Pinturas rupestres encontradas nas montanhas do condado de Fuyun, na região de Altai, em Xinjiang, no noroeste da China, revelam como diferentes culturas utilizaram o mesmo espaço ao longo dos séculos.
Um estudo publicado na revista npj Heritage Science identificou pelo menos duas fases principais de produção artística nas cavernas de Tangbaletati: uma associada à Idade do Bronze e outra que inclui símbolos budistas tibetanos ligados à dinastia Yuan, que governou entre 1271 e 1368.
A pesquisa combinou imagens hiperespectrais, comparações com outras manifestações artísticas antigas, registros históricos e análises dos arredores. Os resultados indicam que novas imagens foram acrescentadas às paredes sem que as pinturas anteriores fossem removidas.
Tecnologia revelou figuras difíceis de enxergar
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O complexo de Tangbaletati reúne dois grupos de cavernas pintadas, identificados como C1 e C2. Eles estão separados por aproximadamente 112 metros na horizontal e 40 metros de elevação. Um local de sepultamento também foi identificado a cerca de 100 metros da área.
Como muitas pinturas estão desbotadas ou se confundem com a rocha, os pesquisadores utilizaram uma câmera hiperespectral para registrar informações em 180 bandas de luz, entre 400 e 930 nanômetros. Análises computacionais ajudaram a distinguir sinais dos pigmentos e revelar características pouco perceptíveis a olho nu.
Na caverna C1, foram registradas 19 figuras identificáveis, incluindo rostos semelhantes aos humanos, círculos, formas geométricas e símbolos associados ao budismo tibetano. Uma das representações apresenta duas orelhas, queixo alongado, barba e 17 linhas curtas irradiando do topo da cabeça. Três olhos aparecem como círculos concêntricos.
Os pesquisadores também identificaram uma figura em forma de sino com linhas curtas na parte superior. Sua aparência lembra representações antropomórficas relacionadas à cultura Chemurchek, que floresceu na região de Altai durante o início da Idade do Bronze. A semelhança sugere uma origem antiga, mas a datação exata ainda precisa ser confirmada.
Figuras com chifres e diferentes fases de pintura
Na caverna C2, a equipe identificou 49 figuras visíveis, entre formas humanas, sinais em formato de X e animais. Algumas representações humanas apresentam marcas semelhantes a chifres na cabeça, enquanto três parecem carregar arcos e flechas. Figuras semelhantes também aparecem em manifestações artísticas da Idade do Bronze associadas às culturas Samus, Karakol e Okunev.
A tecnologia revelou ainda duas figuras que antes não eram visíveis. Ao analisar as sobreposições, os pesquisadores encontraram indícios de diferentes etapas de pintura: um motivo mais antigo estava parcialmente coberto por uma representação posterior, apresentando diferenças na assinatura dos pigmentos e contornos interrompidos.
A equipe também observou que a cor, isoladamente, não é um indicador confiável para determinar a idade das pinturas. Algumas imagens apresentam tonalidades diferentes, embora seus sinais de pigmento sejam semelhantes. Os pesquisadores sugerem que alterações relacionadas à água podem explicar essas variações, repercute o Archaeology News.
Símbolos budistas indicam ocupação posterior
Entre as representações mais recentes estão inscrições em tibetano budista e um vajra cruzado, símbolo associado às tradições budistas. Diferenças no desgaste e nos pigmentos sugerem que essas imagens pertencem a uma fase posterior à de algumas figuras antigas. Registros históricos apontam para a utilização intermitente do local durante o período da dinastia Yuan.
O conjunto de imagens e a proximidade do sepultamento também levantam hipóteses sobre a função da área. Para os pesquisadores, a organização das figuras pode indicar atividades ritualísticas ou simbólicas, embora outras interpretações continuem possíveis.
Os autores ressaltam, porém, que as pinturas não passaram por datação científica direta e que o estudo não conta com evidências de escavações sistemáticas. As estimativas cronológicas dependem de comparações artísticas e registros históricos. Ainda assim, Tangbaletati preserva indícios de como diferentes tradições visuais e crenças se acumularam na região de Altai ao longo do tempo.
*Sob supervisão de Éric Moreira











