Na história do RMS Titanic, um detalhe costuma passar despercebido em meio ao fascínio e à tragédia que cercam o navio: o transatlântico da White Star Line não foi batizado com champanhe antes de sua viagem
inaugural.
A ausência desse ritual tradicional de “boa sorte”, comum em embarcações há séculos, alimenta até hoje curiosidade e especulações sobre se o navio já estaria, simbolicamente, condenado antes mesmo de deixar o cais. Entenda!
Navio sem batismo
O Titanic afundou na noite de 14 de abril de 1912, tornando-se uma das tragédias marítimas mais conhecidas da história. No entanto, antes mesmo do desastre, a embarcação já se destacava por uma escolha incomum de seus proprietários: a White Star Line optou por não realizar a tradicional cerimônia de quebrar uma garrafa de champanhe na proa do navio.
A prática é uma das formas mais conhecidas de batizar uma embarcação e simboliza votos de proteção e boa sorte para sua jornada. Segundo a farmacêutica e “contadora de histórias científicas” Dra. Harini Bhat, que abordou o tema em sua série ‘Hoje Eu Aprendi’ — que explora a história e o folclore em torno do RMS Titanic —, esse costume possui raízes muito antigas.
“O lançamento do Titanic não foi marcado pelo tradicional ritual de boa sorte de quebrar uma garrafa de champanhe contra o casco”, explicou Bhat. Segundo ela, a própria companhia evitava esse tipo de cerimônia: “Os proprietários, a White Star Line, não acreditavam em azar ou superstição. Achavam que isso era indigno deles”, disse ela.
A BBC também relata que a empresa não costumava “batizar” nenhum de seus navios dessa maneira, embora o motivo exato dessa política permaneça pouco claro.
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Rituais antigos
Apesar disso, rituais ligados ao lançamento de embarcações existem há milênios. Povos antigos como gregos, egípcios e babilônios realizavam oferendas e sacrifícios aos deuses do mar em busca de proteção durante as viagens.
Um dos registros mais antigos aparece em uma tabuleta datada de cerca de 2100 a.C., que descreve o sacrifício de bois aos deuses após a conclusão da viagem de uma arca.
Já na Inglaterra do século 15, a tradição envolvia vinho. Na época, “um representante do rei bebia um cálice de vinho, espalhava vinho no convés e depois atirava o cálice ao mar”.
Com o passar do tempo, o champanhe passou a ocupar esse papel simbólico. Um dos primeiros exemplos modernos citados pela BBC ocorreu em 1891, quando a Rainha Vitória lançou o HMS Royal Arthur com esse tipo de cerimônia. O uso da bebida estava associado à realeza e às grandes celebrações, consolidando a tradição que persiste até hoje.
Tragédia do Titanic
Construído nos estaleiros Harland & Wolff, em Belfast, o navio era considerado a joia da coroa da White Star Line. Sua construção levou mais de dois anos e ocorreu em um contexto de forte concorrência com a Cunard Line, vista como a empresa naval mais inovadora e respeitada da época.
Projetado para ser um transatlântico luxuoso, com acomodações de primeira, segunda e terceira classe, o Titanic tinha como objetivo cruzar o Atlântico entre Belfast e Nova York com conforto e sofisticação. Mais de 900 tripulantes trabalhavam a bordo, e 679 deles morreram no naufrágio.
A ideia de que se tratava de um “navio inafundável” também ajudou a reforçar o imaginário em torno da embarcação.
Décadas depois, imagens de alta resolução do fundo do Oceano Atlântico Norte revelaram novos detalhes sobre os momentos finais do Titanic. Segundo Harini Bhat, na área onde o navio se partiu ainda é possível observar suas quatro enormes caldeiras circulares.
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Duas delas aparecem côncavas, o que, segundo ela, indica que “ainda estavam funcionando quando o navio afundou”, repercute o All That’s Interesting.
Pesquisadores também encontraram sinais de que o gerador de emergência permaneceu ativo, o que reforça relatos de testemunhas que afirmavam que as luzes ainda estavam acesas “mesmo quando o navio afundou sob seus pés”.
Essas evidências mostram o esforço extremo dos engenheiros, que continuaram trabalhando mesmo sem chance de sobrevivência. “Não havia saída, e eles sabiam disso”, diz ela.
Enquanto isso, os operadores de rádio Jack Phillips e Harold Bride mantinham os pedidos de socorro em funcionamento graças às caldeiras ainda ativas. Eles enviaram mensagens por horas e até brincaram sobre usar o novo sinal internacional de emergência.
Mesmo com água gelada chegando aos joelhos, Phillips recusou-se a abandonar o posto quando foi liberado. Quando finalmente os tripulantes receberam coletes salva-vidas, ele estava tão concentrado no trabalho que alguém conseguiu roubar o seu. Phillips morreu no naufrágio. Bride, sobrevivente, passou o resto da vida sem falar sobre aquela noite.
Mais de um século depois, o fato de o Titanic nunca ter sido batizado com champanhe continua sendo um detalhe simbólico que desperta fascínio — e reforça o peso quase mítico da tragédia que marcou seu nome para sempre.













