O conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã colocou o Egito, potência regional, num delicado dilema diplomático e estratégico. O país é aliado próximo dos EUA e dos Estados do Golfo, além de signatário
do tratado de paz com Israel de 1979. Mas, também, estava prestes a restabelecer relações diplomáticas plenas com o Irã no início de 2026.
A estratégia de equilíbrio do Cairo incluiu até agora condenar publicamente os ataques iranianos contra países do Golfo, ao mesmo tempo em que oferece apoio militar limitado. Ao mesmo tempo, o presidente egípcio, Abdel-Fattah el-Sissi, visitou os Emirados Árabes Unidos (EAU) em maio.
O Egito ainda tenta se posicionar como mediador entre Teerã e Washington, em paralelo a esforços de países como Paquistão, Turquia e Catar.
"Abdel-Fattah el-Sissi vê o conflito principalmente como uma ameaça à estabilidade interna", afirma Michelle Pace, analista sobre Oriente Médio e pesquisadora visitante da Universidade de Oxford. "O principal objetivo do Egito é ficar fora da guerra com o Irã, enquanto tenta conter seus efeitos econômicos e de segurança."
No entanto, essa postura tem gerado tensões com os parceiros do Golfo, que esperam apoio de aliados diante dos ataques iranianos a seus territórios e interesses, segundo Timothy E. Kaldas, vice-diretor do Instituto Tahrir para Políticas do Oriente Médio, sediado em Washington. "Há declarações nada sutis, especialmente dos Emirados Árabes Unidos, indicando frustração e irritação com o Egito", afirmou.
Uma delas veio de Anwar Gargash, assessor de política externa da presidência dos EAU, que escreveu recentemente na rede X, em árabe: "Os Estados do Golfo foram apoio e parceiros para todos em tempos de prosperidade... então onde vocês estão agora neste momento de dificuldade?"
Dependência econômica
O Egito, o mais populoso dos países árabes, com cerca de 120 milhões de habitantes, também sente os efeitos econômicos da guerra com o Irã. Após a retomada de ataques do grupo houthi, aliado de Teerã no Iêmen, contra navios no Mar Vermelho e no estreito de Bab al-Mandab, o tráfego pelo Canal de Suez foi reduzido.
Uma análise recente da ONG International Crisis Group aponta que a receita do canal caiu 38% no primeiro trimestre deste ano. "A guerra está prejudicando uma economia que já dava sinais modestos de recuperação após os efeitos da pandemia de covid-19 e das guerras na Ucrânia e em Gaza."
Segundo o ministro egípcio do Petróleo, Karim Badawi, o país conseguiu reduzir atrasos no pagamento a parceiros de petróleo e gás dos cerca de 6,1 bilhões de dólares (R$ 30,5 bilhões) em junho de 2024 para zero em junho de 2026.
Ainda assim, a recuperação econômica após anos de crise tem sido impulsionada principalmente por investimentos do Golfo, segundo o relatório.
Arábia Saudita e Kuwait depositaram, respectivamente, 5,3 bilhões de dólares (R$ 26,5 bilhões) e 4 bilhões de dólares (R$ 20 bilhões) no banco central egípcio. Os Emirados Árabes Unidos investiram 35 bilhões de dólares (R$ 175 bilhões) em um grande projeto imobiliário, e o Catar se comprometeu a investir 29,7 bilhões de dólares (R$ 148,5 bilhões) em outro negócio de grande escala.
Também o Banco Mundial, a União Europeia (UE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) contribuíram para a estabilização econômica do país.
Agora, porém, o cenário volta a se deteriorar, alerta o International Crisis Group. Além da queda na receita do Canal de Suez, o turismo diminuiu e os preços de energia e alimentos aumentaram.
Ao mesmo tempo, os países do Golfo enfrentam perdas econômicas significativas e custos elevados para reconstrução, reposição de armamentos e ampliação de suas defesas, destacou Kaldas. "A disponibilidade de apoio financeiro, mesmo que desejassem oferecê-lo, pode estar sob pressão, especialmente porque o Egito terá de competir com necessidades de reconstrução no Líbano, Síria e Gaza", afirmou.
Pressão diplomática
Paralelamente, a pressão diplomática sobre o Egito também cresce por parte dos Estados Unidos. A agência de notícias Reuters informou em 25 de maio que o presidente americano, Donald Trump, pediu a Arábia Saudita, Catar, Paquistão, Egito, Turquia e Jordânia que aderissem aos Acordos de Abraão e normalizassem relações com Israel, como parte de sua estratégia na crise com o Irã.
Em 2020 e 2021, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Marrocos e Sudão já haviam normalizado relações com Israel. Egito e Jordânia têm tratados de paz com Israel desde 1979 e 1994, respectivamente.
A Arábia Saudita interrompeu negociações após o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023 e a guerra em Gaza, condicionando qualquer acordo à criação de um caminho para um Estado palestino.
Para Kaldas, o impulso de Trump pela normalização é mais uma tentativa de demonstrar algum resultado no conflito com o Irã. "O Egito também está preocupado com a postura hostil de Israel na região, então oferecer apoio diplomático adicional a Israel é algo que o governo egípcio provavelmente quer evitar neste momento."
As relações entre Egito e Israel têm se deteriorado desde o ataque do Hamas em 2023 e a guerra subsequente em Gaza. Israel chegou a afirmar que gostaria de ver milhões de palestinos de Gaza se deslocarem para o Egito.
Além disso, o Cairo também teme um colapso total do Irã, alerta Michelle Pace. "Isso fortaleceria a predominância regional de Israel", afirmou. Segundo ela, esse cenário reduz a autonomia estratégica do Egito e o empurra para uma diplomacia pragmática em vez de uma postura de confronto.
Repressão e opinião pública
Internamente, o governo também precisa considerar o descontentamento popular. "Uma parcela significativa da população egípcia vê o Irã como a parte prejudicada no conflito", diz Kaldas. Para Sissi, isso significa evitar um apoio explícito ao que muitos egípcios consideram "agressão dos EUA e de Israel contra o Irã".
Por outro lado, conflitos no Oriente Médio têm permitido ao governo evitar maior escrutínio internacional sobre seu histórico de direitos humanos, aponta Sarah Leah Whitson, ex-diretora da organização DAWN.
"Milhares permanecem presos injustamente após julgamentos simulados, dezenas de jornalistas e ativistas estão detidos, enquanto muitos outros enfrentam novas acusações em processos coletivos por terrorismo." Segundo ela, o poder das Forças Armadas se expandiu significativamente, com autoridade para deter e processar civis semelhante à do Ministério da Justiça.

















