Taís Araujo adormeceu no meio da maquiagem. “Eu não só dormi, eu babei!”, ela assume, com graça. Coloca o primeiro look, tira foto. “Queriam cancelar o ensaio
de amanhã, imagina! Falei que não, vamos ensaiar, gente!” Troca o figurino, novas fotos. Repete o ritual mais quatro vezes.
No meio tempo, atende uma ligação do marido, Lázaro Ramos, com quem está casada há 21 anos, pai de seus dois filhos. “Melhor vocês irem, não me esperem, não sei quanto tempo ainda levo aqui.” O jantar no restaurante japonês, combinado a pedido da filha, terá de começar sem ela. “Estou morrendo de sono, acho que com cansaço acumulado do estresse.”
O tal cansaço é de um dia que começou bem cedo, às 5 da manhã. Taís se levantou e, embora quisesse descansar um pouco mais, saiu de casa para malhar. Voltou, levou as crianças para a escola, foi para o ensaio no teatro. Na noite anterior, ela havia feito a primeira apresentação da peça Mudando de Pele — seu primeiro solo —, em um ensaio aberto apenas para convidados no Rio de Janeiro.
Taís pode até cansar, mas não desacelera. E nem pensa em parar. “Meu trabalho me contempla em muitos lugares. Me sinto útil no mundo e isso é muito importante para uma pessoa como eu, com as minhas características. Eu me divirto, eu sou feliz fazendo o que eu faço, então acho que a energia vem”, diz.
Há anos, aprendeu que o lugar que ocupa não permite pausas demais. Ela é quem carrega uma longa lista de “primeira mulher negra a…”, dando mais espaço e visibilidade a outras pessoas negras.
Em 2004, ela foi a primeira negra a ser protagonista de uma novela, em Da Cor do Pecado. Foi a primeira Helena (personagem clássica do autor Manoel Carlos) negra da história, em 2009. A primeira mulher negra a apresentar o programa Saia Justa, do canal GNT. E a primeira mulher negra a estampar tantas capas de revistas no Brasil.
“Antes eu achava um saco ser sempre mencionada como a primeira isso, a primeira aquilo. Até que eu decidi parar de fugir do que a vida tem construído para mim. Hoje, tenho o maior prazer de agir com responsabilidade, de fazer escolhas responsáveis, no sentido artístico, que esse lugar pede. Essa virada, em aceitar, veio depois que meus filhos nasceram”, conta.
Como os filhos transformaram a visão de Taís Araújo
Os filhos mudaram tudo. Até a forma como as personagens afetam a atriz. No remake da novela Vale Tudo, que foi ao ar no ano passado, Taís interpretou Raquel Acioli, uma mãe solo, que ascende socialmente a partir do trabalho. A versão original contava com uma atriz branca, Regina Duarte, no papel da personagem.
E Taís gostou de representar uma mulher negra nessa nova versão, com uma história comum, e de sucesso. “É dessas personagens que mudam carreiras, tanto pela qualidade dela enquanto personagem, quanto pelo que ela significa dentro de uma obra dessas.”
Ao final das gravações, a atriz fez um vídeo emocionado e disse ter se identificado, enquanto mãe, com as mesmas inseguranças de Raquel. “A maternidade é o lugar que mais deixa a gente insegura, justamente porque é onde nós mais temos expectativa de acertar, mas mais chance de errar. A gente tem dificuldade em entender que os filhos não são uma extensão nossa. É um outro indivíduo, mas precisamos conduzi-los”, afirma.
“Por isso a Raquel me emocionava tanto. Era uma pessoa superética, trabalhadora, um mulherão da porra! Aí ela tem uma filha, abre mão da vida para cuidar dela. E aí a filha é a Maria de Fátima! Uma putaria da vida! Eu fico revoltada com Deus nesse momento”, brinca.
A vida não fez com ela o mesmo que fez com Raquel. Os dois filhos — Maria Antônia, de 11 anos, e João Vicente, de 15 anos — são tranquilos, segundo a mãe. E a ensinam o tempo todo. Um dia antes da entrevista, Taís recebeu um conselho inesperado da filha: “Cadê a sua autoestima? Vamos levantar essa autoestima!
Não a ponto de deixar o seu ego lá em cima, porque isso não é bom para você e quem lida contigo, mas uma autoestima bem trabalhada é legal”. Maria Antônia deu o conselho à mãe, após receber dela uma recusa.
Taís, cansada após o ensaio aberto da peça, só queria ir para casa, mas a filha a convidou para comemorar o sucesso em um restaurante japonês — por isso, naquela noite da sessão de fotos, as crianças e o pai haviam saído para jantar. “Ela deve ter escutado isso na internet, em algum lugar. Mas sempre foi desse jeito”, diz Taís.
Não só de conselho vive a relação dela com os filhos. A atriz também toma algumas bronquinhas quando reproduz alguma expressão errada — dessas que eram comuns nos anos 1990 e que, por vezes, falamos sem pensar. “Os dois me corrigem, a Maria mais ainda. Eu fico muito alerta em me reeducar, fui criada nos anos 80, gente, às vezes eu falo alguma merda. E eles avisam: ‘Mãe, não pode falar isso’.”
Xica da Silva e hipersexualização: a exposição de Taís Araujo na TV brasileira
Nos anos 80 e 90, o mundo era outro — e, felizmente, muita coisa mudou. Taís entende bem disso e luta para que esses velhos tempos percam cada vez mais espaço no presente. Até porque ela vivenciou fortemente os problemas invisibilizados naquela época, principalmente aqueles ligados ao racismo.
