No amanhecer de 12 de junho, muitos homens acordam transformados. Eles são preguiçosos, ausentes e distraídos dentro da relação nos outros 11 meses e 29
dias do ano, mas se tornam especialistas em flores, reservas de restaurantes e declarações de amor no Dia dos Namorados. Por algumas horas, esse esforço extraordinário pode ser suficiente para nos convencer de que somos amadas.
A ficha cai para algumas mulheres, e isso já rendeu cenas memoráveis em filmes. Em
Closer – Perto Demais (2004), a personagem reage ao “eu te amo” do namorado com a pergunta: "Onde está esse amor? Eu não consigo vê-lo, tocá-lo, senti-lo. Consigo ouvir algumas palavras, mas eu não posso fazer nada com as suas palavras fáceis."Outras tantas, porém, continuam na relação de um único dia bom por ano. O homem não lava uma louça, demonstra preguiça diante das suas demandas, deixa de cortejá-la, flerta com outras mulheres, não planeja sequer o próximo fim de semana ao seu lado, mas, no Dia dos Namorados, faz um grande gesto.
Escutar que o amor deve ser construído diariamente virou clichê, mas, quando a pista parece salgada demais, deixar um relacionamento pode soar bem desesperador. Há uma expressão usada pela atriz Valentina Bulc, no podcast Obra Aberta, que descreve bem esse fenômeno: a “merda quentinha”. Você sabe que está em uma situação ruim, mas ela é familiar, confortável, cômoda e, por isso mesmo, difícil de abandonar.
Como as relações contemporâneas são afetadas pela lógica do consumo e da fácil substituição?
Ao mesmo tempo, uma demonstração grandiosa de afeto parece motivo suficiente para comemoração, sobretudo quando tantas pessoas não estão recebendo menos do que isso. A socióloga Eva Illouz argumenta que o amor contemporâneo foi profundamente moldado pela lógica do consumo. No Dia dos Namorados, quanto maior o presente, mais convincente parece o sentimento.
As relações se tornaram tão facilmente substituíveis que tampouco parece necessário investir demais nelas. Um aplicativo de namoro oferece centenas de possibilidades em poucos minutos, além do Instagram, que funciona como uma vitrine permanente de alternativas.
A tecnologia ampliou nossa percepção de escolha. Há o lado positivo nessa liberdade de escolher e encerrar relações, especialmente quando elas envolvem violência, abuso ou sofrimento. Mas permanecer em um relacionamento falido, apenas pela comodidade ou pelo medo da solidão, parece uma escolha mais difícil de justificar.
Isso não significa transformar o relacionamento em uma planilha de compensações, medindo quem fez mais ou quem se esforçou menos, mas viver permanentemente desconfortável porque não se sente amado deveria servir como um alerta.
Como a coragem para encerrar ciclos pode transformar a sua vida?
Quando encontramos coragem para abandonar aquilo que já não cabe em nossa vida, aliás, abrimos espaço para novas experiências, pessoas e possibilidades. Algumas boas, outras nem tanto. Ao menos, não exigirão que permaneçamos instalados na infelicidade.
Enquanto escrevo este texto, penso frequentemente em um trecho de Clarice Lispector:
“Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar”.
Que a gente tenha coragem de perder aquilo que não nos é essencial.
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