O ano de 2025 teve 65 conflitos envolvendo ao menos um Estado ao redor do mundo, o maior número já registrado desde o fim da Segunda Guerra Mundial, segundo estudo do Instituto de Pesquisa para a Paz de Oslo
(PRIO) publicado nesta terça-feira (09/06).
"Durante décadas, as guerras civis dominaram os conflitos globais. Agora, estamos testemunhando um ressurgimento perigoso de confrontos diretos entre Estados, impulsionados por rivalidades geopolíticas, disputas de fronteiras e escaladas regionais, particularmente no Oriente Médio", alertou Siri Aas Rustad, principal autora do relatório Conflict Trends.
No total, 153 mil pessoas morreram em razão destes conflitos. Foi o quarto maior índice já registrado desde o fim da Guerra Fria, quando começou a série histórica do PRIO, tendo sido superado somente em 2024, 2022 e 2021. Os últimos cinco anos já registraram mais mortes relacionadas a combates do que as duas décadas anteriores.
A estimativa é conservadora, uma vez que não inclui mortes indiretamente provocadas por conflitos – por exemplo, pessoas que morrem depois, em decorrência de seus ferimentos – nem as vidas perdidas como resultado da falta de infraestrutura, cuidados de saúde ou insegurança alimentar.
Violência cada vez mais concentrada
As altas são puxadas pelos conflitos entre Estados, que atingiram um novo pico para os últimos 80 anos, dobrando de 2024 para oito em 2025.
Entre eles, estão a guerra da Rússia contra a Ucrânia, o recrudescimento da violência entre Índia e Paquistão, o agravamento das tensões entre Afeganistão e Paquistão, os confrontos entre Tailândia e Camboja e o conflito regional em expansão envolvendo Israel, Irã, Iêmen e os Estados Unidos.
"O que aconteceu nos últimos cinco ou seis anos é que temos vários grandes conflitos ocorrendo ao mesmo tempo, e eles parecem se substituir uns aos outros. O mundo não tem nenhum intervalo”, acrescentou Rustad. "Isso é diferente do que víamos antes — esse nível continuamente alto de intensidade dos conflitos em escala global."
Trinta e cinco países estiveram envolvidos em todos os conflitos com ao menos um Estado do ano passado. Segundo o PRIO, a concentração geográfica da violência vem aumentando ao longo da última década, à medida que mais países travam diferentes conflitos simultaneamente.
Foi o caso de 19 países em 2025. Dentre eles, destaca-se Israel, que esteve envolvido nas guerras em Gaza, na Síria, no Líbano, no Irã e contra rebeldes houthis no Iêmen. Também Mianmar se envolveu em cinco conflitos, todos eles contra partes civis.
Já Moçambique, Índia, Síria, Iêmen, Afeganistão, Camarões, Mali, Nigéria e Paquistão tiveram três ou quatro conflitos concomitantes. "Essa tendência aponta para uma complexidade crescente na dinâmica dos conflitos, com mais atores envolvidos", afirma o relatório.
África e Américas, epicentro de grupos armados
Enquanto a África foi o continente mais afetado por conflitos envolvendo Estados – foram 29 conflitos em 17 países –, as Américas registram dois conflitos, em Colômbia e Haiti.
No país caribenho, as mortes em combate aumentaram de 200 em 2024 para 1,2 mil em 2025, em razão do "quase colapso da autoridade estatal, um prolongado vácuo político, uma crise humanitária e uma resposta de segurança internacional atrasada," de acordo com o relatório.
Mas, no ranking de continentes mais afetados por conflitos entre grupos armados organizados – isto é, sem a presença dos Estados –, as Américas saltam para o segundo lugar. Foram 32 conflitos no ano passado, sobretudo no Brasil, na Colômbia e no México.
Já em toda a África, foram 34. Juntos, os dois continentes concentraram 91% de todos os conflitos não estatais do mundo
Quando as mortes dos conflitos envolvendo ao menos um Estado se somam àquelas provocadas pelos conflitos não estatais e aos episódios de violência contra civis – quando grupos armados ou Estados usam a força contra populações –, as mortes globais de 2025 saltam para 245 mil.
Foi o terceiro ano mais letal desde o fim da Guerra Fria, sendo apenas superado por 1994, quando houve o genocídio de Ruanda, e 2021, em meio a uma sangrenta guerra civil na Etiópia.
ht/ra (AFP, ots)
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