Um estudo recente levantou a possibilidade de que mosquitos possam aprender a associar repelentes de insetos à presença de alimento , tornando-se atraídos por substâncias tradicionalmente usadas para afastá-los.
A pesquisa analisou o comportamento de insetos expostos ao DEET, composto químico amplamente utilizado em repelentes, e concluiu que a experiência prévia dos mosquitos pode alterar a reação ao produto.
O DEET, ou N,N-dietil-meta-toluamida, é considerado um dos repelentes mais eficazes contra picadas de mosquito e é recomendado por órgãos de saúde em diferentes países. No Reino Unido, por exemplo, a Agência de Segurança da Saúde recomenda produtos com concentração de 50% de DEET como principal forma de proteção contra mosquitos transmissores de doenças como dengue, malária, Zika e encefalite japonesa.
Apesar da eficácia consolidada do composto, pesquisadores sugerem que os insetos podem desenvolver uma associação entre o odor do repelente e a possibilidade de alimentação. Segundo o estudo, o fenômeno lembra o experimento clássico dos cães de Pavlov, que aprenderam a relacionar o som de um sino à chegada de comida.
“Durante muito tempo, acreditou-se que os repelentes funcionavam unicamente devido às suas propriedades químicas, seja por serem tóxicos ou desagradáveis para os mosquitos, afastando-os, seja por bloquearem a sua capacidade de detetar humanos. No entanto, as nossas descobertas sugerem que a reação pode ser modificada pela experiência”, afirmou o Prof. Claudio Lazzari, da Universidade de Tours, na França. “Acreditamos que isto representa uma mudança significativa na nossa compreensão dos repelentes.”
Experimentos
Os resultados do estudo foram publicados no periódico científico Journal of Experimental Biology. Para conduzir os testes, os pesquisadores observaram inicialmente mosquitos presos tentando picar bolsas de sangue aquecido às quais não conseguiam ter acesso. Em seguida, passaram a analisar o comportamento dos insetos após diferentes tipos de exposição ao DEET.
Os experimentos mostraram que cerca de 60% dos mosquitos que conseguiram se alimentar de sangue enquanto estavam simultaneamente expostos ao DEET posteriormente tentaram picar novamente quando tiveram contato apenas com o repelente. Entre os mosquitos sem treinamento prévio, o índice caiu para 17%.
Outros grupos analisados apresentaram respostas diferentes. Apenas 13% dos mosquitos expostos exclusivamente ao DEET demonstraram interesse posterior pelo composto. Entre aqueles que receberam sangue quente sem contato prévio com o repelente, a taxa foi de 17%. Já no grupo que teve acesso ao sangue e ao DEET em momentos separados, o índice ficou em 23%.
Em outro teste realizado pela equipe, quase 60% dos mosquitos que haviam se alimentado após contato com DEET tentaram picar posteriormente a mão de um pesquisador tratada com o repelente. Já os insetos não treinados direcionaram suas tentativas de picada à mão sem DEET, repercute o The Guardian.
A Dra. Nina Stanczyk, da ETH Zurique, especialista que já havia estudado a eficácia do composto, avaliou os resultados de forma positiva. “Já foi demonstrado que os mosquitos possuem uma capacidade de aprendizagem impressionante, mas o fato de conseguirem associar um odor repelente tão forte à sua comida e, posteriormente, serem atraídos por ela, é notável e importante para termos consciência disso no futuro”, disse ela.
Apesar das conclusões, os próprios pesquisadores ressaltaram que os resultados não indicam perda de eficácia do repelente em situações normais de uso. “As pessoas precisam entender que o DEET não perde sua eficácia com o uso normal, mas apenas sob condições específicas de laboratório, projetadas para revelar como ele age nos mosquitos”, disse Lazzari.
A professora Francesca Romana Dani, entomologista da Universidade de Florença, também ponderou que a mudança de comportamento observada pode não ocorrer com frequência em condições naturais. Segundo ela, os mosquitos costumam entrar em contato com diferentes repelentes ao longo do tempo, o que dificultaria a consolidação dessa associação.
“Além disso, embora um único mosquito possa se alimentar de sangue várias vezes, isso acontece a cada poucos dias, por isso é importante avaliar por quanto tempo a memória de uma refeição de sangue feita na presença de DEET irá durar”, disse ela.
Stanczyk reforçou que viajantes e usuários devem continuar utilizando repelentes normalmente. "Os autores do estudo afirmam que foi difícil fazer com que os mosquitos se alimentassem pela primeira vez na presença de DEET, e que o maior risco de associação ocorre quando o repelente começa a perder o efeito", disse ela. "Portanto, o ponto mais importante para os viajantes é reaplicar o repelente regularmente, conforme as instruções do rótulo do produto."











