Assistir a Cangaço Novo, sucesso nacional do Prime Video, que acaba de ganhar segunda temporada, é imergir em um universo inteiro. Para além da direção de Fabio Mendonça e Aly Muritiba e das atuações de Allan
Souza Lima, Alice Carvalho e Thainá Duarte, há uma construção essencial por parte dos roteiristas, que criaram todo o enredo com base em uma série de conexões entre realidade e ficção.
Os autores do faroeste contemporâneo são o casal Eduardo Melo, 42, e Mariana Bardan, 38. Os dois paulistanos costuraram delicadamente a trama cheia de ação e vingança, centrada em Ubaldo (Allan Souza Lima), bancário de São Paulo que descobre ser herdeiro de um cangaceiro nordestino na cidade fictícia de Cratará. Mais do que apenas o cenário árido do sertão, há uma composição com conflitos e personagens complexos, nada maniqueístas.
Como inspiração direta ou indireta para o enredo, o universo particular dos roteiristas é igualmente profundo e multifacetado. Tudo começou em 2008, quando Mariana e Eduardo se conheceram no primeiro dia do curso de Cinema da Faap (Fundação Armando Álvares Penteado). Além da paixão — casaram-se há catorze anos —, desenvolveram uma parceria para realizar provas e trabalhos juntos.
Chegaram a se mudar para Los Angeles (EUA), onde fizeram um curso intensivo de roteiro e voltaram com sede de produzir algo com essência brasileira. A primeira temporada, que estreou em 2023, foi um sucesso — ficou semanas no topo das mais assistidas da plataforma de streaming.
Para a segunda, o processo foi um pouco diferente. “Envolveu expectativas de muita gente. Porém, pensamos que se fosse tentar atendê-las seria desesperador. Nos concentramos no que queríamos expor, no que gostamos de fazer como exercício”, conta Mariana. “Teve uma hora em que a gente teve que ‘meter o louco’, para não se preocupar”, acrescenta Eduardo.
A nova leva de episódios traz novos personagens, como o do cantor Xamã, recém-chegado ao elenco, que faz o Carioca, peça fundamental para um grande assalto. “Com ele, trabalhamos a ideia de pertencimento, que já era sentida por Ubaldo. Não queríamos que fosse apenas uma aparição relâmpago [de Xamã]”, explica Eduardo.
O coautor da série se identifica pessoalmente com os questionamentos dos personagens. Filho de um cearense e uma baiana, ele teve que lidar com esse conflito. “Sempre fui visto pelos sudestinos como nordestino e como sudestino pelos nordestinos”, diz. Segundo Eduardo, alguns personagens têm como referência seus familiares, como tios e primos. “Não é uma história sobre mim ou sobre nós, mas é impossível não ter intersecções emocionais. Se o roteirista fizer uma coisa que não é ele, vai se sentir desalinhado.”
Esse “desencontro” de pertencimento também existiu por um tempo na vida profissional: ele se formou em matemática aplicada e começou uma carreira em um banco de investimentos. Hoje, tem uma mentalidade totalmente oposta. “Digo que o banco é o grande inimigo mundial, quem é que não tem raiva de um banco?”, pergunta. “Então era muito fácil trazer esses sentimentos para dentro da trama.”
A inspiração de Mariana vem de uma combinação entre fato e vontade. “Tudo que eu li, vi e ouvi está presente no momento em que escrevo, mas também tinha um desejo forte de fazer uma coisa que nunca tinha visto, para concretizar na ficção”, afirma. Ela se refere às potentes personalidades femininas no enredo.
Para construí-las, também tem como fonte a própria família. “Fui criada por mãe solo, sete tias, avó, primas. Muitas mulheres.” Não por acaso, a palavra “lar” remete a ela o bairro de Registro, em Taubaté, no interior paulista, onde cresceu e passou um bom tempo na casa da avó.
Outras pessoas e atividades do dia a dia contribuíram para a construção de repertório da dupla. Eduardo é viciado em notícia, lê muito, de diferentes fontes e acredita que “não há lugar maior de inspiração do que a realidade”. Adora cozinhar feijoada e baião-de-dois para amigos e familiares. Trabalhou por quatro anos na produção da Mostra de Cinema de São Paulo e considera o período algo formador e essencial na vida. Mariana gosta de viajar, caminhar e conectar-se com a natureza. Aprecia jogos de cartas e quebra-cabeças. Tem como mestre um professor de violino da infância, que a ensinou a estudar e ter disciplina.
Na ficção, Eduardo destaca dois filmes que o chocaram: Pagador de Promessas (1962) e Vidas Secas (1963). Mariana ressalta a literatura e revela dois livros que a marcaram: Luzia-Homem (1903) e Grande Sertão Veredas (1956).
Para além de Cangaço Novo, o futuro é promissor para o casal. Eles assinam o roteiro de Bruna Surfistinha 2 e da animação Tum Tum, que terá janela de exibição na TV Cultura. “Nossos projetos são muito variados”, diz Eduardo. “Correr risco é o nosso forte”, complementa Mariana.















