A 61ª Bienal de Veneza se prepara para abrir suas portas neste sábado (9) e, até agora, as conjecturas políticas que envolvem os pavilhões nacionais desta que é uma das mais prestigiadas mostras de arte
do mundo têm chamado mais atenção do que as obras em si. Desde de sua pré-abertura para convidados, na terça-feira (5), a Bienal tem sido palco para protestos e sofrido com renúncias de participantes.
O conceito curatorial dessa edição foi concebido pela curadora camaronesa-suíça Koyo Kouoh, que morreu no início de 2025 e não pode ver sua ideia concretizada. Coube à equipe escolhida por ela levar em frente a 61ª Bienal.
Sob o título In Minor Keys, a Bienal toma como ponto de partida a ideia musical do “tom menor”, tradicionalmente associado a atmosferas mais contidas e reflexivas. A partir dessa referência, a mostra propõe um percurso construído por processos mais sutis, coletivos e em constante desenvolvimento. O conceito se baseia em quatro práticas que emergem do encontro entre artistas — encantamento, semeadura de ideias, partilha e criação coletiva — e estrutura a exposição como uma composição de múltiplas vozes, enfatizando troca, escuta e construção conjunta.
Confira as principais controvérsias envolvendo a 61ª Bienal de Veneza até agora.
Renúncia do júri
Antes mesmo da pré-abertura, no dia 30 abril, todos os cinco membros do júri da 61ª Bienal de Veneza renunciaram a seus cargos. Presidido pela brasileira Solange Farkas, o comitê formado também por Zoe Butt, Elvira Dyangani Ose, Marta Kuzma e Giovanna Zapperi chegou a declarar que não premiaria artistas oriundos de países cujos líderes foram acusados de crimes contra a humanidade.
A decisão ocorre em meio ao retorno do pavilhão russo à Bienal após quatro anos de ausência devido à invasão da Ucrânia em 2022. Sem ser citado nominalmente pelo júri em sua decisão, outro país que enfrenta controvérsias é Israel, em meio à conduta do país em Gaza.
O júri seria responsável por eleger os tradicionais Leões de Ouro da Bienal, mas, com a renúncia, a 61ª Bienal vai inaugurar sem sua principal premiação. No lugar, a organização anunciou o Visitor Lions, prêmios definidos por votação do público visitante ao longo da exposição, a serem entregues no encerramento da mostra, em 22 de novembro.
Todos os participantes estão elegíveis ao prêmio, “seguindo o princípio de inclusão e tratamento igual”. “Essa decisão é consistente com o espírito fundador da Bienal, baseado em diálogo e na rejeição de qualquer forma de censura. A Bienal deve permanecer um lugar de trégua em nome da arte, cultura e liberdade artística”, disse em comunicado.
Saída do Irã
Um dia antes da pré-abertura, na segunda-feira (4), o Irã saiu da Bienal e não vai apresentar o seu pavilhão nacional. O comunicado foi feito pela própria comunicação da Fundação Bienal de Veneza, sem explicações sobre a motivação do país. O país enfrenta uma guerra contra Israel e os Estados Unidos.
Protestos na pré-abertura
Na terça-feira (5), protestos marcaram a pré-abertura da Bienal de Veneza. O coletivo feminista russo Pussy Riot, ao lado do grupo FEMEN, protagonizou uma manifestação que bloqueaou o acesso ao pavilhão russo com uma intervenção performática que incluiu fumaça colorida rosa e com as cores da Ucrânia e palavras de ordem.
O pavilhão russo estará aberto durante os quatro dias de abertura à imprensa, mas permanecerá fechado ao longo dos seis meses do evento por conta das sanções da União Europeia. Vídeos serão projetados na parede externa durante o período de fechamento.
Quase 200 artistas, curadores e trabalhadores participantes da Bienal de Veneza de 2026 assinaram uma carta pedindo a exclusão de Israel. Alguns dos próprios artistas participantes da exposição principal também tem protestado, em manifestações realizadas nos arredores do espaço israelense. Mais de 200 pessoas participaram, entoando palavras de ordem e distribuindo materiais críticos à permanência do pavilhão. A ação foi organizada por grupos como a Art Not Genocide Alliance (Anga).
“A Bienal não é um tribunal”
Após as controvérsias, na quarta-feira (6), o presidente da Fundação Bienal de Veneza, Pietrangelo Buttafuoco, convocou uma conferência à imprensa no Teatro Piccolo dell’Arsenale, ocasião em que afirmou: “A Bienal não é um tribunal, é um jardim de paz. Não podemos fechar nem boicotar como resposta automática”.
Ele ainda acusou os críticos da participação de Rússia e Israel no evento de “narcisismo” e “censura”. A declaração reforçou as tensões que circundam a mostra.
Greve dos trabalhadores
Nesta sexta-feira (8), trabalhadores da cultura, artistas, sindicatos e coletivos internacionais entraram em uma greve de 24 horas, em oposição à participação de Israel na mostra. Nesse contexto, a agência italiana ANSA noticiou que diversas nações fecharam seus pavilhões devido à greve, entre eles Áustria, Bélgica, Egito, Lituânia, Luxemburgo, Polônia, Eslovênia, Espanha, Suíça, Turquia, Finlândia, Holanda, Irlanda, Catar, Malta, Chipre, Equador e Reino Unido.











