No hip-hop, a palavra é lei, e a caneta é a que dita as regras do jogo. Historicamente dominado por uma narrativa cis masculina que relegava vozes femininas a participações pontuais no refrão, o rap brasileiro
assiste hoje a uma das maiores revoluções estéticas de sua trajetória. Em comunidade, uma nova geração de artistas negras e periféricas dominou os palcos, os charts e as discussões culturais mais quentes do país.
Nomes como Duquesa, Ebony, Ajulliacosta, Tasha & Tracie, MC Luanna e NandaTsunami não são promessas de nicho, mas donas da narrativa do rap nacional contemporâneo. Elas compartilham uma lírica cirúrgica sobre amor, autoestima, sexo, independência, poder e emancipação, embaladas por uma autoconfança inabalável que dita a moda e chama a atenção de um público ávido por representatividade sem filtros.
“São coisas da nossa geração, que cresceu com internet, memes e músicas em que os homens falam sobre qualquer coisa abertamente. A gente traz esse direito para nós mesmas. É importante que tenhamos espaço para falar sobre o que a gente quiser”, diz Nanda, rapper de São Paulo que lançou, no ano passado, um dos álbuns mais quentes da cena, É Disso que Eu Me Alimento.
Para Tasha, do duo paulistano Tasha & Tracie, a ascensão das mulheres na cena do rap passa a mensagem que o país precisa escutar. “O Brasil é um lugar regido por mulheres, como chefes de família dentro das periferias. Temos muito a dizer em uma perspectiva que representa uma grande parte da população.”
Para compreender a magnitude desse movimento, é preciso olhar pelo retrovisor. Nas décadas de 1990 e 2000, pioneiras gigantescas como Dina Di (morta em 2010, a rapper paulista começou a carreira em 1989 e foi vocalista do grupo Visão de Rua) e Sharylaine (outra representante dos anos 1980, integrou o elenco da coletânea Consciência Black, Vol. I, de 1988, que também revelou os Racionais MCs) abriram os caminhos na marra.
No entanto, em um ambiente hostil e hipermasculinizado, a sobrevivência artística exigia uma postura de blindagem. Muitas vezes, para serem validadas e respeitadas pela banca, elas precisavam assumir uma estética visual de sobriedade. “Foram anos de luta e de resistência com grandes mulheres que fizeram história e abriram caminho para todas nós. Sempre penso na coragem e na persistência delas, que tiveram que cavar a oportunidade, enfrentar o preconceito e mesmo assim não desistiram. Se hoje eu sou, é porque elas foram e ainda são”, comenta Stefanie, rapper paulista com duas décadas dedicadas ao hip-hop — e que lançou seu primeiro disco solo em 2025, Bunmi, com participações de Emicida, Rincon Sapiência, Luedji Luna e mais.
Quase trinta anos depois, a nova geração reivindica a totalidade de suas existências, sem concessões. “É um símbolo muito grande de que estamos desenvolvendo um orgulho dos nossos traços, do nosso corpo, sem deixar na mão dos homens para que eles falem o que esperam de nós”, analisa Tasha.
É uma mudança lírica e também visual, com a bandeira da moda periférica, o resgate da estética Y2K (tendência fashion da virada do milênio, com cores vibrantes e calças de cintura baixa), os dentes de ouro, as unhas de gel decoradas e a exaltação do cabelo crespo. Tendências que têm impacto político e representam a pluralidade feminina. “Quando a gente era pequena, não tínhamos referências. Tudo parecia um defeito: o nosso cabelo, a nossa cor, o nosso nariz... Acredito que estamos vendo o fim do auto-ódio”, diz MC Luanna, artista de Osasco, São Paulo.
Diferente do modelo tradicional da indústria da música, que historicamente cria rivalidades e permite apenas uma mulher de destaque por vez nas paradas de sucesso, a atual geração joga em equipe. Elas sobem ao topo juntas, dividindo feats, promovendo os trabalhos umas das outras e criando uma rede de apoio na indústria musical. Hits lançados em duo comprovam isso, como 99 Problemas, com Duquesa e MC Luanna, ou Set Ajc 2, com Ajulliacosta e Duquesa.
Esse corre coletivo tem gerado impacto no mercado fonográfico brasileiro. De acordo com dados recentes do Spotify Brasil, o consumo de faixas assinadas por mulheres no rap e no trap nacional registrou um crescimento de mais de 140% nos últimos dois anos.
Além disso, lançamentos recentes de artistas como Duquesa e Ebony figuraram entre os lançamentos mais comentados do país, furando a bolha do gênero urbano e atraindo a atenção de grandes festivais de música e marcas de alta moda global. “Existem muitos estereótipos e expectativas em relação a nós, e somos bem mais do que nosso recorte”, afirma Tracie.
O sucesso estrondoso de canções que fertam com o deboche inteligente e o empoderamento, traço marcante na caneta afiada de MC Luanna, Ajulliacosta e NandaTsunami, redesenha diariamente a subjetividade de milhares de jovens pelo Brasil. “A nossa própria história fortaleceu o movimento. Porque é um movimento de luta, real e de coragem. Um movimento que encoraja, em que muitas se identificam e seguem trilhando o seu próprio caminho”, diz Stefanie.
Sem espaço de submissão ou escassez, o lugar é o topo. O novo império do rap nacional é delas. ■
Publicado em BRAVO! de agosto de 2026, edição nº 193











