Um destino de viagem que merece um olhar particularmente feminino é Chefchaouen, conhecida como a Cidade Azul, no Marrocos, no continente africano, ainda
que distante dos consagrados pontos turísticos de Marrakesh e Casablanca. Desde a sua origem até a rotina atual, o vilarejo que nasceu nas montanhas, protegido por uma fortaleza, guarda histórias e tradições, oferecendo inúmeras possibilidades para quem deseja se perder no labirinto de paredes azuladas que caracteriza o lugar.
O nome da cidade remete a “chifres” na língua berbere, grupo étnico indígena do Norte da África, em referência aos picos que rodeiam a povoação, que atualmente abriga cerca de 45 mil habitantes.
É possível encontrar diferentes explicações para o hábito de os moradores colorirem suas casas e ruelas de azul. A versão contada pelo nosso guia de viagem, Aladdin, é que a cal misturada ao tingimento de anil ajuda a manter o local mais fresco e a amenizar as altas temperaturas do verão.
Líder militar, pirata ou rainha: a curiosa história de Sayyida al-Hurra
Aladdin também chama a atenção do nosso grupo para uma história ainda pouco conhecida e pouco registrada: a de Sayyida al-Hurra (cujo nome pode ser traduzido como “Senhora Livre”, “Mulher Livre” ou, literalmente, “Nobre Dama”).
Filha de uma família muçulmana expulsa da Andaluzia após a queda de Granada, Sayyida al-Hurra nasceu em Chefchaouen no fim do século XV, por volta de 1495, e se tornou uma das mulheres mais poderosas do mundo islâmico.
Após a morte do primeiro marido, assumiu o governo de Tetuão, importante cidade portuária do norte do Marrocos, em uma época marcada pelos conflitos entre os reinos cristãos ibéricos e os territórios muçulmanos do Mediterrâneo.
Conhecida por sua habilidade política e militar, ela comandou operações corsárias — ataques marítimos autorizados por um governo, nos quais navios particulares (os corsários) recebiam permissão para saquear embarcações e povoados de nações inimigas. Atuou contra navios portugueses e espanhóis, dividindo a influência sobre o Mediterrâneo com o célebre corsário otomano Hayreddin Barbarossa.
Sua atuação estava ligada tanto à resistência ao avanço ibérico quanto à memória do exílio vivido por muitas famílias muçulmanas expulsas da Península Ibérica. Para seus aliados, era uma líder militar e política; para seus inimigos, uma pirata temida.
Seu poder era tão reconhecido que, por volta de 1540, o sultão marroquino Ahmed al-Wattasi viajou de Fez a Tetuão para se casar com ela — episódio considerado único na história do país, já que Sayyida se recusou a abandonar sua cidade e seu cargo em razão do casamento.
Após cerca de três décadas no poder, foi deposta por rivais políticos e retornou a Chefchaouen, onde viveu os últimos anos de sua vida. Hoje, é lembrada como uma das mais importantes figuras femininas da história do Marrocos e um raro exemplo de mulher que exerceu poder soberano no mundo islâmico do século XVI. Não há esculturas que a retratem, já que a tradição islâmica desencoraja a representação figurativa em contextos de veneração.
Em uma região onde as narrativas históricas costumam destacar sultões, conquistadores e guerreiros, a trajetória de Sayyida al-Hurra lembra que também houve mulheres exercendo poder, negociando alianças e influenciando os rumos do Mediterrâneo. Talvez por isso sua história continue ecoando entre as montanhas azuis de Chefchaouen.
Fornos comunitários e a tradição mantida por mulheres
Em meio às inúmeras portas abertas aos turistas, há sempre uma surpresa. Entre elas estão os fornos comunitários, onde as mulheres levam para assar o seu khobz (ou khobz dyal dar, “pão da casa”), um pão marroquino redondo, de casca firme e miolo macio. A receita mais comum leva farinha de trigo, semolina, sal e fermento. De vez em quando, alguma erva ou especiaria é adicionada à massa.
As mulheres costumam preparar a massa em casa e levá-la em bandejas identificadas. O padeiro organiza dezenas de pães diferentes para assar ao mesmo tempo no forno a lenha. O resultado é um pão de casca mais tostada e aroma defumado, geralmente servido com azeite, azeitonas, mel, queijo fresco ou amlou, uma pasta feita de amêndoas, mel e óleo de argan.
Os fornos coletivos são locais de produção de alimentos, mas também funcionam como espaços de encontro e convivência. As mulheres saem de casa, caminham pela cidade, encontram-se umas com as outras e trocam novidades sobre a vida cotidiana. Assim, enquanto levam seus pães para assar, ajudam a manter viva uma tradição que atravessa gerações.
Como chegar e onde ficar em Chefchouen
Viajamos pela Royal Air Maroc em um voo direto entre Guarulhos e Casablanca, com duração de pouco mais de nove horas. Aterrissamos na cidade mais conhecida pelos ocidentais graças às telas do cinema. O clássico filme Casablanca se passa nesse trecho do litoral marroquino durante a Segunda Guerra Mundial.
Aproveitamos o dia na cidade para visitar a Mesquita Hassan II, a maior do Marrocos e a única que permite a entrada de não muçulmanos. Seu complexo, parcialmente construído sobre o Oceano Atlântico, tem capacidade para receber 80 mil pessoas na área externa e 25 mil no interior. O local também abriga o segundo minarete mais alto do mundo, com 210 metros de altura, atrás apenas da Grande Mesquita de Argel.
De Casablanca, é possível embarcar no trem de alta velocidade Al Boraq, que chega a 320 quilômetros por hora, em direção a Tânger. Vale reservar um tempo para conhecer o Estreito de Gibraltar, onde o Oceano Atlântico encontra o Mar Mediterrâneo. De lá, é possível avistar a Espanha. O museu integrado ao farol também guarda belas histórias sobre a região.
De Tânger, seguimos de van rumo às montanhas do Rif, uma das regiões mais antigas e culturalmente ricas do Marrocos. É ali que Chefchaouen, a Cidade Azul, preserva uma rotina muito mais próxima das tradições do que da velocidade dos grandes centros urbanos.
É possível se hospedar tanto dentro da medina quanto nos arredores da cidade. Ficamos no Dar Ba Sidi & Spa, a 12 quilômetros do centro, uma extensão tranquila da paisagem das montanhas do Rif. Cercado por jardins e oliveiras, com vista para os picos que emolduram a Cidade Azul, o hotel combina a arquitetura tradicional marroquina dos riads com o silêncio raro de quem está longe do burburinho turístico. Entre piscinas e bangalôs, o local convida a desacelerar.
*CLAUDIA viajou a convite da Royal Air Maroc.
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