Fazer listas com os “5 melhores” ou “10 melhores” filmes nunca é simples. No Dia das Mães, porém, esse exercício parece inevitável — especialmente quando
pensamos em como o cinema transformou a maneira de retratar a maternidade nas últimas décadas.
Durante muito tempo, mães apareceram nas histórias quase como figuras organizadoras da narrativa. Eram personagens responsáveis por acolher, aconselhar, proteger ou se sacrificar pelos filhos. Em muitos casos, existiam apenas para sustentar emocionalmente os protagonistas, sem espaço para desejos, contradições ou individualidade.
Nos últimos 20 anos, isso começou a mudar. As mães deixaram de ser apenas símbolos de cuidado e passaram a ocupar o centro das histórias como mulheres complexas, cansadas, ambiciosas, falhas e emocionalmente contraditórias.
Talvez seja justamente por isso que tantas personagens maternas recentes tenham provocado identificação tão imediata no público feminino. Não porque sejam perfeitas, mas porque parecem constantemente tentando equilibrar afeto, culpa, sobrevivência e identidade própria em um mundo que ainda exige delas disponibilidade emocional infinita.
Donna, de “Mamma Mia!”, e o início dessa mudança
Donna Sheridan, de Mamma Mia!, ajudou a romper uma imagem tradicional da maternidade no cinema popular.
Interpretada por Meryl Streep, Donna é caótica, divertida, sexualmente livre, impulsiva e profundamente amorosa — sem precisar existir como uma figura maternal idealizada. Ela cria a filha sozinha, enfrenta inseguranças financeiras e afetivas, mas o filme nunca a transforma em mártir.
Existe algo quase revolucionário na maneira como “Mamma Mia!” permite que Donna continue sendo uma mulher completa, e não apenas “a mãe da noiva”. Em muitos sentidos, a personagem abriu espaço para um cinema mais confortável com mães imperfeitas.
O esgotamento feminino em “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo”
Anos depois, Evelyn Wang, de Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, levaria essa discussão a outro nível.
Vivida por Michelle Yeoh — vencedora do Oscar pelo papel —, Evelyn é uma mãe esmagada pela sensação de fracasso, pela distância emocional da filha e pela percepção dolorosa de que talvez nunca consiga corresponder às expectativas impostas a ela.
O longa funciona quase como uma metáfora do esgotamento feminino contemporâneo. Entre trabalho, casamento, burocracias e conflitos familiares, Evelyn tenta sobreviver à ideia de que sua vida poderia ter sido diferente.
No fundo, o multiverso do filme parece menos sobre ficção científica e mais sobre arrependimento materno.
Mães imperfeitas e emocionalmente humanas
Há algo profundamente contemporâneo na forma como o cinema recente passou a admitir que mães também sentem raiva, frustração e ambivalência.
Em Bird Box, por exemplo, Malorie, interpretada por Sandra Bullock, inicia a história rejeitando emocionalmente a maternidade. O filme não romantiza sua gravidez nem constrói instantaneamente um vínculo idealizado com as crianças.
O amor surge aos poucos, em meio ao medo e ao instinto de sobrevivência. Em outra época de Hollywood, talvez essa personagem precisasse ser “corrigida” pela narrativa. Em “Bird Box”, ela é humanizada justamente porque não corresponde imediatamente ao modelo da mãe naturalmente devotada.
“Sexta-Feira Muito Louca” estava à frente do tempo
Vista hoje, a comédia Sexta-Feira Muito Louca parece ter antecipado debates que dominariam a discussão sobre maternidade anos depois.
Tess Coleman, interpretada por Jamie Lee Curtis, é uma mãe profissionalmente bem-sucedida, exausta e constantemente julgada pela filha adolescente.
Quando as duas trocam de corpos, o filme faz algo raro: obriga mãe e filha a experimentarem o peso da vida uma da outra. O que parecia apenas uma comédia sobre conflito geracional se transforma em uma discussão sobre invisibilidade feminina, sobrecarga mental e a pressão para que mães nunca falhem.
“Barbie” e o peso das expectativas sobre as mães
Talvez nenhuma personagem recente tenha sintetizado tão bem as contradições da maternidade contemporânea quanto Gloria, de Barbie.
Interpretada por America Ferrera, Gloria protagoniza um dos discursos mais compartilhados do cinema recente ao verbalizar algo que muitas mulheres reconhecem imediatamente: a impossibilidade de atender a todas as expectativas ao mesmo tempo.
Ela não surge como mãe idealizada, mas como uma mulher tentando sobreviver ao envelhecimento, à culpa, ao distanciamento da filha e à sensação permanente de inadequação.
O cinema finalmente deixou mães serem humanas
O mais interessante é perceber que nenhuma dessas personagens é construída como heroína clássica.
O cinema contemporâneo parece menos interessado em mães inalcançáveis e mais fascinado por mulheres emocionalmente reais: mães que amam os filhos, mas também sentem medo de decepcioná-los; que tentam proteger, mas falham; que desejam continuar existindo para além da maternidade.
Talvez essa seja a grande mudança das últimas décadas. O cinema finalmente começou a admitir que mães não existem apenas para sustentar narrativas alheias. Elas também têm crises, fantasias, arrependimentos e desejos próprios.
E é justamente por isso que essas personagens permanecem tanto tempo na memória coletiva. Porque deixaram de parecer símbolos abstratos de perfeição e passaram a soar humanas.
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