Entre todas as mulheres de A Odisseia, poucas carregam uma contradição tão fascinante quanto Penélope. Há quase três mil anos, ela ocupa um lugar central
em uma das narrativas fundadoras da cultura ocidental e, ainda assim, por séculos foi reduzida a uma única imagem: a da esposa fiel que espera.
Penélope é a rainha de Ítaca, esposa de Ulisses — ou Odisseu — e mãe de Telêmaco. Quando o marido parte para a Guerra de Troia, deixa para trás um filho ainda pequeno e um reino que, segundo a lógica política da época, dependia da figura do rei. A guerra dura dez anos; o retorno de Ulisses, outros dez. Durante duas décadas, Penélope permanece em Ítaca sem saber se o marido está vivo, morto ou se algum dia voltará.
No poema atribuído a Homero, ela está longe de ser uma personagem passiva. Inteligente, prudente e astuta, compartilha das mesmas qualidades que tornaram Ulisses célebre. Enquanto ele sobrevive graças à própria inteligência em mares desconhecidos, ela emprega essa mesma habilidade dentro dos limites impostos à sua condição de mulher. Cercada por pretendentes que ocupam o palácio, consomem os recursos do reino e a pressionam a escolher um novo marido, Penélope encontra formas de adiar uma decisão que significaria não apenas reconhecer a morte de Ulisses, mas também entregar o poder de Ítaca a outro homem.
Ainda assim, a imagem que atravessou os séculos foi, sobretudo, a da mulher que esperou. É uma interpretação compreensível. Ulisses viaja, luta, enfrenta monstros, deuses, tempestades e feiticeiras, desafiando a todo momento a possibilidade de nunca mais voltar para casa. Penélope, por sua vez, permanece em Ítaca. Quando associamos movimento à ação e permanência à passividade, parece fácil identificar quem é o herói da história e quem apenas aguarda seu retorno.
Mas talvez essa seja justamente a armadilha. Penélope não está simplesmente esperando Ulisses voltar. Ela está sustentando Ítaca.
O trono de Ítaca estava realmente vazio?
Christopher Nolan parece compreender a força dessa leitura e encontra uma maneira instigante de questionar a ideia de que Ítaca permaneceu à deriva durante vinte anos por não ter um rei. Em um dos diálogos centrais do filme, um personagem afirma que o trono esteve vazio durante a ausência de Ulisses. Penélope reage imediatamente: como vazio? Ela esteve ali durante todo esse tempo.
A pergunta resume o verdadeiro debate. O reino não estava sem governo; estava sem um rei homem. E essas duas afirmações estão longe de significar a mesma coisa.
Essa perspectiva ajuda a explicar por que Penélope continua sendo reinterpretada por diferentes gerações. Durante muito tempo, cinema, televisão, literatura e pintura privilegiaram sua fidelidade conjugal como principal traço de personalidade. Ela se consolidou como um arquétipo da esposa que suporta a ausência, resiste às tentações e preserva o lar para o retorno do marido.
Hoje, porém, novas leituras têm deslocado o foco dessa narrativa. Mais do que a mulher que esperou, Penélope passa a ser vista como alguém que governou, administrou uma crise política, protegeu o reino e encontrou, por meio da inteligência, formas de exercer poder em um mundo que insistia em negá-lo.
Uma mulher também transformada pela ausência
As adaptações mais recentes, no entanto, passaram a olhar com mais atenção para tudo o que existia por trás dessa espera. Em O Retorno (2024), Juliette Binoche interpreta Penélope ao lado de Ralph Fiennes, que vive Ulisses. O filme acompanha justamente o momento em que o guerreiro regressa a Ítaca, após vinte anos, e encontra uma mulher que também foi profundamente transformada pela ausência.
