Um relacionamento exige mais esforço do que os contos de fadas fizeram acreditar. Depois de conhecer e se apaixonar por seus pares, casais enfrentam conversas
difíceis, problemas que nem sempre se resolvem na primeira discussão e conflitos muitas vezes fora de seu controle. Porém, alguns parecem lidar melhor com essas situações. Em comum, costumam apresentar a chamada inteligência emocional.
Embora o termo seja usado à exaustão, ele se aplica bem ao contexto amoroso. A capacidade de compreender as próprias emoções e as do parceiro favorece a dinâmica da relação, reduz impulsos e facilita o entendimento mútuo. Tudo isso direciona o foco para a resolução dos problemas, o que oferece mais satisfação ao casal a longo prazo.
Mas quais hábitos ajudam a construir uma relação emocionalmente inteligente? Veja a seguir.
1- Resolver as brigas o mais cedo possível, mas refletir sobre elas
Basta assistir a vídeos de conselhos para casais para encontrar, em algum momento, a dica de não dormir brigados. Mas, ao assistir a outra porção de vídeos, pode surgir a perspectiva de ter um tempo para pensar na discussão antes de resolvê-la, o que pode incluir dormir brigados. Então, de que lado ficar?
“As duas ideias têm um fundo de verdade, mas a forma como são aplicadas faz toda a diferença. ‘Nunca dormir brigado’ pode virar uma pressão para resolver tudo na base do cansaço e da emoção à flor da pele, o que muitas vezes piora a discussão", diz Luiz Mafle, doutor em psicologia pela PUC Minas e pela Universidade de Genebra e professor.
Por outro lado, ter um tempo antes de conversar sobre o problema pode ajudar o casal a ter mais clareza, sem estar no auge da raiva ou da mágoa. “O ponto de atenção é: esse tempo precisa ter um combinado claro, tipo ‘vamos conversar sobre isso amanhã’, e não ser usado como desculpa para varrer o assunto para debaixo do tapete.”
2- Ter limites de ruptura, ajustes necessários e pontos aceitáveis bem estabelecidos
“Limites são como as regras de um jogo. Quando todo mundo sabe quais são, todo mundo joga com mais tranquilidade”, diz Luiz. “Isso significa deixar claro o que cada um aceita, o que incomoda, o que é inegociável e o que pode ser conversado.”
Pontos de ruptura são as coisas que vocês concordam que, com grande probabilidade, acabarão com o relacionamento. Muitos casais entendem que esses pontos são abuso ou infidelidade, mas também podem ser qualquer coisa que você sinta que não conseguirá aceitar em um parceiro.
Ajustes necessários, por outro lado, são questões que precisam ser modificadas para que vivam em harmonia e, no futuro, não acabem terminando. Geralmente, isso envolve administrar o dinheiro, entender as necessidades de cada um e até abandonar hábitos antigos.
Questões aceitáveis são aqueles pontos que podem causar irritação, mas que vocês estão dispostos a aceitar. O importante, nesse caso, é que, se você decidiu aceitar, precisa deixar de lado e não fazer piadinhas ou reclamar.
“Sem limites definidos, é comum que um dos dois ou os dois vá acumulando desconfortos calados, até que tudo exploda de uma vez, muitas vezes por um motivo pequeno que só foi a gota d’água”, afirma o doutor. “Colocar limites com respeito, desde cedo, evita ressentimento e mostra maturidade emocional.”
3- Manter amizades (individuais e compartilhadas)
As amizades são parte fundamental da vida. “Elas garantem que a pessoa tenha com quem desabafar, se divertir e se sentir acolhida, sem colocar todo esse peso emocional apenas nas costas do parceiro”, explica Luiz.
Além das amizades individuais, as compartilhadas também são importantes. “Elas fortalecem a identidade do casal como dupla, criam memórias em conjunto e ajudam a construir uma rede social comum.”
“O ideal é que existam ao mesmo tempo: amigos que são só seus, amigos que são só do parceiro, e amigos que vocês construíram juntos como casal”, comenta o especialista.
4- Entender que o parceiro não supre tudo
“Nenhuma pessoa consegue dar conta sozinha de todas as necessidades emocionais, sociais e afetivas de outra”, afirma Luiz. “Um relacionamento saudável funciona melhor como parte de uma vida cheia de outras coisas boas: amigos, família, estudos, projetos pessoais.”
Isso também significa que você não pode resolver todas as dores do seu parceiro, e vice-versa. Acreditar que é possível atender a todas as necessidades, especialmente quando ainda estão descobrindo quem são, é uma expectativa impossível de cumprir, que gera cobrança, ciúme excessivo e frustração para ambos, segundo o doutor.
“O parceiro pode e deve ser importante, mas não precisa ser a única fonte de felicidade ou de sentido de alguém. Quando isso acontece, a relação fica mais leve, porque não carrega um peso que não é dela para carregar”, pontua Luiz.
5- Saber discutir
As brigas de um casal podem tanto revelar desalinhamentos que precisam ser ajustados para melhorar o relacionamento quanto se tornar momentos de desrespeito que apenas o desgastam. A diferença está na forma como o casal discute.
“Casais com dinâmicas mais saudáveis discordam, porque todo casal discorda, mas discutem o problema em si, sem atacar o caráter do outro”, afirma Luiz. Por outro lado, relações desgastadas tendem a recorrer a críticas generalizadas, como “você é sempre assim” ou “você nunca me ajuda”, segundo ele.
6- Ter capacidade de reparo
Depois de uma discussão, o casal precisa ter capacidade de reparo, caso queira permanecer junto. Além de pedir desculpas, demonstrar atitudes que evidenciem arrependimento faz diferença. “Casais saudáveis conseguem se desculpar, se reaproximar e seguir em frente depois de uma briga.” Sem esse movimento, os conflitos tendem a se repetir. “E o ressentimento vai se acumulando com o tempo.”
7- Evitar o acúmulo de pequenas frustrações
O medo de brigas pode levar pessoas a ignorarem pequenos problemas, mas, segundo o especialista, essas frustrações não desaparecem. “Elas se somam e geralmente são descontadas em um momento que nem tem tanto a ver com o motivo real”, afirma.
A recomendação de Luiz é adotar conversas regulares sobre o relacionamento, sem esperar uma crise. Perguntas simples, como “tem alguma coisa te incomodando ultimamente?”, ajudam a evitar que pequenos incômodos se transformem em grandes problemas.
8- Falar o necessário, sem fazer descarga emocional
Ao mesmo tempo, é importante saber quando parar de reclamar. Descarregar todos os problemas de uma vez pode ser exaustivo. “Às vezes um mau humor passageiro, um gosto diferente sobre um filme, não precisam de uma ‘reunião’ para serem discutidos”, diz o especialista.
Se o problema se repete, envolve desrespeito ou ultrapassa limites, então vale a conversa. “Uma boa pergunta para se fazer antes de decidir se fala ou não é: ‘isso vai continuar me incomodando amanhã, ou é só um momento?’. Se a resposta for que vai continuar incomodando, geralmente vale a conversa. De preferência logo, e de um jeito direto, mas gentil.”
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