Era um sábado de manhã quando Mark sentou Gabriela Vasconcelos no sofá. Aos 40 anos, americano, executivo em uma cidade grande dos Estados Unidos, ele
estava frustrado. Precisava conversar com a namorada brasileira de 24 anos. Não era sobre o trabalho em si, era sobre a humilhação diária de dividir o escritório com homens que considerava inferiores.
“Para mim, um macho alfa como eu, é muito difícil ter que ir para o escritório todos os dias e encontrar machos beta”, disse Mark. “Eu tenho que lidar todos os dias com homens que, em situações diferentes, não ganhariam de mim numa batalha física. Então, o mínimo que você poderia fazer seria acordar antes de mim, às seis da manhã, para fazer o meu café da manhã. Para eu enfrentar esse dia.”
Gabriela escutou em silêncio.
Não eram casados. Estavam namorando havia alguns meses. Ela cursava Direito remotamente e ia e voltava do Brasil aos EUA para visitá-lo. Ainda assim, ali, ele esperava que o serviço doméstico fosse uma compensação pela “carga” de ser um “macho alfa rodeado de betas”.
“Eu já tinha ouvido esse papo de macho alfa, macho beta na internet. Mas nunca imaginei que um cara daquela idade fosse falar isso comigo na vida real”, lembra Gabriela.
“Uma coisa é esse papo em fórum, no Reddit. Cara, vocês conseguem imaginar alguém falando isso na vida real?”
O movimento que saiu da internet
A conversa do sofá hoje faz sentido para Gabriela. Mark passava horas no Twitter, ou no “Macho X”, como ele o chamava, consumindo conteúdo de homens que se identificam como red pill.
O termo, derivado do filme Matrix (1999), descreve quem teria “tomado a pílula vermelha” para enxergar supostas verdades ocultas — no caso, sobre relacionamentos: que mulheres seriam manipuladoras por natureza, que o feminismo destruiu a família tradicional, que existe uma hierarquia biológica entre alfas e betas.
No Brasil, a influência cresce em ritmo acelerado. Um levantamento da Fundação Getulio Vargas (FGV) mapeou 85 comunidades misóginas em redes sociais, com cerca de 225 mil participantes. Desde 2019, o volume de conteúdo aumentou 600 vezes.
Para Bruna Camilo, doutora e pesquisadora em gênero e misoginia, o que parece apenas opinião online se transforma em prática dentro dos relacionamentos.
“O que começa como consumo de conteúdo vira um roteiro de comportamento. Técnica de conquista, script de comunicação, jogo de poder. Há um total esvaziamento do afeto. As relações passam a ser mediadas por cálculo, valor, objetificação, troca, status. O discurso deixa de ser opinião e vira tecnologia de relação”, explica Bruna.
“O ponto de virada é quando o sujeito abandona a pergunta ‘o que está acontecendo comigo?’ e adere à certeza: ‘o problema são elas’. Aí a violência ganha justificativa ideológica.”
Não foi um momento, foi um acúmulo
Jessica*, 30 anos, viveu a transformação em câmera lenta. No início, namorava um homem sensível, que fazia terapia, dividia contas e tarefas, debatia política. “Eu tinha certeza de que estava em um relacionamento diferente. Eu confiava muito nele. Por isso foi tão confuso quando começou a mudar.”
A transformação não veio em uma data. Foi acúmulo. Ele começou a consumir vídeos sobre disciplina, sucesso, masculinidade. No início, parecia algo bom. “Ele estava mais focado.”
Aos poucos, os argumentos da internet entraram nas conversas. “Ele começou a falar que homens estavam sendo prejudicados, que não podiam mais se expressar, que tudo favorecia as mulheres. No começo, eu tentava debater. Mas logo percebi que não era uma troca. Ele já vinha com argumentos prontos, falava de ‘mulheres’ como se eu fosse parte de uma categoria, não uma pessoa específica. Eu virei argumento dentro de uma teoria.”
Aí veio a alternância. Dias em que ele era o mesmo de antes — carinhoso, presente — e outros em que ficava distante, quase frio. “Eu ficava tentando entender o que eu tinha feito para causar essa mudança, porque você não consegue apontar exatamente o problema. Não tem um momento claro pra dizer ‘foi aqui’. Então você fica.”
A psicóloga clínica Luana Andrioli reconhece o padrão. “Há muita intensidade no início da relação. A pessoa se sente extremamente valorizada, escolhida. Mas, então, há uma quebra brusca, e a parceira passa a tentar recuperar aquela fase inicial. Nesse processo, ela acaba se perdendo de si e se submetendo aos comportamentos de dominância e controle.”
O ciclo se repete: afastamento intencional, silêncio, retorno breve quando a parceira se adapta. “Clinicamente, um sinal importante é quando a pessoa começa a se moldar ao outro para evitar conflito ou desaprovação”, explica Luana. “Com o tempo, isso afeta a autoconfiança e a forma como a pessoa se percebe dentro e fora da relação.”
