O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a afirmar na madrugada desta terça-feira (09/06) que a diplomacia americana está a um passo de fechar um acordo com o Irã, um dia após a cessação dos ataques
mútuos entre a República Islâmica e Israel.
"Estamos na fase final do que será um acordo muito, muito bom", disse Trump a repórteres, acrescentando que ele poderia ser concluído em "dois ou três dias".
Ao longo dos dois meses transcorridos desde que os EUA e o Irã concordaram com um cessar-fogo inicial, Trump repetiu diversas vezes que um acordo estaria próximo.
No dia anterior, Israel e Irã anunciaram o fim das hostilidades após uma onda de ataques mútuos que colocou em risco a frágil trégua no conflito do Oriente Médio, em vigor desde abril.
Buscando uma saída urgente para o conflito extremamente impopular entre os americanos, e a poucos meses das eleições de meio de mandato, Trump havia instado o Irã e Israel a encerrar as hostilidades.
Posições duras
Mediadores, liderados principalmente pelo Paquistão, vêm tentando há semanas viabilizar o acordo. No entanto, tanto o Irã quanto os EUA têm sido inflexíveis em suas demandas.
Os EUA querem que o Irã abra mão de seu estoque de urânio altamente enriquecido – que se acredita ainda estar armazenado em instalações subterrâneas no país após os ataques aéreos americanos na guerra de 12 dias em 2025.
Mas o Irã recusa essa exigência e reivindica o alívio das sanções. O país também quer a liberação de ativos congelados antes mesmo de um acordo final ser firmado, algo rejeitado por Trump.
Antes dos comentários de Trump sobre as negociações, o presidente do parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, disse na segunda-feira que as declarações de Trump até o momento sobre um possível acordo "contradiziam os pontos já acordados, demonstrando que [os EUA] não buscam nem um cessar-fogo nem diálogo".
Conflito no Líbano entre prioridades
O conflito contínuo entre Israel e o Hezbollah também segue sendo uma grande prioridade para o Irã. O chefe do Exército do Líbano, general Rodolphe Haykal, viajou para o Paquistão nesta terça-feira. Lá, ele se reuniu com o chefe do exército paquistanês, marechal de campo Asim Munir, que tem sido uma figura-chave nas negociações entre Irã e EUA.
A visita de Haykal ocorre num momento em que o governo do Líbano adota uma postura cada vez mais rígida em relação ao Hezbollah, mas continua incapaz de desarmar a poderosa milícia. O Hezbollah agradeceu ao Irã por atacar Israel "em defesa do nosso povo libanês", sugerindo que o governo do Líbano deveria aproveitar a oportunidade para melhorar as relações com Teerã.
Entre as exigências de negociação do Irã estão um cessar-fogo no Líbano, incluindo a retirada das forças israelenses, o descongelamento de metade dos ativos iranianos congelados — cerca de 12 bilhões de dólares (R$ 62,3 bilhões) —, além de uma forma de gestão iraniana sobre o Estreito de Ormuz.
Garantias contra novas agressões
Autoridades iranianas afirmam que qualquer acordo dependerá não apenas da interrupção dos ataques, mas também de garantias políticas, econômicas e estratégicas que impeçam novas ações militares contra o país.
Após semanas de negociações predominantemente indiretas, fontes familiarizadas com o assunto disseram no final de maio que os EUA e o Irã concordaram com um memorando de entendimento que suspenderia a guerra e daria aos negociadores 60 dias para chegar a um acordo final.
Fontes iranianas afirmaram que um acordo preliminar visa apenas o fim da guerra em todas as frentes, o estabelecimento de um prazo de 30 dias para a circulação internacional e iraniana pelo Estreito de Ormuz e, possivelmente, a concessão de algum alívio financeiro.
Posteriormente, então, começariam as conversas sobre as questões mais difíceis, como o status do urânio altamente enriquecido do Irã e detalhes relativos ao estreito, além de vários outros pontos do acordo preliminar, como o alívio das sanções e a segurança.
Reparos de danos
O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, afirmou em março que a única maneira de encerrar o conflito seria reconhecer os "direitos legítimos" do Irã, reparar os danos provocados pela guerra e estabelecer garantias internacionais contra futuras agressões.
Ao mesmo tempo, o governo iraniano tenta equilibrar pressões internas. De acordo com o jornal britânico The Guardian, setores mais radicais defendem ampliar os confrontos com Israel e abandonar completamente as negociações mediadas pelos Estados Unidos. No entanto, grupos ligados ao núcleo político e econômico do governo argumentam que o país precisa de alívio financeiro urgente para evitar o agravamento da crise econômica interna.
Fim das sanções e programa nuclear
Essa ala pragmática vê a suspensão gradual das sanções americanas como ponto central das negociações. A economia iraniana enfrenta forte inflação, desvalorização da moeda nacional e dificuldades para exportar petróleo em larga escala. Por isso, autoridades iranianas consideram indispensável recuperar acesso ao sistema financeiro internacional e ampliar receitas energéticas.
Outro ponto decisivo continua sendo o programa nuclear iraniano. Os Estados Unidos e Israel pressionam Teerã a limitar drasticamente o enriquecimento de urânio, desmontar parte de sua infraestrutura nuclear e aceitar inspeções internacionais rígidas. Washington chegou a apresentar uma proposta ampla de negociação com restrições militares e nucleares em troca da suspensão parcial de sanções.
Entretanto, o Irã resiste à ideia de abrir mão completamente de seu programa nuclear. O governo iraniano afirma que o desenvolvimento nuclear possui fins pacíficos e representa um direito soberano do país. Lideranças políticas e militares também afirmam que as exigências americanas seriam excessivas e incompatíveis com os interesses estratégicos iranianos.
md/ra (Reuters, EFE, AP, ots)
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