Hoje uma das regiões mais áridas do planeta, o Saara já foi marcado por lagos, vegetação e uma grande variedade de animais. Uma das evidências mais impressionantes dessa transformação está nas pinturas
rupestres encontradas no Gilf Kebir, um vasto planalto de arenito no sudoeste do Egito. Entre elas estão imagens de figuras humanas que parecem nadar , encontradas pelo explorador húngaro László Almásy na década de 1930.
O Gilf Kebir já havia sido identificado antes das expedições de Almásy. Em 1923, o explorador egípcio Hassanein Bey, formado em Oxford, percorreu territórios ainda pouco conhecidos ao sul do oásis de Kufra e “redescobriu” Arkenu e Uweinat, dois dos chamados oásis perdidos.
Dois anos depois, o príncipe egípcio Kamal el-Din Hussein avistou pela primeira vez o enorme planalto que batizou de Gilf Kebir, expressão que significa algo como “Grande Barreira” ou “Grande Penhasco”. Com quase 300 metros de altura, a formação de arenito, combinada às dunas do Grande Mar de Areia, possui uma área aproximadamente equivalente à da Suíça.
Kamal el-Din havia renunciado à reivindicação ao trono egípcio em protesto contra a ocupação britânica. Em 1926, voltou à região e participou de uma transformação nas técnicas de exploração do deserto ao encomendar veículos Citroën-Kégresse, equipados com esteiras que facilitavam o deslocamento sobre a areia. Com eles, percorreu a região ao sul do planalto e produziu mapas do local.
László Almásy
Na mesma época, outro aventureiro se interessava pelas histórias sobre os oásis desaparecidos do Saara. Nascido na Hungria em 1895, László Almásy vinha de uma família nobre, mas tinha poucos recursos financeiros. Desde jovem, era apaixonado por carros e aviões e também demonstrava interesse por astrologia, magia e ocultismo.
Depois de estudar durante três anos em um internato na Inglaterra, Almásy serviu como piloto da força aérea austro-húngara durante a Primeira Guerra Mundial. Seu primeiro contato com o norte da África ocorreu em meados da década de 1920, quando a fabricante austríaca de automóveis Steyr o contratou para promover seus veículos em expedições pelo deserto.
As experiências despertaram seu interesse pela região e pelas histórias do chamado Clube de Zerzura, formado por exploradores que procuravam um lendário oásis descrito em relatos antigos. Entre seus integrantes estava o major britânico Ralph Alger Bagnold, que havia realizado expedições utilizando automóveis Ford Model A, mas não encontrou o lugar.
Na primavera de 1932, Almásy se juntou aos britânicos Robert e Pat Clayton e Hubert Penderel para explorar o noroeste do Gilf Kebir. A expedição utilizou três Ford Model A em terra e um avião De Havilland Gypsy Moth para reconhecimento aéreo.
Durante um dos voos, os exploradores avistaram um uádi aparentemente “cheio de árvores”, mas não conseguiram localizá-lo por terra. Com base em informações obtidas com moradores locais, Almásy acreditou que um dos vales poderia ser o lendário Zerzura. A falta de combustível, porém, obrigou o grupo a interromper a busca.
No ano seguinte, durante outra expedição, Almásy encontrou um segundo vale com acácias e áreas de vegetação seca. O lendário oásis, no entanto, continuava sem aparecer. Ao final da viagem, enquanto procurava abrigo do calor, o explorador encontrou algo inesperado: cavernas com pinturas de animais e figuras humanas.
Redescobrindo as pinturas rupestres
Em outubro de 1933, Almásy retornou ao local acompanhado do escritor austríaco Richard Bermann. Ao explorar dezenas de cavernas pintadas, o grupo encontrou quatro delas com representações de figuras humanas que pareciam estar nadando. Almásy batizou o local de “Caverna dos Nadadores” e chamou a região de Wadi Sura, ou “Vale das Pinturas”.
A descoberta levou Almásy a formular uma hipótese que se mostraria correta: o Saara nem sempre havia sido um deserto. As pinturas foram produzidas entre 9 mil e 6 mil anos atrás, durante o chamado Período Úmido Africano, quando as condições climáticas transformaram áreas hoje desérticas em paisagens com água e vegetação.
Pesquisas posteriores ajudaram a reconstruir esse passado. Em 2007, estudos confirmaram a existência de um grande lago na região. Já em 2002, os arqueólogos Massimo e Jacopo Foggini e Ahmed Mestikawi haviam descoberto a chamada Caverna das Feras, com pinturas produzidas há cerca de 7 mil anos.
As imagens mostram que o entorno do Gilf Kebir abrigava um ecossistema diversificado antes do avanço da aridez. Embora as figuras da Caverna dos Nadadores tenham inicialmente sido interpretadas como pessoas nadando, pesquisas atuais sugerem possibilidades diferentes, como representações simbólicas de espíritos flutuantes ou sonhos.
As pinturas, portanto, não apenas registram a imaginação de comunidades que viveram no Saara há milhares de anos. Elas também funcionam como vestígios de uma época em que o maior deserto quente do planeta era uma paisagem muito mais úmida, verde e povoada pela vida.











