O surfe nunca foi o esporte com maior protagonismo no imaginário popular brasileiro, especialmente quando se pensa na categoria feminina.
Mas, em 2024,
o Brasil parou para assistir Tatiana Weston-Webb subir ao pódio com a medalha de prata, representando o país nas Olimpíadas de Paris.
Em março de 2025, no entanto, a atleta gaúcha surpreendeu ao anunciar uma pausa na carreira para se dedicar aos cuidados com a saúde mental.
Agora, Tati se prepara para voltar às competições na etapa de Saquarema do Championship Tour e conta a CLAUDIA como tem sido esse processo, quatro meses após dar à luz sua primeira filha, Bia Rose.
A coragem de falar sobre vulnerabilidade
CLAUDIA: Em um cenário em que atletas de alto rendimento têm falado cada vez mais sobre saúde mental, qual é a importância de reconhecer que ela é tão fundamental quanto a preparação física?
Tatiana Weston-Webb: Acho superimportante falar sobre e deixar esse mundo ser mais verdadeiro. Muitas vezes existe um medo de mostrar vulnerabilidade, mas, para mim, falar sobre isso exige ainda mais coragem.
Nós, atletas, não somos máquinas. Somos seres humanos, com emoções, pressões e desafios. No meu caso, além da exigência física, existe toda uma carga emocional e mental envolvida.
Se a gente não está bem mentalmente, não vai conseguir performar da forma que precisa. É simples assim. Quando você aceita que precisa de ajuda e fala sobre isso, começa a melhorar aos poucos. Eu aprendi que me torno mais forte quando sou honesta sobre as minhas vulnerabilidades.
A pausa que se tornou um recomeço
CLAUDIA: Durante essa pausa, você também viveu uma grande transformação pessoal: a chegada da sua filha. Como surgiu a decisão de se tornar mãe nesse momento da vida?
Tatiana Weston-Webb: Não foi algo planejado. Quando decidi fazer a pausa, eu não estava pensando em ter filhos. Mas, algumas semanas depois, comecei a refletir sobre tudo o que já tinha vivido no esporte.
Olhei para a minha trajetória e pensei: “Eu tenho muito orgulho da carreira que construí. Se eu nunca mais competisse, eu estaria em paz com isso”. Quando conversei sobre isso com meu marido, o Jessé, ele me apoiou completamente.
Decidimos fazer alguns exames para entender se seria possível engravidar naquele período. Se acontecesse, ótimo. Se não acontecesse, a gente seguiria outro caminho. E aconteceu logo na primeira tentativa. A Bia veio e foi o maior presente que Deus poderia ter nos dado.
Uma nova força dentro e fora d’água
CLAUDIA: De que forma a maternidade transformou você, não apenas como atleta, mas como mulher?
Tatiana Weston-Webb: Mudou muito a minha visão sobre tudo. Claro que ser mãe e ser atleta são experiências diferentes, mas também têm muitas semelhanças. Nos dois casos, você está sempre aprendendo, se adaptando, tentando melhorar e lidando com situações que não controla totalmente.
Como mãe, você passa noites sem dormir, se preocupa o tempo inteiro e está constantemente aprendendo algo novo. No esporte, acontece algo parecido.
Eu acredito que a maternidade me tornou ainda mais forte. E sinto que, quando voltar a competir, vou enxergar o surfe de uma forma mais leve. O esporte continua sendo importante, mas agora ele ocupa um lugar diferente na minha vida.
Aprendendo a abrir mão do controle
CLAUDIA: Depois de tudo o que você viveu recentemente, a pausa, a maternidade e agora o retorno às competições, qual foi o maior aprendizado dessa fase?
Tatiana Weston-Webb: É engraçado porque esse é um aprendizado que o surfe já tinha me ensinado muitas vezes, mas a maternidade fez com que eu aprendesse tudo de novo: a gente não controla quase nada.
Nós fazemos o nosso melhor e o resto não está nas nossas mãos. Muitas pessoas acreditam que têm controle absoluto sobre a própria vida, mas isso não é verdade.
Hoje, eu tento dar o meu melhor como mãe e como atleta. Se eu fizer isso, já fico em paz. E acredito que Deus vai cuidar do resto. Se as ondas vierem, ótimo. Se não vierem, tudo bem também.
Mudar de rota também é seguir em frente
CLAUDIA: Que mensagem você deixaria para mulheres que têm medo de desacelerar, mudar de rota ou priorizar a própria saúde por receio dos impactos na carreira?
Tatiana Weston-Webb: Eu diria que nós somos muito mais fortes do que imaginamos. Depois de me tornar mãe, entendi ainda mais a força que existe nas mulheres. Somos capazes de nos reinventar, de cuidar, de construir e de seguir em frente mesmo diante dos maiores desafios.
Então, não tenham medo. Às vezes, a gente acredita que mudar o caminho significa perder alguma coisa, mas muitas vezes é justamente o contrário. A gente descobre uma força que nem sabia que tinha. E consegue muito mais do que imagina.
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