É difícil imaginar, hoje, contagem regressiva em jornais para a maioridade de uma atriz. Foi o que aconteceu com Taís, em 1996. Aos 17 anos, ela topou interpretar Xica da Silva, uma mulher escravizada, na novela exibida pela Rede Manchete.
“Eu avisei meus pais que precisaria fazer uma cena nua. Eles viam como uma coisa normal de artista. Meu pai me apoiou, disse que aquilo era só trabalho e que não iria tirar a minha dignidade.” Mas a cena mencionada só poderia acontecer depois dos 18 anos de Taís. Ansiosos pela nudez da atriz, os jornais anunciavam: faltam cinco dias para o aniversário dela; faltam quatro dias para o aniversário; até chegar o “grande dia”.
“Foram dois meses de espera e oito pontos de audiência no Ibope (640 mil pessoas), no momento em que ela dança, se despe e mergulha no rio. Na mesma noite, a audiência da novela competia com o jogo entre Grêmio e Palmeiras, exibido pela Rede Globo”, escreveu uma jornalista, em janeiro de 1997.
E assim a atriz foi definida: “A ‘mulata’ Taís Araujo traduz o desejo do brasileiro. [...] Mesmo não tendo 1,77 m de altura, nem cabelos loiros, Taís não pode se queixar. Sua beleza conquistou definitivamente o brasileiro”. Não há uma linha sobre sua atuação, apenas sobre o cobiçado corpo de uma mulher negra.
Naquela época, nem mesmo ela sabia tanto quanto hoje sobre letramento racial. Seus pais, embora sentissem a discriminação, a aconselhavam a apenas ignorar e seguir adiante. “Não é que dissessem que não existia preconceito, mas não tinha um letramento para aprofundar a discussão. Entendo que eles faziam isso como forma de criar um mecanismo para que isso não me parasse”, diz.
E ela seguiu, por muito tempo, fingindo que não via a intolerância para tentar se encaixar num mundo definido por padrões brancos. Isso se acentuou ainda mais depois dos 11 anos, quando a família se mudou do Méier, na Zona Norte do Rio, para a Barra da Tijuca, na Zona Oeste da cidade. A partir dali, as músicas de pagode e samba ficaram restritas ao ambiente familiar.
Na escola, aprendeu a gostar de música pop internacional para interagir com os amigos de lá. Era sempre ela e, no máximo, outro aluno negro. “Eram dois universos diferentes, mas não era confuso, era rico. Hoje consigo olhar com senso crítico. De entender porque eu tive que abrir mão de uma parte, por que não podia conjugar?”, questiona. “Fui fazendo um esforço hercúleo para caber num lugar que te rechaça o tempo inteiro. Mas é isso, fui vivendo, criando estratégias.”
Tirou das experiências de não pertencimento algumas oportunidades — aprendeu inglês com músicas gringas, por exemplo. E gostou de algumas coisas: ser fã de Roxette é uma herança dessa época. Curiosidade: nesse momento, ela pausou a entrevista ao lembrar, empolgada, que teria um show da banda dali a dois dias — e, como havia cancelado uma viagem para Paris, poderia ir.
Taís Araújo quer contar histórias negras sob outros pontos de vista
Hoje Taís não quer caber em nenhum lugar branco. Ela quer ocupar esses lugares com o seu talento, com as suas características e com a sua história. Quer contar histórias negras sob outros pontos de vista, não apenas pelo viés da dor e do sofrimento.
“Tenho muita vontade de construir coisas novas, novas narrativas. E novas narrativas sobre a população preta são infinitas, porque tudo foi escondido, silenciado, enterrado, então a gente tem muitas possibilidades de histórias ainda”, explica.
“Esse desejo foi despertado, por exemplo, pelas músicas do Emicida. ‘Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes, elas são coadjuvantes, não, melhor, figurantes, que nem deveriam estar aqui’. Não que a gente não queria falar sobre a escravização, do período de dor, mas muito já foi dito sobre isso. A gente precisa falar de outras questões, de subjetividades, seguir adiante.”
Foi uma dessas possibilidades que Taís viu nos textos da autora inglesa Amanda Wilkin. Depois de cinco anos longe dos teatros, ela volta para interpretar Mayah, uma mulher de quase 40 anos que se cansa da obrigação de caber em acordos sociais, emocionais e identitários.
E parte para uma jornada intensa de autoconhecimento. “A peça veio desse desejo. Pesquisei vários textos e esse me despertou, achei muito contemporâneo, gostei da dramaturgia. Ela [Mayah] para e fala sobre algo que está acontecendo num lugar próximo, ou muito longe, e tudo está ligado à conexão entre as pessoas, em poder existir plenamente”, explica.
Assim, entre ensaios, gravações e ideias que não param de surgir, Taís encurta as próprias pausas, como fez ao voltar ao teatro. O descanso nunca é completamente descanso. E, mesmo se tivesse um tempo longo de folga, ela garante, não pararia: “Eu iria estudar, porque gosto de descansar carregando pedra”, brinca.
Créditos
- Edição de moda: Fred Rocha
- Beleza: Arthur Lordelo
- Direção de arte: Kareen Sayuri
- Locação: Teatro Fernanda Montenegro, no Copacabana Palace
- Assistentes de styling: Millena Calado
- Produção de moda: Paula Santiago
- Camareira: Lita de Assis
- Assistentes de fotografia: Andressa Guerra e Nathalia Athayde Retouch Alt Retouch












