Desde muito cedo, as mulheres são cercadas por narrativas que as colocam em eterna competição e rivalidade. Seja pela aparência, pelo sucesso profissional ou pelas escolhas pessoais, a ideia de que duas
mulheres não podem brilhar no mesmo espaço sem que uma queira derrubar a outra é um mito antigo, mas que continua sendo alimentado com força na atualidade.
Um exemplo clássico de como esse cenário é construído artificialmente foi relembrado recentemente pela apresentadora Angélica. Durante a década de 1990, ela, Xuxa Meneghel e Eliana dominavam a programação infantil da TV brasileira. Embora houvesse público e espaço para todas, a narrativa externa tentou, a todo custo, transformá-las em inimigas.
Em entrevista ao podcast Cá Entre Nós, apresentado por Fátima Bernardes e Beatriz Bonemer, Angélica confessou que a pressão do entorno era tão forte que chegou a afetar a percepção delas: “Claro que em algum momento a gente também acreditou nessa rivalidade, porque todo mundo contava essa história. Era como na escola, na universidade ou no trabalho, em que você coloca uma [mulher] contra a outra, mas de forma muito maior, porque era na televisão”, disse ela.
Por que a rivalidade feminina ainda é alimentada?
Embora o debate sobre sororidade e união entre mulheres tenha ganhado força nos últimos anos, a estrutura social e a cultura do clique ainda encontram formas de lucrar e se sustentar através da divisão. Angélica foi cirúrgica ao analisar a quem interessava aquela disputa armada:
“Durante a nossa geração, foi criado esse movimento para ser um FlaFlu mesmo. Isso era bom para quem? Isso era bom para a mídia, isso era bom para os homens, mas não para a gente, não para os mulheres, não para o que a gente quer que as meninas hoje vivam”, refletiu.
Hoje, os palcos mudaram da televisão para as redes sociais, mas a dinâmica do "Fla-Flu" permanece viva por alguns motivos centrais:
- O algoritmo do engajamento: discussões, comparações estéticas e rumores de desavenças entre figuras públicas femininas geram cliques, comentários e engajamento rápido. A indústria da fofoca e as redes sociais muitas vezes lucram mais com o conflito do que com a aliança;
- A manutenção do status quo: colocar mulheres para competir entre si desvia o foco de problemas estruturais maiores, como a desigualdade salarial e a falta de representatividade em cargos de liderança. Enquanto mulheres disputam o topo entre si, a estrutura patriarcal permanece intacta;
- A cultura da comparação: desde a infância, as meninas são estimuladas a se compararem com as outras em termos de beleza, comportamento e validação. Esse padrão é reproduzido na vida adulta, tornando o sucesso de uma mulher um gatilho inconsciente de ameaça para outra, em vez de uma inspiração.
Quebrando o ciclo para as próximas gerações
O ponto de virada definitivo para o trio de apresentadoras aconteceu quando elas decidiram assumir as rédeas da própria narrativa, culminando em um encontro histórico no palco do Criança Esperança. Ali, elas entenderam que o exemplo que davam ao público era muito mais poderoso do que qualquer boato de bastidores.
“A gente estava ali fomentando uma situação péssima para as meninas, de aprenderem com suas ‘ídolas’ (sic) a rivalizar, a serem competidoras uma da outra. Foi emblemático por isso, a gente chegou num momento ali e falou: ‘Olha, isso mudou, não é mais assim, acabou essa história'”, concluiu Angélica.
Desconstruir a rivalidade feminina não significa que todas as mulheres precisam ser melhores amigas, mas sim compreender que o sucesso de outra mulher não anula o seu. Quando mulheres deixam de se enxergar como ameaças e passam a se ver como aliadas, o mercado, a mídia e a sociedade perdem o poder de ditar quem deve vencer - porque, no final das contas, todas ganham.
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