A Penélope de Binoche deixa de ser apenas a recompensa emocional do herói que sobreviveu à guerra. Há ressentimento, desgaste e uma pergunta inevitável: o que significa receber de volta um homem que passou duas décadas vivendo experiências das quais ela jamais participou? Essa talvez seja uma das mudanças mais importantes na forma contemporânea de enxergar a personagem. Durante séculos, perguntamos o que aconteceu com Ulisses enquanto ele cruzava mares, enfrentava monstros e desafiava os deuses. Só muito mais tarde começamos a perguntar, com a mesma seriedade, o que aconteceu com a mulher que permaneceu em Ítaca.
Penélope não passou vinte anos congelada no tempo. Ela amadureceu, tomou decisões e sustentou um reino inteiro. Ainda assim, sua autoridade nunca é tratada como suficiente por si só: ela é constantemente cobrada a legitimar seu poder pela presença de um homem. É impressionante perceber como uma história contada há quase três mil anos já antecipava uma questão que continuaria atravessando a experiência feminina no século XXI. Mulheres podem liderar famílias, empresas, governos e instituições em momentos de crise e, mesmo assim, seu poder ainda é frequentemente visto como temporário ou incompleto. É nesse ponto que a imagem da esposa passiva começa a ruir.
Penélope não possui a liberdade de Ulisses. Ela não pode partir de Ítaca, abandonar o reino ou simplesmente eliminar os homens que disputam sua mão. Tampouco pode adiar uma decisão indefinidamente, já que a ausência prolongada do rei alimenta uma crise sucessória e aumenta a pressão política sobre ela. Diante desse cenário, faz o que tantas mulheres aprenderam a fazer em sistemas que lhes negam poder formal: encontra uma brecha.
Ela promete escolher um novo marido quando terminar de tecer uma mortalha. Durante o dia, trabalha diante de todos. À noite, desfaz silenciosamente o que produziu e recomeça na manhã seguinte. O gesto tornou-se uma das imagens mais célebres da literatura ocidental justamente porque transforma uma atividade doméstica, tradicionalmente associada ao universo feminino, em uma estratégia de resistência política. Sem poder enfrentar diretamente o sistema que a oprime, Penélope encontra outra forma de desafiá-lo: ela interrompe o tempo. De dia, oferece aos pretendentes a aparência da obediência; à noite, desfaz o avanço que eles acreditavam ter conquistado.
Há uma força simbólica extraordinária nesse gesto. Ao manter suspensa uma decisão impossível, Penélope revela uma forma de poder que não depende da força física nem da autoridade institucional, mas da inteligência, da paciência e da estratégia. Talvez seja por isso que continue sendo uma personagem tão atual. Quantas mulheres, ao longo da história, exerceram poder sem poder nomeá-lo? Quantas governaram espaços oficialmente destinados aos homens? Quantas precisaram negociar, adiar, contornar e reinventar as regras porque o confronto direto simplesmente não lhes era permitido?
O teste de Penélope para reconhecer Ulisses
O retorno de Ulisses também não transforma Penélope novamente em uma figura passiva. Ela não simplesmente aceita que o homem diante dela é o marido porque alguém afirma que ele voltou. Precisa reconhecer, testar e saber quem retornou depois de vinte anos.
No poema de Homero, esse reconhecimento é construído em torno de um segredo compartilhado pelos dois: o leito conjugal construído a partir de uma oliveira enraizada na própria casa. Penélope provoca Ulisses ao sugerir que a cama seja movida. A reação dele confirma aquilo que ela precisava saber, porque apenas o verdadeiro Ulisses poderia conhecer a impossibilidade de mover aquele leito sem destruí-lo. Penélope não recebe o herói porque ele finalmente voltou, mas decide se aquele homem pode ser reconhecido como Ulisses.
Frequentemente esquecemos: durante vinte anos, Penélope também mudou mesmo que as histórias costumem concentrar toda a transformação no herói que viaja, enfrenta perigos e retorna diferente. Só que a pessoa que permanece também é transformada pela ausência porque precisa sustentar simultaneamente esperança e dúvida, o que também deixa marcas.
Helena, Atena e Calipso: as outras mulheres da história
Penélope não é, naturalmente, a única mulher importante de A Odisseia. Na verdade, uma das forças da história está justamente na maneira como diferentes figuras femininas atravessam a jornada de Ulisses e representam formas distintas de poder, desejo, memória e resistência.
