A dança sempre esteve presente na vida do bailarino Henrique Lima, 49. Quando criança, no Recife (PE), onde nasceu, ele já ensaiava os primeiros passos ao som de forró ao lado da mãe. Também guarda com
carinho a lembrança do grupo cover de Menudo que ela organizou com ele e os primos — um prenúncio lúdico de uma trajetória que ganharia contornos profissionais anos depois.
Com passagens por companhias de destaque, como a Cisne Negro Cia. de Dança e o Balé da Cidade de São Paulo, além de experiências na França, Portugal e Bélgica, Henrique hoje se dedica à sua própria companhia, a Cia NoRastro, e ao Jambugalpão, espaço dedicado a apresentações e oficinas de dança na Vila Romana, zona oeste de São Paulo. O grupo apresenta o espetáculo
Do Chão Não Passa nos dias 1, 2 e 3 de maio no Teatro Paulo Eiró.Primeiros passos
A trajetória profissional começou cedo. Aos 14 anos, Henrique ingressou no Balé Popular de Pernambuco para explorar danças populares da região. “Foi ali que comecei a gostar de verdade de dança”, lembra.
Uma bolsa de estudos abriu caminho para o balé clássico e, a partir daí, ele passou a explorar diferentes linguagens. “Fiz todo tipo de aula: balé moderno, dança contemporânea, jazz…”, conta. Em 1999, veio a mudança para São Paulo, onde integrou a Cisne Negro Cia. de Dança por cinco anos. “Esse conhecimento da técnica clássica me abriu portas em companhias de dança contemporânea, que exigem esse conhecimento de balé clássico”, conta Henrique, que, graças a essa experiência, conseguiu entrar no prestigiado Balé da Cidade de São Paulo, em 2010, após passar alguns anos em grupos de dança europeus.
O chão como linguagem
Com uma bagagem diversa, o bailarino levou tempo para encontrar uma identidade própria. “Eu tinha tantas linguagens no meu corpo, de outros coreógrafos e companhias, que eu não sabia o que eu dançava, na verdade”, diz o dançarino. Ele embarcou em uma investigação própria, até que teve a ideia de explorar uma técnica particular de sua trajetória.
“Sempre me machuquei muito, porque me preparava no balé clássico e depois ia me jogar, rolar no chão e pular no contemporânea. E o processo de aprender as coreografias é muito rápido, não tem ninguém para falar ‘cuidado com o joelho’, ‘não bate o osso', ‘não bate o ombro”, lembra.
Foi da necessidade que ele criou sua própria técnica, para evitar ferimentos na dança contemporânea, e que se consagrou como sua grande marca. “Eu venho estudando isso há um bom tempo: como criar sequências no chão, como me fortalecer, como não me machucar.”
Henrique detalha que o processo envolve consciência corporal e adaptação ao peso do próprio corpo, com técnicas de rolamento e apoios. “São movimentos de fluxo, de sequência, que eu levo também para as aulas, para o corpo ir se acostumando com esse peso. Mesmo sendo bailarino contemporâneo, eu nunca tive essa preparação de dança no chão.”
Ao deixar as companhias, decidiu sistematizar o que vinha pesquisando. “Falei: ‘Agora eu vou construir a minha técnica para entender como eu me machucava e poder compartilhar isso também’. E fui criando essa dança no chão.”
A Cia no Rastro e ‘Do chão não passa’
A pesquisa deu origem ao espetáculo Do Chão Não Passa, em que todos os sete bailarinos permanecem no solo durante toda a apresentação. “Tem duetos, quartetos, solos, mas o tempo todo é movimento no chão”, explica.
A proposta surgiu durante a pandemia. “Quando estava todo mundo parado, eu pensei: ‘Do chão eu não passo’. Comecei com a ideia de um solo, mas depois quis montar um trabalho maior, criar uma companhia para desenvolver isso com mais propriedade.”
A Cia NoRastro nasceu em agosto de 2024, refletindo essa abordagem. “O nome veio porque é um trabalho de chão, rasteiro”, diz. “É uma técnica que busca desenvolver rolamentos, quedas e fluxo sem se machucar, entendendo como entrar e sair do chão.”
“A gente vai se acostumando com a pancada”, resume.
Do Chão Não Passa.
Teatro Paulo Eiro. Avenida Adolfo Pinheiro, 765, Santo Amaro, Sex. (1) e sáb. (2), 20h. Dom., 19h. Grátis. Ingressos distribuídos 1h antes de cada apresentação.












