As cenas pareciam as de uma guerra civil: caçadas humanas nas ruas, contêineres de lixo incendiados, densas nuvens de fumaça preta espalhadas por bairros inteiros, um grande contingente de forças de segurança
tentando controlar a situação –Belfast mergulhou no caos na noite de terça-feira (09/06).
Na capital da Irlanda do Norte, protestos xenófobos escalaram. Centenas de pessoas reuniram-se em diversos espaços públicos de Belfast para protestar. A deputada trabalhista de Belfast, Claire Hanna, chegou a falar de um "pogrom racista", em referência aos ataques contra comunidades judaicas no final do século 19 e início do século 20.
Ela disse ter visto homens "irem de casa em casa procurando estrangeiros", inclusive em casas onde viviam famílias migrantes com crianças. Muitos deles estavam mascarados, vários teriam provocado incêndios.
Na quarta-feira, um grande reforço de forças de segurança impediu a repetição dos incidentes em Belfast. Em outras cidades do Reino Unido, porém, foram registradas marchas e distúrbios. Também nesses casos, pessoas teriam sido deliberadamente atacadas por causa da cor da pele, segundo noticiou o Scottish Daily Express.
O estopim da revolta foi um vídeo de um ataque brutal com faca que circulou nas redes sociais. Nele, o agressor aparece com uma faca, sentado sobre um homem ensanguentado no meio de uma rua. Em determinado momento, após esfaquear a vítima repetidamente, ele ergue a faca e grita algo. Em seguida, várias pessoas se aproximam com cautela e tentam contê-lo. A vítima foi levada ao hospital em estado crítico. Segundo a polícia, o agressor era um sudanês de 30 anos com residência legal no Reino Unido.
Radicais de direita nas redes sociais
A chefe do governo da Irlanda do Norte, Michelle O'Neill, e o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, condenaram duramente a violência e anunciaram medidas rigorosas contra os responsáveis. No entanto, também criticaram fortemente várias redes sociais.
De fato, inúmeros publicações antecederam os distúrbios e ajudaram a inflamar ainda mais o ambiente já tenso. Entre outros, o extremista de direita britânico Stephen Yaxley-Lennon, que se autodenomina "Tommy Robinson", já condenado diversas vezes no Reino Unido, convocou protestos em massa em todo o país; o dono do X, Elon Musk, chegou a republicar sua postagem.
Outros extremistas de direita, especialmente do Reino Unido e dos Estados Unidos, também convocaram protestos contra a política migratória britânica.
Os acontecimentos em Belfast trazem à memória o verão europeu de 2024, quando distúrbios xenófobos mantiveram o Reino Unido em tensão por vários dias, após três meninas serem mortas em um ataque com faca na cidade costeira britânica de Southport.
Na época, informações falsas sobre o autor do crime desencadearam distúrbios racistas em todo o país. Extremistas de direita conhecidos, incluindo "Tommy Robinson", também usaram plataformas como X e Telegram para alimentar sistematicamente o clima de ódio.
Longa tradição de confrontos de rua
Na Irlanda do Norte, o atual conflito relacionado à migração encontra uma dinâmica historicamente construída e profundamente enraizada de violência nas ruas. De acordo com observadores, os confrontos mais intensos ocorreram na terça-feira em bairros de Belfast tradicionalmente protestantes e leais à coroa britânica.
Na época dos Conflitos na Irlanda do Norte (The Troubles), na segunda metade do século 20, foi justamente nessas áreas que ocorreram as batalhas de rua mais violentas entre protestantes pró-Reino Unido e católicos pró-Irlanda.
Embora os Conflitos na Irlanda do Norte sejam considerados politicamente resolvidos após o Acordo de Paz da Sexta-feira Santa, em 1998, muitos, sobretudo jovens, norte-irlandeses se sentem negligenciados e esquecidos pela política em Londres. O desemprego é alto e as perspectivas são escassas.
Desde o Brexit, muitos protestantes da Irlanda do Norte também temem um distanciamento gradual do restante do Reino Unido. A logística para distúrbios violentos (como a construção de barricadas ou o uso de coquetéis molotov) existe há décadas nesses contextos e pode ser rapidamente mobilizada.
Grande frustração em regiões economicamente frágeis
Em outras partes do Reino Unido, ressentimentos racistas também encontram terreno fértil. Após os assassinatos em Southport em 2024, os distúrbios mais violentos ocorreram em cidades como Sunderland, Middlesbrough e Hull, antigas cidades industriais do norte da Inglaterra atualmente em declínio.
Altas taxas de inflação, salários estagnados e serviços públicos enfraquecidos, como o sistema de saúde NHS, intensificaram os temores existenciais, especialmente entre a classe trabalhadora branca.
Atualmente, além de algumas regiões da Escócia, os distúrbios também atingiram, entre outros locais, a cidade inglesa de Southampton, onde 18 bairros estão entre os 10% mais pobres de todo o país. Ali, um erro grave da polícia em um caso de homicídio já havia causado grande indignação recentemente e um debate acalorado sobre racismo e migração.
Anos de degradação do discurso político
Nesse contexto, o debate sobre migração na política britânica tem sido extremamente acirrado há anos. Stop the boats (Parem os barcos) era um slogan comum do ex-primeiro-ministro conservador Rishi Sunak, com o qual seu governo pretendia conter a migração irregular pelo Canal da Mancha. O controverso acordo de deportação com Ruanda, que acabou fracassando, também foi iniciativa dele.
Políticos populistas de direita, como Nigel Farage, do partido nacionalista Reform UK, também contribuíram com seus discursos para consolidar narrativas anti-imigração.
Muitos britânicos também foram levados a acreditar que o Brexit traria de volta o controle das fronteiras. No entanto, a imigração continuou elevada, o que gerou profunda decepção em parte da população e a sensação de que o Estado falhou.
Para conter novamente os distúrbios racistas, o governo britânico sob Keir Starmer segue uma estratégia repressiva de tolerância zero. Starmer anunciou que os envolvidos "sentirão todo o peso da lei". Para lidar com o grande número de detenções, o Ministério da Justiça disponibilizou rapidamente mais de 500 novas vagas em prisões, permitindo que os suspeitos sejam detidos mediante procedimentos acelerados.













