Durante décadas, a menopausa permaneceu em banho-maria em matéria de inovação científica. De 2025 para cá, porém, as boas novidades para o controle dos
desconfortáveis sintomas que acompanham a fase não param de pipocar. O primeiro, e mais repercutido até agora, diz respeito à própria reposição hormonal.
Em 2002, um estudo (cheio de falhas, hoje sabemos) apontou uma ligação do tratamento com risco aumentado para doenças cardiovasculares, trombose e câncer, que ajudou a consolidar uma aversão à possibilidade de restabelecer, mesmo que em partes, os níveis de estrogênio e progesterona.
Diante de pesquisas robustas, como a recentemente publicada no The British Medical Journal, com mais de 800 mil mulheres, a segurança da reposição, quando bem indicada, foi comprovada.
Nos Estados Unidos, a agência regulatória FDA retirou a obrigatoriedade dos avisos de segurança, ou black box warnings, que acompanhavam os medicamentos, consolidando a revisão das diretrizes internacionais e finalmente oferecendo alívio para muitas, ufa.
Quando a reposição hormonal não é uma opção
Para uma parcela significativa das mulheres, essa notícia não ajudou em nada. Pacientes que tiveram câncer de mama, especialmente os tumores que respondem a hormônios, permanecem absolutamente impedidas de fazer reposição.
“No consultório, eu via mulheres que não podiam usar hormônios e não tinha nada para lhes oferecer. Era terrível”, diz a ginecologista Cecília Caetano, vice-presidente de assuntos médicos globais e líder de geração de evidências em saúde da mulher da Bayer.
Sim, quem percebeu a doutora conjugar o verbo no passado e sentiu um indicativo de esperança no horizonte, acertou.
No início de maio, durante o ESMO Breast Cancer, congresso sobre câncer de mama da Sociedade Europeia de Oncologia Médica, realizado em Berlim, na Alemanha, foram apresentados os resultados mais recentes do OASIS-4.
A pesquisa clínica de Fase III foi desenvolvida pela farmacêutica para avaliar a eficácia de uma nova molécula, o elinzanetant, no tratamento dos sintomas da menopausa em mulheres com câncer de mama, ou com alto risco de desenvolver a doença, que estejam recebendo tratamentos com bloqueadores, como o tamoxifeno ou inibidores de aromatase.
O que mais incomoda
Para entender a dimensão do impacto de um tratamento não-hormonal para os sintomas da menopausa é preciso contextualizar alguns números.
Anualmente, 47 milhões de mulheres entram na menopausa. Em números absolutos, em 2030, serão 1,2 bilhão de mulheres nessa condição.
“Todas as fases da vida devem ser vividas da melhor forma possível. Existe tanta preparação para a primeira menstruação e tão pouca para a última, quando as mulheres estão extremamente ativas na sociedade. Por isso, o impacto dos sintomas é maior e precisa ser tratado”, continua Cecília.
Anualmente, 47 milhões de mulheres entram na menopausa.
Até 2030, serão 1,2 bilhão de mulheres na menopausa.
Os sintomas vasomotores (SVM), popularmente conhecidos como ondas de calor, afetam até 80% durante a transição menopausal.
Por que as ondas de calor afetam tantas mulheres?
Durante o momento de transição menopausal, cerca de 80% das mulheres experimentam ondas de calor ou fogachos, nomes populares para os sintomas vasomotores (SVM) associados à queda do estrogênio.
No cérebro, a diminuição desse hormônio causa a hipertrofia e a hiperativação de neurônios no hipotálamo (centro regulador de temperatura e do sono, entre outras funções).
O controle do calor corporal fica comprometido e a mulher enfrenta episódios desagradáveis. Independentemente da temperatura do ambiente, o rosto esquenta, fica vermelho e o suor na nuca vem em pingos grossos.
Quando acontece durante a noite, fica difícil voltar a dormir e descansar profundamente.
O impacto da menopausa induzida no tratamento do câncer
No caso das pacientes oncológicas, o cenário é agravado pelo fato da menopausa não acontecer necessariamente no momento natural do corpo, mas provocada por medicamentos ou cirurgia.
“Minha mãe passou por uma menopausa induzida cirurgicamente durante o tratamento de câncer de mama. Naquela época, removiam os ovários e o útero porque acreditavam que todos os cânceres de mama eram alimentados por estrogênio. Quando eu tinha 11 anos, vi minha mãe entrar instantaneamente na menopausa”, lembra Christine Roth, vice-presidente executiva da Bayer.
Como a nova molécula atua no organismo
Na menopausa, a queda do estrogênio causa hipertrofia e hiperativação de neurônios no hipotálamo (centro regulador de temperatura, sono etc.), interrompendo o controle do calor corporal.
A molécula elinzanetant modula esses neurônios, bloqueando a via que causa as ondas de calor e também atua nos distúrbios do sono ligados à menopausa.
Atualmente, os tipos de câncer são cuidadosamente analisados antes da prescrição dos tratamentos. De todas as pacientes oncológicas, cerca de 70% precisam entrar na terapia endócrina, outro nome para o bloqueio hormonal alcançado com o tamoxifeno ou os inibidores de aromatase.
A estratégia é um pilar imprescindível para a redução do risco de recorrência do câncer, mas encontra forte resistência das pacientes, justamente em função dos efeitos colaterais da menopausa induzida.
A aderência à terapia endócrina não passa da casa dos 66%, sendo que 20% das pacientes alegam que o motivo para abandonar o tratamento são as ondas de calor e a insônia.
Ação da molécula
Na linguagem técnica, o elinzanetant, que já está disponível em países da União Europeia, Reino Unido, Canadá e Estados Unidos com o nome comercial de Lynkuet, é um antagonista duplo do receptor de neuroquinina-1,3 (NK-1,3).
Na prática, ele faz a modulação desse termostato que funciona no nosso cérebro.
Nos estudos OASIS 1 e 2, já publicados na revista científica JAMA, mais de 70% das mulheres relataram que a frequência das ondas de calor caiu pela metade.
“Os resultados mostraram uma redução acentuada da frequência e da intensidade dos fogachos. Também observamos uma melhora impressionante na qualidade do sono e na qualidade de vida”, analisa a doutora Cecília. “O efeito acontece rapidamente: já na primeira semana há uma diferença marcante.”
Em relação à segurança do medicamento, os principais efeitos colaterais foram dor de cabeça e fadiga, na maior parte das vezes leves ou moderados.
Também não houve indícios de toxicidade no fígado, ao contrário do que ocorre com a molécula fezolinetanto, também indicada para o tratamento dos fogachos e cujo risco de lesão hepática foi evidenciado.
Outra forma de medir a boa recepção do elinzanetant é por meio da manifestação das participantes do estudo OASIS.
Ao fim da pesquisa, 92% das mulheres quiseram permanecer na fase de extensão. Claramente satisfeita com os resultados, Cecília brinca: “Os investigadores nunca fizeram um estudo do qual fosse tão difícil tirar as pacientes”.
Na Alemanha, uma caixa com 30 comprimidos é vendida apenas com receita médica por um valor médio de 100 euros (585 reais).
Para as brasileiras que estão no tratamento do câncer de mama ou vêm lidando com os sintomas da menopausa e não podem/querem fazer reposição hormonal, o refresco oferecido pela nova medicação ainda deve demorar algum tempo para chegar.
A submissão à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já aconteceu, em 2025, mas o processo pode levar até um ano e meio para ser finalizado. Mais uma breve eternidade para quem já esperou tanto.
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