Helena de Troia talvez seja o exemplo mais cruel da maneira como a história atribui às mulheres a responsabilidade pelas decisões dos homens. Durante séculos, ela carregou a fama de ter provocado uma guerra. Sua beleza, seu rapto ou sua fuga com Páris, dependendo da versão contada, transformaram-se na explicação popular para a destruição de Troia.
Nolan, porém, confronta essa narrativa ao mostrar uma guerra movida também por interesses políticos, econômicos e mercantis. Helena se torna, assim, o rosto de um conflito que não foi criado por ela. Homens foram à guerra, cidades foram destruídas e interesses de poder estavam em jogo, mas foi uma mulher que atravessou os séculos com a fama de ter causado tudo.
Atena ocupa um lugar completamente diferente. Deusa da sabedoria, da estratégia e também da guerra, ela é a grande protetora de Ulisses. Não por acaso, interessa-se justamente por um herói cuja principal arma não é a força física, mas a inteligência. Atena orienta, protege e interfere na jornada, mas sua presença também é aceita por Penélope, o que cria uma relação interessante entre duas formas de inteligência feminina dentro da história. Uma exerce poder como deusa; a outra precisa exercê-lo dentro dos limites impostos a uma mulher mortal.
Calipso representa outra força. É a ninfa que mantém Ulisses durante anos na ilha de Ogígia e oferece a ele algo aparentemente irresistível: permanecer ao seu lado, longe da guerra, da responsabilidade e até da mortalidade. Ulisses passa sete anos com ela antes de finalmente ser autorizado a partir.
Calipso pode ser lida como desejo, sedução e suspensão do tempo, mas também como aprisionamento. Ela oferece a possibilidade de não voltar, de não enfrentar as consequências de tudo o que aconteceu e de permanecer numa espécie de existência fora do mundo. Nesse sentido, funciona quase como o oposto de Penélope.
Por isso, embora A Odisseia esteja cercada de mulheres poderosas, é Penélope quem concentra a dimensão feminina mais complexa da história, porque precisa sobreviver dentro do mundo dos homens sem os poderes de uma deusa, sem poder abandonar o reino e sem sequer ter reconhecida oficialmente a autoridade que exerce.
É por isso que Christopher Nolan encontra uma maneira contemporânea de recuperar Penélope sem precisar descaracterizá-la e ao mesmo tempo torna visível uma contradição que sempre esteve dentro da própria história.
A Penélope de Anne Hathaway
E é justamente por Penélope ter uma força tão grande no roteiro que a atuação de Anne Hathaway se torna, para mim, uma das decepções do filme. Não porque ela não compreenda a importância da personagem, mas porque sua interpretação oscila entre registros que nem sempre se encontram. Em alguns momentos, sua Penélope parece excessivamente teatral e solene; em outros, Hathaway procura uma delicadeza quase calculada, suavizando a voz e tentando construir uma intimidade que nem sempre parece espontânea. Há ainda cenas emocionalmente mais exigentes em que a vulnerabilidade não alcança, para mim, a força que a personagem pede.
O problema fica ainda mais evidente porque Penélope é o contraponto de Ulisses e Matt Damon consegue carregar cada contradição de Ulisses no corpo, enquanto Anne Hathaway não. Isso não significa que Hathaway esteja ruim ou que comprometa o filme: ela tem presença, entende a dignidade da rainha e funciona particularmente bem nos momentos em que Penélope precisa se impor. Mas, considerando a força simbólica da personagem e tudo o que a atriz já demonstrou ser capaz de fazer, eu esperava algo mais profundo e menos visível como construção.
Mas é positivo como Christopher Nolan encontra uma maneira inteligente de devolver a Penélope uma força que sempre esteve na personagem, mas nem sempre foi reconhecida pelas adaptações e pela própria cultura. Algo que aprendemos a chamar de passividade quando era, simplesmente, porque não lhe permitiam chamar de poder.
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