Dentes de pessoas que viveram na Inglaterra medieval ajudaram pesquisadores a identificar as origens e os impactos da indústria de chumbo no Derbyshire Peak District, uma das maiores regiões produtoras
do metal na Europa Ocidental. Publicado na revista Antiquity, o estudo revelou que a produção foi retomada em meados do século 7 e que, já no século 8, a atividade contaminava o ambiente ao redor dos centros de mineração.
A descoberta foi possível graças à análise química do esmalte dentário de indivíduos enterrados em três cemitérios da região. Como essa estrutura se forma durante a infância e não se remodela ao longo da vida, ela preserva informações sobre a exposição ao chumbo durante o crescimento.
Os resultados indicam que crianças de comunidades mineradoras medievais apresentavam níveis de chumbo iguais ou superiores aos registrados em cidades industrializadas entre aproximadamente 1750 e 1850.
Dentes revelam o início da produção medieval
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A mineração e a fundição de chumbo deixaram poucos vestígios arqueológicos na região. Entre os séculos 16 e 19, resíduos romanos e medievais foram repetidamente derretidos, apagando evidências que normalmente ajudariam os pesquisadores a reconstruir a história da atividade.
Diante dessa dificuldade, uma equipe liderada pela Universidade de Nottingham, em colaboração com outras instituições, recorreu aos restos humanos preservados em cemitérios do Peak District.
Os pesquisadores analisaram indivíduos de três locais: Wigber Low, datado do século 7; Joule Yard, em Castleton, utilizado entre os séculos 7 e 11 ; e Spital Field, também em Castleton, com sepultamentos dos séculos 12 ao 15. A comparação permitiu acompanhar as mudanças na exposição ao chumbo entre aproximadamente 650 e 1500.
Segundo Christopher Loveluck, autor principal do estudo e professor de arqueologia medieval europeia na Universidade de Nottingham, a análise permitiu confirmar quando a indústria foi estabelecida novamente após o período romano. A região se tornaria uma importante produtora de chumbo entre o final do século 12 e o século 16.
Poluição atingia crianças de diferentes comunidades
O chumbo é um metal tóxico capaz de prejudicar os sistemas nervoso, renal e reprodutivo. Na Idade Média, a mineração e a fundição criavam diferentes caminhos de exposição, incluindo poeira, fumaça e materiais contaminados.
A pesquisa identificou, porém, diferenças significativas entre os indivíduos. Pessoas enterradas com objetos funerários associados a posições sociais elevadas, incluindo armas, geralmente apresentavam concentrações menores de chumbo do que aquelas sepultadas com menos bens.
Os resultados sugerem que famílias de menor status social estavam mais diretamente envolvidas no processamento do minério e na fundição, expondo crianças a níveis mais elevados de poluição. As elites, por sua vez, podem ter controlado ou se beneficiado da produção sem enfrentar a mesma exposição.
As pesquisadoras também identificaram uma possível vulnerabilidade entre as mulheres. Três mulheres analisadas morreram entre 17 e 25 anos e apresentavam exposição elevada ao chumbo durante a infância. Embora não seja possível estabelecer uma relação direta entre a contaminação e a morte prematura, os resultados levantam questões sobre os riscos à saúde nessas comunidades.
Anna Bloxam, codiretora das escavações de Castleton, destacou que a exposição infantil pode prejudicar a saúde e o desenvolvimento. Ela também apontou que o chumbo armazenado no organismo pode voltar à corrente sanguínea durante a gravidez, tornando essa exposição especialmente preocupante.
Produção atingiu níveis elevados na Idade Média
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A contaminação permaneceu alta durante o período medieval e atingiu seus maiores níveis entre o final do século 12 e o início do 13, quando a produção regional alcançou seu auge. O resultado coincide com registros históricos e evidências ambientais de aumento da poluição atmosférica por chumbo na Europa.
Análises isotópicas também indicaram que a maioria dos indivíduos estudados cresceu na própria região, sugerindo que o conhecimento sobre mineração e fundição foi transmitido entre gerações, sem depender de grandes fluxos de trabalhadores de fora.
A pesquisa relaciona, assim, sinais ambientais de poluição a pessoas que viveram e trabalharam nessa paisagem industrial. Apesar das descobertas, os autores ressaltam que os resultados dizem respeito à atividade medieval, entre os séculos 7 e 15, e não representam as condições ambientais atuais.
Os dados serão incorporados à agenda de pesquisa arqueológica medieval do Parque Nacional Peak District e apresentados ao público em uma exposição temporária prevista para o outono e inverno de 2026–2027.
O estudo mostra como vestígios preservados nos dentes podem revelar não apenas a história de uma indústria, mas também as desigualdades sociais e os riscos enfrentados pelas pessoas que viveram sob seus efeitos.











