Quando um roteirista começa a trabalhar em uma série, é natural imaginar o desejo pelo sucesso: ver o público comentando os episódios, acompanhar a renovação
para novas temporadas e sentir a expectativa crescer a cada novo capítulo.
Mas talvez poucos criadores consigam prever que, 30 anos depois da estreia, sua obra ainda será capaz de atravessar gerações, conquistar novos espectadores e permanecer viva na memória afetiva de quem acompanhou tudo desde o início.
É o caso de Friends. Atualmente, são poucas as pessoas que nunca ouviram falar da série sobre seis amigos vivendo os altos e baixos da vida adulta em Nova York.
Ao longo de 10 temporadas, a sitcom se tornou um dos maiores fenômenos da televisão americana e consolidou personagens, bordões e romances que continuam rendendo até hoje, como a relação entre Rachel e Ross.
A mente por trás do sucesso
Diante de um sucesso tão duradouro, é inevitável pensar nas mentes criativas por trás de momentos que marcaram a cultura pop. Uma delas é Adam Chase, roteirista e produtor norte-americano indicado a sete premiações por seu trabalho nos bastidores da série.
Com passagem marcada pelo Brasil para participar do Rio2C, no Rio de Janeiro, Adam se reúne com o comediante Fábio Porchat no dia 28 de maio. No encontro, os dois devem discutir sobre os limites do humor na era das redes sociais e como as piadas atravessam culturas e conectam referências locais a audiências globais.
E, para preparar o público para sua chegada ao país, Adam conversou com CLAUDIA e revelou detalhes dos bastidores de Friends.
Entrevista exclusiva: Adam Chase revela bastidores inéditos de Friends
O início de Friends: "Só queríamos chegar à segunda temporada"
CLAUDIA: Você imaginava que a série seria tão grande por tanto tempo?
Adam Chase: Absolutamente não. A gente só queria permanecer no ar até a segunda temporada. Tínhamos metas muito modestas. Era apenas meu segundo trabalho, eu tinha 23 anos e mal conseguia acreditar que estavam me pagando para escrever piadas.
Eu esperava que algumas pessoas assistissem e gostassem, claro, mas certamente não imaginava que, 30 anos depois, elas ainda estariam vendo a série.
O fenômeno: Quando os roteiristas notaram que Friends mudou a TV
CLAUDIA: Quando você percebeu que Friends era um fenômeno?
Adam Chase: Depois da primeira temporada, nós fomos bem, mas não de forma extraordinária. Então mudaram nosso horário e colocaram nossas reprises no verão, logo depois de Seinfeld, que era o maior sucesso da televisão naquela época. Foi quando Friends começou a alcançar uma audiência ainda maior.
Eu nem sabia disso, porque praticamente não existia internet naquela época. Mas lembro que estava voltando de avião da casa dos meus pais, em Nova Jersey, e passei por uma banca de jornal. Nas capas de praticamente todas as revistas estava o elenco de Friends. A primeira coisa que pensei foi: “Alguém dessas revistas vai ser demitido, porque todas estão usando a mesma capa”. Achei que tinham cometido um erro terrível. Então percebi que não era um erro.
Depois disso, nós, os roteiristas, saíamos para jantar e, em praticamente qualquer lugar, ouvíamos pessoas nas mesas ao lado falando sobre a série. No começo, achamos que era uma pegadinha, porque vivíamos pregando peças uns nos outros. Pensávamos: “Alguém está nos zoando”. Afinal, qual era a probabilidade de eu estar jantando e ouvir alguém dizer para a amiga: “Você é tão Mônica”? Foi no começo da segunda temporada que entendemos que algo realmente enorme estava acontecendo.
Por que Friends ainda faz sucesso 30 anos depois?
CLAUDIA: O que você acha que explica o fato de a série continuar se conectando com novas gerações, mesmo 30 anos depois?
Adam Chase: Parte disso é um segredo que eu nunca vou entender. Mas acho que a série acertou em uma ideia universal: quase toda cultura passa por aquele período depois que você sai da casa dos pais, mas antes de formar sua própria família, em que você é meio criança e meio adulto, mas, na verdade, não é completamente nenhum dos dois.
