Durante muito tempo, falar sobre ansiedade e depressão ainda parecia incompatível com a ideia de uma vida bem-sucedida. Afinal, como alguém que trabalha com saúde, informação e autocuidado poderia também
enfrentar um sofrimento emocional profundo? Foi justamente esse conflito interno que a jornalista Michelle Loreto decidiu compartilhar publicamente ao falar sobre o diagnóstico de Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) e depressão.
Aos 46 anos, a comunicadora revelou que convive com a ansiedade há cerca de 15 anos e que demorou para aceitar que precisava de ajuda profissional. Em participação no podcast Interioriza, comandado pela jornalista Izabella Camargo, Michelle contou que a terapia se tornou um ponto de virada em sua trajetória emocional.
“Eu tenho um diagnóstico de Transtorno de Ansiedade Generalizada há 15 anos. Demorei para me tratar, e aí fui me tratar e me afundei na terapia, e isso foi muito importante”, afirmou. A fala da jornalista escancara uma realidade vivida por muitas pessoas: entender racionalmente um transtorno não significa conseguir acolher a própria dor imediatamente. Muitas vezes, o sofrimento emocional chega acompanhado de negação, culpa e da tentativa constante de minimizar os sintomas.
Quando o corpo pede atenção
Michelle passou uma década à frente do Bem Estar, programa da Globo voltado para saúde e qualidade de vida. Ainda assim, mesmo cercada de informação, percebeu que não era simples reconhecer os próprios limites emocionais.
Segundo ela, em 2018, durante o período em que apresentava a atração, viveu um episódio de depressão que inicialmente tentou justificar apenas como ansiedade. “Em 2018, eu acabei tendo um episódio de depressão, uma depressão moderada, já indo para coisa mais séria, que eu também demorei... Já fazia o Bem Estar, mas eu demorei para aceitar: 'Imagina, comigo não, é só ansiedade'.”
Esse tipo de resistência é mais comum do que parece. Muitas pessoas associam depressão apenas à tristeza intensa, quando, na prática, ela também pode surgir como cansaço constante, irritabilidade, desânimo, sensação de vazio e perda de sentido.
A jornalista contou que o processo terapêutico também a ajudou a compreender desejos, limites e escolhas pessoais. Para ela, o autoconhecimento não está apenas ligado ao entendimento do que queremos construir, mas também ao reconhecimento do que já não faz sentido permanecer.
O cuidado emocional não acontece sozinho
Ao falar sobre o tratamento, Michelle reforçou a importância de permitir que o cuidado entre na vida em diferentes formas. Terapia, medicação, atividade física e apoio afetivo fizeram parte do caminho percorrido por ela.
“Mas a gente só consegue isso tendo a humildade de, se tiver um momento mais delicado, deixar um tratamento entrar. Seja ele uma terapia, um tratamento farmacológico, exercício físico, tudo isso que faz bem, mas também deixando quem te ama te cuidar.”
A declaração traz um ponto importante sobre saúde mental: pedir ajuda não é sinal de fraqueza. Em muitos casos, o sofrimento se intensifica justamente porque a pessoa acredita que precisa lidar com tudo sozinha.
Especialistas reforçam que ansiedade e depressão não possuem uma fórmula única de tratamento. Cada indivíduo encontra caminhos diferentes para lidar com suas dores emocionais, e isso exige tempo, acompanhamento e escuta. “O difícil é que é um discurso que não vai servir para todo mundo, né? Cada um vai ter que achar o seu caminho”, refletiu.
O momento de encerrar ciclos
Meses após compartilhar sua vivência emocional, Michelle também anunciou uma mudança importante na carreira. Em novembro do ano passado, ela revelou sua saída da Globo após duas décadas de trabalho na emissora.
Nas redes sociais, explicou que a decisão nasceu de um desejo profundo de alinhamento pessoal e profissional. “Estive no Bem Estar por 10 anos, apresentando e fazendo reportagens, desde quando ele era um programa da grade. Me especializei e me apaixonei pelo jornalismo de saúde - isso é o que eu faço, gosto e acredito. É o meu propósito.”
A jornalista afirmou que sentia que os caminhos desejados por ela e pela empresa já não coincidiam mais. “Nesse momento, o lugar que a empresa quer para mim não é o que eu quero seguir. São desejos opostos e isso acontece em qualquer relação. Está tudo bem.”
A coragem de ouvir a própria voz
Michelle descreveu a saída da emissora como uma decisão construída com muita reflexão interna. Segundo ela, foi um daqueles movimentos que trazem medo, mas também uma sensação de paz.
“Chegou a hora de abrir espaço para novos ciclos, projetos e conversas: uma versão minha ainda mais alinhada com quem sou hoje.” Ela contou que aprendeu, ao longo dos anos, a escutar os sinais internos e respeitar o próprio momento. “Foi uma decisão profunda, daquelas que a gente sente no corpo, sabe? Que dão um frio na barriga, mas também trazem uma paz enorme.”
Agora, a jornalista pretende seguir produzindo conteúdos ligados à saúde, bem-estar e maternidade, áreas que marcaram sua trajetória profissional. Além disso, revelou o desejo de estudar psicologia, um sonho antigo que pretende transformar em realidade. “Estou animada para construir uma fase mais autoral, mais livre e ainda mais conectada com quem me acompanha.”
A história de Michelle Loreto reforça que saúde mental não escolhe profissão, conhecimento ou aparência. Muitas vezes, até quem passa anos ensinando sobre cuidado também precisa, em algum momento, aprender a se acolher.
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