O desaparecimento do escoteiro Marco Aurélio Simon, ocorrido em junho de 1985 no Pico dos Marins, em Piquete (SP), permanece como um dos mistérios mais intrigantes e duradouros da crônica policial brasileira.
Recentemente, essa história repleta de perguntas sem respostas ganhou um novo e importante capítulo com a estreia de ‘Pico dos Marins: O Caso do Escoteiro Marco Aurélio’.
A nova série documental original do Globoplay chegou à plataforma de streaming na última terça-feira, 12 de maio, trazendo uma reconstituição detalhada do caso que já atravessa quatro décadas de incertezas.
Dirigida por Marcelo Mesquita, a produção se aprofunda nos meandros de uma investigação complexa, nas diversas teorias que cercam o sumiço do adolescente de 15 anos e no drama de uma família que se recusa a desistir. Para quem deseja acompanhar a produção, que promete reoxigenar o debate público sobre o caso, vale a pena conhecer os principais pontos que estruturam o projeto documental.
Abaixo, confira 5 aspectos fundamentais sobre a produção antes de a assistir:
1. Podcast
A série documental não nasceu do zero; ela é o desdobramento direto de um projeto em áudio que capturou a atenção do país em 2022. O podcast original de true crime, idealizado por Marcelo Mesquita, alcançou enorme repercussão nacional e ultrapassou a expressiva marca de 1 milhão de downloads. Foi justamente esse sucesso estrondoso e o consequente resgate do interesse público pelo mistério que motivaram a criação da versão em vídeo para o streaming.
Essa migração de mídias insere ‘Pico dos Marins’ em uma tendência consolidada no mercado de entretenimento brasileiro. O projeto é o segundo podcast do país a ser transformado em série documental pela plataforma da Globo. Ele segue os passos bem-sucedidos de ‘O Caso Evandro’ — temporada do podcast Projeto Humanos —, que obteve grande audiência e relevância internacional, chegando a ser indicada ao Emmy Internacional em 2022.
2. Desaparecimento de Marco Aurélio
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Antiga fotografia do escoteiro Marco Aurélio / Crédito: Arquivo pessoal[/caption]
Para compreender a série, é preciso resgatar o contexto do dia 8 de junho de 1985, data em que Marco Aurélio Simon foi visto pela última vez. O jovem integrava uma expedição de escoteiros que subia o Pico dos Marins, uma imponente formação rochosa com 2.400 metros de altitude localizada no interior de São Paulo. A caminhada contava com a presença de um líder de escotismo e mais três amigos do garoto.
Durante o trajeto na montanha, um dos rapazes do grupo acabou se machucando. Diante do imprevisto, Marco Aurélio tomou a iniciativa de seguir à frente na trilha, sozinho, com o objetivo de buscar socorro para o companheiro ferido. A partir daquele momento, o adolescente nunca mais foi localizado.
Nas semanas seguintes, uma megaoperação de resgate e buscas foi montada na região. Durante 28 dias consecutivos, uma imensa força-tarefa composta por mais de 300 pessoas — incluindo policiais, bombeiros, mateiros e voluntários — vasculhou a montanha, mas nenhum vestígio conclusivo foi achado. As investigações oficiais terminaram arquivadas em 1990, sem qualquer solução.
3. Busca da família
Mais do que focar estritamente nos procedimentos policiais e nas teorias de crime, acidente ou fuga, o documentário joga luz sobre o impacto emocional devastador causado pelo sumiço. A narrativa é conduzida por uma forte dimensão afetiva e humana, tendo como figura central o jornalista Ivo Simon, pai de Marco Aurélio. Ele dedicou as últimas quatro décadas de sua existência a percorrer o país atrás de pistas que pudessem elucidar o destino do filho.
Ivo já visitou ao menos dez cidades e mantém acesa a convicção de que o filho pode estar vivo, apoiando-se na ausência de comprovações físicas sobre sua morte. "Sempre fui muito positivo nas coisas que eu faço. Então, por que eu vou acreditar que ele tá morto, se não tem uma prova material? Como jornalista, eu trabalho em cima de fatos concretos. O que eu tenho de concreto, é que eu não tenho nada, nada. Não diz ‘olha achamos um fio de cabelo dele’. Nem isso foi achado na serra até hoje", declarou em depoimento à TV Vanguarda.
Essa postura obstinada é compartilhada pelo irmão gêmeo do escoteiro, Marco Antônio Simon, que descarta de forma categórica qualquer possibilidade de que o irmão tenha fugido voluntariamente na época, repercute o g1.
4. Materiais inéditos
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A adaptação audiovisual de Pico dos Marins expande significativamente o escopo do que havia sido apresentado no podcast de 2022. O diretor Marcelo Mesquita ressalta que o formato em áudio foi apenas uma etapa inicial e que a história demandava uma dimensão visual. Na televisão, a produção ganhou o acréscimo de novas entrevistas, acesso a arquivos inéditos e registros de frentes de investigação que continuam ativas no interior paulista.
Esteticamente, o documentário utiliza dramatizações gravadas em Super 8, que é o mesmo formato de película cinematográfica utilizado pela própria família Simon para registrar momentos cotidianos na década de 1980. Paralelamente ao resgate histórico, a série acompanha os esforços recentes das autoridades locais, que reabriram o caso após denúncias e passaram a empregar tecnologias modernas nas buscas de campo, como cães farejadores, radares de solo e mapeamentos aéreos complexos.
5. Detalhes da produção
Realizada pela produtora PARANOID BR, a série documental foi estruturada de forma a permitir uma imersão profunda no mistério. A temporada é composta por oito episódios, cada um com duração aproximada de 45 minutos. O Globoplay optou por disponibilizar todos os capítulos simultaneamente na última terça-feira, permitindo que o público assista à investigação completa de uma só vez. Vale mencionar que, como estratégia de acessibilidade, o primeiro episódio foi liberado inclusive para usuários não assinantes da plataforma.
A equipe técnica por trás do projeto traz nomes experientes do mercado audiovisual e jornalístico. A direção e a narração dos episódios ficaram sob a responsabilidade do próprio Marcelo Mesquita, o roteiro foi desenvolvido por Sílvia Gomez, Ludmila Naves e Peppe Siffredi, que acumulou a função de roteirista-chefe da sala de escrita, contando com o auxílio de Pedro Galiza. Já a produção executiva e geral do projeto foi assinada pelo trio Manoel Rangel, Egisto Betti e Heitor Dhalia.