Nesse momento, seus amigos viram sua família. Você faz escolhas bobas e infantis, mas também toma decisões sábias e maduras. Acho que esse elemento universal foi o que conectou tanta gente à série. Também acho que os atores eram brilhantes. Mas acredito que foi essa ideia de existir um curto período da vida em que você tem um pé na infância e outro na vida adulta que realmente ressoou com as pessoas.
CLAUDIA: Falando dos bastidores, entre todos os personagens principais, você colocou um pouco de si mesmo em algum deles?
Adam Chase: Acho que me via em todos eles: na lealdade do Joey, no sarcasmo do Chandler, na ansiedade do Ross, na espiritualidade da Phoebe, na obsessão controladora da Mônica.
Acredito que todo mundo tem um pouco de cada uma dessas características dentro de si. Então nunca existiu isso de “Greg escreve esse personagem” ou “Shauna escreve aquela personagem”. Todos escrevíamos todos.
E acho que isso ajudou os personagens a se tornarem tão multidimensionais. Eles não soavam sempre iguais. Tomavam decisões que, às vezes, surpreendiam. Isso acontecia porque havia muitas mentes pensando sobre eles o tempo inteiro, em vez de tudo ficar concentrado em uma ou duas pessoas.
Matthew Perry nos bastidores: "Ele nos salvava quando uma piada não funcionava"
CLAUDIA: E, com tantos dias juntos, qual é sua lembrança favorita dos bastidores?
Adam Chase: Tenho muitas. Mas acho que meus momentos favoritos eram, provavelmente, os mais estressantes: quando uma piada não funcionava diante da plateia.
Existe muita pressão quando uma piada morre. E nós sempre assumíamos a responsabilidade por isso. Nunca era culpa do ator. Significava que nossa piada não era boa o suficiente.
Então, entre as gravações, interrompíamos tudo e nos reuníamos em círculo para criar novas piadas enquanto a plateia permanecia ali, sentada, esperando. Encontrar uma nova piada, entregá-la para o ator e vê-la funcionar eram alguns dos momentos mais emocionantes como roteirista.
Acho que era o mais perto que chegávamos de nos sentir atores, porque aquilo precisava acontecer naquele instante. Precisávamos fazer funcionar diante da plateia, mesmo sem aparecer na câmera.
E muitas vezes Matthew Perry nos salvava, especialmente quando era uma cena do Chandler. Quando não conseguíamos resolver, chamávamos ele. Ele ficava ali no círculo com a gente, trocando ideias. Às vezes, só a presença dele já ajudava a encontrar a solução. Outras vezes, ele mesmo encontrava. Ele era um gênio. Esses momentos são muito preciosos para mim.
Uma mensagem sobre amor
CLAUDIA: Se você pudesse definir Friends em uma mensagem curta, qual seria?
Adam Chase: Acho que Friends era, acima de tudo, sobre amor. Na superfície, era uma comédia romântica. A história começava através de Ross e Rachel e daquela clássica dinâmica de “vão ficar juntos ou não?”. Mas a verdadeira história de amor era entre os seis amigos.
Toda cena era permeada por amor. Você conseguia sentir o quanto eles se amavam. E isso nos permitia levar a série para lugares malucos, fazer com que eles brigassem, terminassem relacionamentos e voltassem, porque tudo era sustentado por esse amor.
Então, para mim, era sobre amor e amizade. Sobre o tipo de amizade que eu gostaria de ter na minha própria vida. Nós roubamos muita coisa das amizades reais que tínhamos e provavelmente deixamos essas pessoas até melhores na série do que eram na vida real.
Ross, Rachel e o futuro: Como os personagens estariam hoje?
CLAUDIA: Se Friends voltasse hoje, onde você acha que os personagens estariam?
Adam Chase: Acho que provavelmente todos teriam um pouco de artrite. Ross e Rachel estariam casados. Chandler e Monica ainda estariam casados. Haveria muitas crianças. E acho que Joey e Phoebe seriam um tio e uma tia absolutamente incríveis.
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