A Coreia do Norte administra uma das economias mais peculiares do planeta. Apesar de estar entre o pequeno grupo de países que possuem armas nucleares, seu Produto Interno Bruto (PIB) em 2024 foi de modestos
26,6 bilhões de dólares (R$ 145 bilhões).
O valor é cerca de 70 vezes menor que o PIB da Coreia do Sul, de 1,86 trilhão de dólares (R$ 10,14 trilhões), e equivale a aproximadamente um quinto da receita anual da empresa mais negociada em bolsa do mundo, a NVIDIA.
Por ser uma economia centralmente planejada que prioriza a produção doméstica, a Coreia do Norte depende muito menos do comércio exterior do que economias de livre mercado. O volume de importações e exportações representa apenas uma pequena fração do PIB norte-coreano, difícil de precisar pela falta de dados publicamente disponíveis.
Já na Coreia do Sul, por comparação, o comércio internacional responde por cerca de 80% da economia, segundo dados do Banco Mundial.
Qual é o papel da China?
A China desempenha papel quase exclusivo no limitado comércio exterior da Coreia do Norte.
De acordo com o think tank The National Committee on North Korea, sediado em Washington, Pyongyang depende da China para até 95% do seu comércio total e 85% das exportações.
Quase todas as importações também vêm do gigante asiático. Em 2024, as importações legais da Coreia do Norte somaram apenas 2,33 bilhões de dólares (R$ 12,7 bilhões), valor irrisório em padrões globais e inferior ao que as operações sul-coreanas da BMW, por exemplo, importam do exterior num único ano.
Na ausência de produção doméstica de petróleo, essas remessas chinesas incluem este e outros combustíveis essenciais para o funcionamento da economia, além de alimentos, têxteis, máquinas, eletrônicos e veículos.
A dependência confere a Pequim enorme influência econômica sobre o líder norte-coreano, Kim Jong-un. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, estaria tentando explorar esse poder de barganha para trazer Pyongyang de volta à mesa de negociações sobre seu controverso programa nuclear.
A agência sul-coreana Yonhap reportou recentemente que o presidente chinês, Xi Jinping, deve visitar Pyongyang nas próximas semanas, atuando como mediador para ajudar a reduzir as tensões entre Trump e Kim, numa disputa que se arrasta há anos. Pequim ainda não confirmou a visita.
O que a Coreia do Norte exporta?
Segundo a Kotra, agência estatal de promoção de comércio e investimentos da Coreia do Sul, as exportações da Coreia do Norte ficaram pouco abaixo dos 360 milhões de dólares (R$ 1,96 bilhão) em 2024.
Os valores são notavelmente modestos. Cabelos artificiais e perucas são o principal produto do país, respondendo por cerca de 40% das exportações, sobretudo para a China, que depois reexporta os produtos para outros mercados.
Pyongyang recorreu à produção de perucas para obter divisas, após ter sofrido sanções da Organização das Nações Unidas (ONU) em 2017, que bloquearam suas exportações tradicionais, como carvão e minerais. O cabelo sintético não foi explicitamente proibido.
O país comunista também dispõe de abundante mão de obra de baixo custo e frequentemente forçada, ideal para um setor intensivo em trabalho e de baixa tecnologia, como a fabricação de perucas.
Outros produtos, como tungstênio e outros minérios, peixe congelado, ferro e aço e componentes de relógios, representam individualmente menos de 10% das exportações.
Desde a imposição das sanções, Pyongyang perdeu cerca de 2,2 bilhões de dólares por ano (R$ 12 bilhões) em receitas de exportação, segundo o think tank Korea Economic Institute of America.
Economia paralela
Além das exportações limitadas, a Coreia do Norte obtém volumes significativamente maiores de moeda forte por meio de sua economia paralela.
O país envia dezenas de milhares de trabalhadores ao exterior, muitos deles para Rússia e China, onde atuam na construção civil, extração de madeira, fábricas e pesca. Esse programa é amplamente visto por grupos de direitos humanos e pela ONU como outra forma de trabalho forçado.
O Estado se apropria da maior parte dos salários, gerando cerca de 500 milhões de dólares por ano (R$ 2,73 bilhões), segundo especialistas ligados à ONU.
Milhares de profissionais norte-coreanos de tecnologia da informação também trabalham remotamente para empresas dos Estados Unidos, da Coreia do Sul e da União Europeia, fingindo ser freelancers legítimos e usando identidades falsas, muitas vezes roubadas.
Eles costumam receber salários elevados, que são então repassados ao regime. Em 2024, essas remessas renderam 800 milhões de dólares (R$ 4,36 bilhões) ao Estado, de acordo com o Departamento do Tesouro dos EUA.
Programas de hackers
A Coreia do Norte também mantém um dos programas de hackers mais sofisticados e lucrativos do mundo, levando um think tank americano a classificar seus cibercriminosos como "a ameaça patrocinada por um Estado mais perigosa para o setor de serviços financeiros".
No ano passado, hackers norte-coreanos roubaram um recorde de 2 bilhões de dólares (R$ 11 bilhões) em criptomoedas, o que representou mais da metade de todos os roubos globais de moedas digitais naquele ano, segundo cálculos da empresa de inteligência em blockchain Chainalysis.
Ainda assim, a maior e mais obscura fonte de recursos do país tem sido impulsionada pela guerra na Ucrânia e pelos laços históricos de Pyongyang com Moscou.
A Coreia do Norte forneceu à Rússia milhões de projéteis de artilharia, foguetes e mísseis balísticos, reforçando o esforço de guerra do Kremlin e rendendo ao regime de Kim uma estimativa de 7 bilhões a 13,8 bilhões de dólares (R$ 38,2 bilhões a R$ 75,2 bilhões) desde 2023, segundo o Instituto de Estratégia de Segurança Nacional da Coreia do Sul.
Essas receitas, de acordo com autoridades de inteligência em Seul, estão sendo usadas para acelerar o programa nuclear e de mísseis balísticos do Norte, além de financiar a compra adicional de petróleo e alimentos da China.











