A partir desta quarta-feira (22/07), a polícia de Braunau am Inn, na Áustria, tem uma nova sede. A delegacia e o comando distrital da polícia agora estão localizados no número 15 da Salzburger Vorstadt
– notícia que dificilmente interessaria a alguém fora de Braunau, não fosse o fato de Adolf Hitler, o autoproclamado líder do Terceiro Reich Alemão, ter nascido ali em abril de 1889.
Hitler levou a Europa e o mundo à Segunda Guerra Mundial, com dezenas de milhões de mortes, e foi o principal responsável pelo Holocausto, o assassinato sistemático de aproximadamente 6 milhões de judeus.
Seus pais, que alugavam um apartamento no imóvel, se mudaram após alguns meses. Hoje, o edifício tem uma história bastante conturbada: após a anexação da Áustria pelo Reich Alemão em 1938, o partido nazista adquiriu o local de nascimento de seu "Führer" e estabeleceu ali um centro cultural com forte viés ideológico. Após a guerra, o imóvel retornou aos seus proprietários originais. O Estado se tornou inquilino e, posteriormente, o edifício serviu em diferentes épocas como biblioteca, escola e, mais recentemente, como oficina para pessoas com deficiência.
O local de nascimento de Hitler permaneceu vazio a partir de 2011. Em 2016, o governo austríaco decidiu expropriar o edifício — para impedir que neonazistas se apropriassem do local como destino de peregrinação. O objetivo era a "neutralização de todo o local".
Reforma de 20 milhões de euros
O Ministério do Interior austríaco criou a chamada Comissão para o Tratamento Historicamente Correto do Local de Nascimento de Adolf Hitler, e a incumbiu de desenvolver um conceito para o uso futuro da propriedade com passado problemático. A comissão defendeu o uso do edifício para fins sociais, beneficentes ou administrativos.
Oskar Deutsch, presidente da Comunidade Judaica de Viena e membro da comissão, declarou à DW em 2023 que "o objetivo sempre foi garantir que este edifício não se tornasse um local de peregrinação para nazistas". E embora tenha dito que poderia ter imaginado outros usos além de delegacia de polícia, enfatizou que a instituição faz parte "de um Estado democrático, regido pelo Estado de Direito, cujas funções incluem o combate à atividade neonazista".
O historiador Oliver Rathkolb, também membro da comissão, recorda que "como primeira opção, propusemos unanimemente uma instituição que promovesse a vida, como a Volkshilfe [uma organização de assistência social], mas eles recusaram", explicou. "A delegacia de polícia impedirá que admiradores de Hitler tirem selfies em frente ao edifício completamente modificado."
O Estado redesenhou completamente o edifício ao custo de cerca de 20 milhões de euros (R$ 116 milhões), incluindo uma fachada deliberadamente minimalista. Os moradores de Braunau têm sentimentos contraditórios sobre o resultado.
"Uma oportunidade histórica única foi perdida aqui para usar o local de nascimento do maior assassino em massa da humanidade de uma forma sustentável e historicamente responsável", disse à DW Eveline Doll, natural de Braunau e porta-voz de uma iniciativa cidadã local que propõe uma reflexão sobre o imóvel.
"É claro que a cidade não tem responsabilidade por isso, mas, mundialmente, Braunau está associada ao fato de que o maior assassino em massa da humanidade nasceu aqui – e isso sempre será assim", resumiu Doll.
Segundo uma pesquisa de 2023, apenas 6% dos entrevistados concordaram com a ideia de a polícia se instalar no local.
História sombria da polícia durante o nazismo
"Ao longo dos últimos 25 anos, houve inúmeras ideias e iniciativas para usar este edifício como um ponto de encontro para a paz, a liberdade, a democracia e a tolerância; mensagens extremamente importantes para o futuro, especialmente agora", explicou Doll. "Mas todas essas ideias foram rejeitadas e, agora, uma delegacia de polícia foi instalada aqui, o que é problemático em muitos aspectos."
Doll se refere, sobretudo, ao papel da polícia durante a era nazista. Depois que Hitler nomeou Heinrich Himmler como chefe da Polícia Alemã, em 1936, a polícia e a SS, organização paramilitar nazista, se tornaram cada vez mais interligadas. A Gestapo (polícia secreta do Estado), em particular, se tornou um instrumento central de terror para o regime e esteve significativamente envolvida na perseguição de opositores políticos, bem como em crimes nazistas.
Florian Kotanko, presidente da Associação de História Contemporânea de Braunau, recusa-se a traçar paralelos com a era nazista. "Vivemos em um Estado democrático governado pelo Estado de Direito, e a polícia é um de seus instrumentos. Enquanto a polícia puder ser responsabilizada por má conduta e os agentes forem julgados, uma desconfiança fundamental na instituição policial é injustificada", afirmou. Ele se mostra tranquilo em relação à solução atual. "O proprietário, a República da Áustria, decidiu assim", disse à DW.
Papel da Áustria no nazismo
A Áustria se vê há décadas às voltas com seu passado nazista. Em 1938, quando Hitler anexou o país vizinho, a medida foi comemorada por muitos austríacos. Durante o regime nazista, aproximadamente 65 mil judeus austríacos foram assassinados e 130 mil foram forçados ao exílio. A Áustria tem sido repetidamente acusada de não reconhecer plenamente sua cumplicidade no Holocausto.
O Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ), de ultradireita populista, fundado em 1956 por ex-nazistas, obteve a maioria dos votos nas eleições para o Conselho Nacional de 2024, mas não conseguiu formar um governo.
Uma pesquisa online realizada pelo instituto Unique Research para a revista Pragmaticus em 2025 apontou que 39% dos austríacos entrevistados concordavam ou tendiam a concordar com a frase: "Está na hora de botar um ponto final na discussão sobre o nazismo".
A nova fachada do imóvel não receberá um painel informativo. A comissão de especialistas também recomendou a realocação da pedra memorial em frente ao prédio, que se originou do maior campo de concentração da Áustria, Mauthausen, e traz a inscrição: "Pela paz, liberdade e democracia. Fascismo nunca mais. Milhões de mortos advertem". No entanto, a prefeitura decidiu deixar a pedra onde ela está.
O último endereço registrado de Hitler na Alemanha também é hoje sede de uma delegacia de polícia. O edifício na Prinzregentenplatz 16, no bairro de Bogenhausen, em Munique, pertenceu ao líder nazista até sua morte. Após a guerra, o prédio se tornou propriedade do estado da Baviera e foi utilizado para diversos fins oficiais antes de dar lugar, em 1998, à polícia. Recentemente, o edifício começou a abrir suas portas para eventos selecionados, demonstrando que o lugar, com seu passado conturbado, agora abriga valores democráticos.
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