para monitorar suas fronteiras. Mas um impasse militar com a China em 2020 expôs o desafio de manter vigilância constante em extensas áreas de difícil acesso e em altitudes elevadas.
Os drones são cada vez mais vistos como os "olhos e ouvidos" do campo de batalha, capazes de coletar informações, rastrear movimentações de tropas, transportar suprimentos e executar ataques de precisão.
A expectativa é que esses equipamentos sejam implantados ao longo de algumas das fronteiras mais sensíveis da Índia, que a separam de China, Paquistão, Bangladesh e Oceano Índico.
Por detrás de uma grande compra de defesa, está uma mudança profunda na forma como a Índia enxerga as guerras do futuro e a rapidez com que os drones passaram das margens do planejamento militar ao seu centro.
Um alerta do campo de batalha
Essa transformação foi impulsionada por uma série de eventos. Em maio de 2025, Índia e Paquistão chegaram à beira de um conflito mais amplo após o ataque de Pahalgam, na Caxemira administrada pela Índia. Ambos os lados mobilizaram drones e poder aéreo avançado, antes de um cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos restaurar uma paz frágil.
Na sequência, a Índia lançou o exercício Cold Start, o maior já realizado pelo país em guerra com drones, envolvendo Exército, Marinha e Força Aérea.
Tara Kartha, ex-integrante do Secretariado do Conselho de Segurança Nacional, disse à DW que o primeiro grande alerta veio com o ataque com drones à base da Força Aérea em Jammu, em 2021.
"Isto expôs vulnerabilidades que só aumentaram com o uso crescente de drones para vigilância, contrabando e ataques", afirmou Kartha. "O que importa agora não é apenas a tecnologia, mas a rapidez com que os militares conseguem inovar, adaptar cargas úteis e desenvolver novas táticas. Quem dominar essa batalha de drones em baixa altitude provavelmente terá vantagem no conflito mais amplo."
A Índia não está sozinha ao tirar lições de conflitos recentes. A guerra na Ucrânia transformou o pensamento militar em todo o mundo. Drones baratos destruíram tanques que custam milhões de dólares, orientaram artilharia e atingiram alvos muito além da linha de frente. O que antes era visto como tecnologia de apoio tornou-se elemento central da guerra moderna.
Planejadores militares em Nova Délhi vêm estudando de perto esses desdobramentos. A aquisição proposta incluiria plataformas de reconhecimento, drones logísticos, munições vagantes e sistemas de ataque.
Política industrial
A decisão da Índia não é só uma estratégia de segurança. Mas, também, de política industrial. Diferentemente de muitas aquisições militares anteriores do país, este pedido deve ser majoritariamente atendido por fabricantes domésticos.
A compra está alinhada à estratégia do primeiro-ministro Narendra Modi de promover a autossuficiência na defesa. A Índia busca construir uma indústria nacional de drones capaz de competir globalmente.
O governo tem argumentado repetidamente que reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros é essencial para garantir autonomia estratégica de longo prazo. Os drones surgem como um dos setores nos quais o país acredita poder desenvolver capacidades próprias com relativa rapidez.
O comandante de ala Rajiv Kumar Narang afirma que a guerra no Irã demonstrou que sistemas próprios, domínio tecnológico e táticas inteligentes podem compensar vantagens tecnológicas do adversário.
"Países que dominam sua tecnologia de drones e conseguem inovar rapidamente terão vantagem nos conflitos futuros", disse. "Para a Índia, o desafio já não é apenas construir drones, mas dominar as tecnologias associadas e incorporá-los rapidamente às forças armadas."
Aquisição exige estratégia
A compra doméstica complementará outra aquisição indiana, de 31 drones MQ-9B Predator dos Estados Unidos. Enquanto os sistemas americanos oferecem capacidades de vigilância e ataque de longo alcance, os drones produzidos nacionalmente deverão operar em maior número, mais próximos do campo de batalha tático.
Juntos, eles apontam para a criação de uma rede integrada de vigilância e combate que se estende do Himalaia ao Oceano Índico.
Konark Rai, diretor-geral da startup de defesa Rudram Dynamics, afirmou que o sucesso da aposta em drones dependerá menos dos valores investidos e mais da integração efetiva desses sistemas às operações militares.
"Embora a Índia já tenha políticas para apoiar a fabricação e a inovação em drones, acelerar os processos de aquisição, testes, certificação e incorporação é agora fundamental."
Comprar drones é uma coisa, ele diz, e integrar milhares de sistemas não tripulados às operações militares é outra. Isso envolve treinamento, doutrina, proteção contra guerra eletrônica, cibersegurança e capacidade de processar enormes volumes de dados em tempo real.