Quando o disfarce cai
Gabriela ficou. Por meses, alternou entre a sensação de estar com um cara “normal” e episódios em que Mark expressava ideias que pareciam saídas de um manual.
Quando a cunhada, sobrecarregada pela rotina de trabalho e cuidados com filhos, decidiu parar de trabalhar e começou a procurar por uma babá, ele achou um absurdo — não pela decisão dela, mas pelo fato de o irmão ter de “lidar com” uma mulher que cogitava contratar babá.
“Para ele, o papel da mulher era cuidar da casa, cuidar dos filhos, sem precisar de ajuda. Ele falava isso com convicção”, lembra Gabriela. “Ele tinha umas falas problemáticas, machistas. Mas, sinceramente, hoje em dia, que homem não tem?”
O argumento de naturalidade — “é assim que funciona” ou “é da natureza” — funciona como blindagem ideológica. Bruna Camilo explica por quê: “A cultura red pill fornece uma legitimação para que essas práticas ocorram. Transforma a violência em estratégia de controle”.
Para Bruna, a parte mais grave é o papel das plataformas digitais. “Elas funcionam como um acelerador de radicalização. Os algoritmos recomendam conteúdo cada vez mais extremo, criam uma sensação de comunidade entre homens ressentidos, e transformam a experiência individual em verdade coletiva. O conteúdo mais indignado é o que mais engaja, então é o mais distribuído. Por que a misoginia é lucrativa? É essa pergunta que precisamos fazer às big techs.”
A demora de nomear
Para Jessica, a percepção veio depois do fim. Quando voltou para buscar suas coisas, encontrou um homem que ela não conhecia. Mais rígido, mais convicto.
Ele falou sem filtros sobre suas ideias — homens e mulheres não podiam ser amigos, certas coisas eram “da natureza” — e disse algo que ela não esqueceu mais: “Agora que a gente não está mais junto, eu não preciso mais concordar com você. Aquilo me deu uma sensação estranha de que, durante toda a relação, ele estava performando”.
Depois, Jessica descobriria que ele participava de grupos online que se apresentavam como “apoio à saúde mental masculina” e que, na prática, reforçavam visões sobre relacionamento, poder e comportamento.
Luana Andrioli explica que esse delay é a regra, não a exceção. “Muitas mulheres relatam algo central: a demora para nomear o que viveram como violência, que aparece como preferência, personalidade ou amor”, diz.
O depois
Gabriela hoje mora em outra cidade dos Estados Unidos, está em um novo relacionamento e produz conteúdo no TikTok — onde contou pela primeira vez a história do café da manhã. O vídeo viralizou. Mulheres que reconheceram o padrão, escreveram para ela. Outras a atacaram, dizendo que ela era exagerada, controladora, problemática. Os mesmos termos que Mark usava.
Para ela, o aprendizado mais difícil não foi reconhecer Mark, mas reconhecer o quanto havia internalizado das ideias que ele consumia. Por um período, a própria Gabriela engoliu conteúdos sobre “como mulheres deveriam agir” para conquistar um homem. “Eu acho que aquilo veio de um momento em que eu estava mal comigo mesma. Eu me limitava a esse pensamento de que o único valor que um cara veria em mim era beleza e juventude.”
Para Luana Andrioli, o resumo é direto: “Relacionamento saudável não é um jogo de poder. Quando alguém precisa de estratégias para se manter no controle, muito provavelmente o que está faltando não é técnica. É vínculo.”
Gabriela hoje fala com franqueza para quem ainda não conseguiu ir embora. “Se o cara reclama de você trabalhar, se impõe coisas sem pé nem cabeça, se quer ser mimado, foge. Não vai mudar. Não adianta fazer café da manhã, almoço, jantar. Não vai dar certo.”
Assine a newsletter de CLAUDIA
Receba seleções especiais de receitas, além das melhores dicas de amor & sexo. E o melhor: sem pagar nada. Inscreva-se abaixo para receber as nossas newsletters:
Acompanhe o nosso WhatsApp
Quer receber as últimas notícias, receitas e matérias incríveis de CLAUDIA direto no seu celular? É só se inscrever aqui, no nosso canal no WhatsApp.
Acesse as notícias através de nosso app
Com o aplicativo de CLAUDIA, disponível para iOS e Android, você confere as edições impressas na íntegra, e ainda ganha acesso ilimitado ao conteúdo dos apps de todos os títulos Abril, como Veja e Superinteressante.
As receitas de CLAUDIA Cozinha na sua mão
Receitas práticas e saborosas para qualquer hora do dia! Seja para um ocasião especial ou até para um jantar rápido e saudável. O aplicativo de CLAUDIA Cozinha com nossas melhores receitas está disponível para iOS e Android.













