Hoje ele é presença garantida nas praias, piscinas e destinos de verão ao redor do mundo. Mas o biquíni, que completa 80 anos em 2026, já foi considerado escandaloso, proibido em diversos países e alvo
de críticas de autoridades religiosas. A pequena peça de banho atravessou décadas acompanhando transformações sociais, mudanças de comportamento e debates sobre o corpo feminino até se tornar um dos maiores símbolos da cultura brasileira.
Embora seja frequentemente associado ao Brasil, o biquíni nasceu na França e recebeu um nome inspirado em um acontecimento que dominava os noticiários da época: os testes nucleares realizados pelos Estados Unidos no Atol de Bikini, nas Ilhas Marshall.
Uma criação que prometia causar impacto
O responsável pela invenção foi o engenheiro francês Louis Réard, que, em 1946, apresentou um traje de banho composto por duas pequenas peças. O modelo deixava o umbigo à mostra, algo impensável para os padrões da época.
Naquele período, os maiôs femininos cobriam grande parte do corpo e eram vistos como a única opção considerada adequada. Réard acreditava que sua criação provocaria uma verdadeira "explosão" nos costumes e, por isso, decidiu batizá-la de biquíni, em referência aos testes atômicos realizados no Pacífico.
A ousadia era tanta que nenhuma modelo profissional aceitou vestir a novidade durante o lançamento. A tarefa ficou com Micheline Bernardini, dançarina do Casino de Paris, que apresentou a peça na piscina pública Molitor, em Paris.
Da censura ao cinema
O impacto foi imediato. Em vários países europeus, proibiram o uso do biquíni em praias públicas. Autoridades religiosas condenavam a peça por considerá-la incompatível com os padrões de modéstia vigentes.
Nem mesmo concursos de beleza escaparam da polêmica. Em 1951, quando a sueca Kerstin Håkansson venceu a primeira edição do Miss Mundo usando um biquíni, o papa Pio XII classificou o traje como "pecaminoso".
Apesar da resistência, a moda encontrou aliadas importantes. Atrizes como Brigitte Bardot ajudaram a popularizar a peça nos anos 1950, enquanto Ursula Andress eternizou um dos biquínis mais famosos da história do cinema ao surgir com um modelo branco no filme 007 Contra o Satânico Dr. No, lançado em 1962.
Com a revolução sexual da década de 1960, o significado do biquíni começou a mudar. Aos poucos, ele deixou de representar apenas ousadia para associar-se à liberdade, à juventude e à autonomia feminina.
O Brasil transformou o biquíni em um ícone
Se a França foi o berço do biquíni, foi no Brasil que ele encontrou um ambiente perfeito para se consolidar. O clima tropical, a forte cultura de praia e a projeção internacional do Rio de Janeiro contribuíram para transformar a peça em um verdadeiro cartão-postal do país.
Nas décadas de 1950 e 1960, atrizes, modelos e vedetes passaram a desfilar com biquínis nas areias de Copacabana, despertando a atenção da imprensa e do público. Entre os nomes que ajudaram a popularizar a peça estão Carmem Verônica, Angelita Martinez, Marta Rocha, Helô Pinheiro - eternizada como a Garota de Ipanema - e Leila Diniz, que entrou para a história ao aparecer grávida de biquíni na praia, rompendo tabus da época.
Antes disso, porém, a estilista alemã Erna Miriam Etz Kaufmann, radicada no Rio de Janeiro, já utilizava um traje de banho dividido em duas partes durante seus banhos de mar no Arpoador, antecipando uma tendência que só ganharia força anos depois.
Nem no Brasil a aceitação foi imediata
Embora hoje seja quase sinônimo de verão brasileiro, o biquíni também enfrentou resistência no país. Em 1961, durante o governo de Jânio Quadros, concursos de beleza proibiram a peça e ela tornou-se alvo de medidas inspiradas por uma visão mais conservadora dos costumes.
Na prática, o episódio refletia uma contradição daquele período: enquanto a sociedade incorporava novos hábitos e ampliava a presença das mulheres nos espaços públicos, ainda existiam tentativas de controlar a forma como elas se vestiam.
A peça mudou junto com a sociedade
Ao longo de oito décadas, o biquíni passou por inúmeras transformações. Nos anos 1970, o Brasil começou a influenciar diretamente a moda praia mundial com modelos menores e mais cavados. Na década seguinte, surgiu o famoso asa-delta, que alongava visualmente a silhueta e se tornou referência internacional.
Já nos anos 2000, o chamado "biquíni brasileiro" ganhou reconhecimento como uma categoria própria, valorizada em diversos países. Mais recentemente, o debate deixou de girar apenas em torno da estética. A diversidade de corpos, a inclusão e o conforto passaram a ocupar espaço crescente nas campanhas de moda praia. Reforçam, assim, a ideia de que não existe um único padrão para aproveitar o verão.
Liberdade e representatividade seguem em debate
Mesmo oito décadas após seu lançamento, o biquíni continua despertando discussões importantes. Para muitas mulheres, vestir a peça representa autonomia, liberdade e o direito de ocupar espaços públicos sem julgamentos. Ao mesmo tempo, especialistas lembram que ela também reforçou, por décadas, estereótipos sobre o corpo feminino, especialmente da mulher brasileira.
Hoje, movimentos que valorizam diferentes corpos e defendem que "todo corpo é um corpo de praia" ajudam a ampliar essa conversa, mostrando que o significado do biquíni continua evoluindo junto com a sociedade.
Leia também: "7 erros que fazem o biquíni durar menos"







