As cidades são especialmente vulneráveis ao calor extremo — e cada vez mais enfrentam dias em que as calçadas parecem cozinhar como um fogão e noites insones de tão quentes.
Áreas urbanas densamente construídas,
com suas ruas pavimentadas, superfícies impermeáveis e poucos espaços verdes, são "ilhas de calor" que podem ser de 10 a 15 graus Celsius mais quentes do que as áreas rurais ao redor. Esse calor adicional sobrecarrega infraestruturas essenciais da cidade e prejudica a saúde pública. Quase meio milhão de pessoas morrem todos os anos por causas relacionadas ao calor, segundo dados da ONU.
As mudanças climáticas causadas pelas emissões de combustíveis fósseis significam extremos de calor mais frequentes, mais intensos e mais precoces nos próximos anos. Mas as cidades — onde vive mais da metade da população mundial — estão trabalhando para permanecer habitáveis, compartilhando estratégias de adaptação e resiliência que estão sendo discutidas nas reuniões preparatórias da ONU sobre o clima, em Bonn, até 18 de junho.
"O calor é um assassino silencioso, mas não é inevitável", disse Hans Henri P. Kluge, diretor regional para a Europa da Organização Mundial da Saúde, ao apresentar na quinta-feira (11/06) orientações atualizadas sobre medidas de proteção contra o calor. "Temos as ferramentas. Agora precisamos usá-las".
A natureza do calor mudou
"Hoje, o calor já não é simplesmente uma característica climática local. Tornou-se um desafio urbano, de saúde pública, econômico e socioambiental", destacou Leonardo Madeira Martins, líder de sustentabilidade da cidade de Teresina, no Piauí.
Embora a cidade tropical e densa seja conhecida por seus espaços verdes, Martins afirmou que a temperatura agora frequentemente ultrapassa os 40°C. Isso prejudica "a mobilidade urbana, a qualidade do sono, a produtividade e o bem-estar geral" da população de cerca de 870 mil pessoas.
Moradores de Antália, na Turquia — cidade que sediará a COP31 da ONU — também notaram mudanças no clima de verão.
"Antália é uma cidade mediterrânea onde os verões sempre foram quentes; no entanto, a natureza do calor mudou", disse Melike Kireccibasi, especialista em clima da prefeitura.
Ela afirmou à DW que as ondas de calor estão começando mais cedo, durando mais tempo e tornando-se mais frequentes — uma tendência que pode "se intensificar significativamente até meados do século", especialmente no centro urbano densamente povoado.
"Isso coloca uma pressão crescente sobre nossa população — que agora ultrapassa 2,6 milhões —, bem como sobre nossos serviços de saúde, nossos sistemas de energia e água e os milhões de visitantes que recebemos a cada verão", acrescentou.
Grupos mais vulneráveis
Casas, locais de trabalho e outros edifícios podem proteger as pessoas durante períodos de calor intenso, mas só até certo ponto. Se as temperaturas extremas persistem durante a noite, quem vive em edifícios superaquecidos tem dificuldade para esfriá-los — o que é especialmente perigoso para grupos vulneráveis como crianças, idosos e doentes.
Antália quer adaptar seus edifícios e ajudar os moradores a conviver com o calor, disse Kireccibasi. Isso inclui sistemas de ar-condicionado, mas também reduzir "o quanto nossos edifícios precisam ser resfriados desde o início". Uma avaliação de risco de calor apoiada pela União Europeia, com uso de dados de satélite e projeções climáticas, identificou os moradores mais expostos ao aumento das temperaturas.
A estratégia da cidade inclui melhor design de edifícios, aumento de áreas sombreadas e uso de superfícies que refletem o calor ou oferecem isolamento, como telhados verdes. Outras soluções incluem pontos públicos de água e maior eficiência energética.
"Dessa forma, o resfriamento pode se tornar mais econômico, mais acessível e com menor emissão de carbono", explicou Kireccibasi.
Desigualdade e infraestrutura
Limitações estruturais e desigualdade social também agravam o impacto do calor no Brasil.
"Em uma cidade de renda média como Teresina, nem todas as famílias têm acesso contínuo ao ar-condicionado", pontua Martins.
Isso criou um desafio de saúde pública, "especialmente em comunidades vulneráveis e áreas periféricas, onde muitas casas têm ventilação ruim, telhados inadequados e pouca arborização urbana".
Um projeto de pesquisa em andamento apoiado pela ONU deu a Teresina informações sobre como o calor extremo afeta a saúde de mulheres grávidas e seus bebês, especialmente em comunidades desfavorecidas economicamente. Segundo Martins, isso permitiu desenvolver uma estratégia que inclui acesso a informações e recursos para lidar com o calor durante a gravidez.
Teresina trabalha para preservar e expandir suas florestas urbanas, áreas úmidas e corredores verdes, que ajudam a absorver o calor e facilitam o resfriamento natural da cidade. Hortas comunitárias sombreadas e espaços públicos compartilhados também fazem parte das soluções.
Outra metrópole brasileira, Fortaleza, no Ceará, lançou uma rede de 10 estações meteorológicas que fornece dados em tempo real sobre temperatura, índice UV e umidade nas áreas mais afetadas pelo calor urbano.
"Ao disponibilizar essas informações com transparência para o público, buscamos promover uma compreensão compartilhada dos riscos associados ao calor extremo e incentivar o desenvolvimento colaborativo de soluções", destacou o prefeito Evandro Leitão em um e-mail.
Uma nova geração preparada
Na tentativa de enfrentar o calor extremo, Fortaleza está focando nas escolas públicas com um plano para instalar sistemas de ar-condicionado até 2028, parcialmente alimentados por energia solar. A cidade também quer recuperar áreas verdes em pátios escolares atualmente vazios.
"Sabemos que altas temperaturas impactam diretamente o bem-estar, a concentração e o aprendizado dos estudantes", disse Leitão.
As escolas também são peça-chave no plano de resfriamento do condado de Kilifi, no Quênia, nordeste de Mombaça. Para combater o desmatamento, clubes escolares apoiados pelo governo ensinam estudantes a plantar e cuidar de árvores que oferecem sombra.
"Quando voltam para casa, eles plantam árvores em seus terrenos", contou Wilfred Kenga Baya, diretor de energia do condado. "Estamos formando uma geração que tem conhecimento sobre preservação ambiental e mitigação do calor".
Baya afirmou que pessoas em áreas mais remotas de Kilifi — com eletricidade instável e menos recursos — muitas vezes não têm como escapar do calor. Em resposta, o governo local priorizou a instalação de sistemas descentralizados de energia solar, redes locais confiáveis que ajudam a resfriar instalações essenciais que antes não tinham acesso à rede elétrica nacional, como centros de saúde, escolas e residências.
"A adoção de energia renovável realmente aumentou nos últimos anos", disse Baya, destacando que muitos moradores têm passado a usar ventiladores e fogões movidos a energia solar, em vez de combustíveis fósseis poluentes.
"Essas microrredes garantem que serviços essenciais continuem funcionando sem depender de linhas de transmissão de longa distância, que são vulneráveis".
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