Apesar de conviverem diariamente com multidões nas cidades, aves urbanas parecem ser seletivas quanto a quem se aproxima delas, de acordo com uma nova pesquisa.
Após analisar mais de 37 espécies em cinco
países europeus, cientistas observaram que as aves tendiam a fugir mais cedo quando abordadas por mulheres do que por homens. Os resultados, publicados em dezembro de 2025 na revista People and Nature, indicam que esses animais podem ser capazes de distinguir o sexo das pessoas.
Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores utilizaram a chamada "distância de início de voo", ou seja, o quão perto alguém consegue chegar antes que a ave fuja. Ainda assim, o motivo pelo qual as aves demonstram maior sensibilidade à aproximação feminina permanece incerto.
A coautora do estudo, Yanina Benedetti, ecologista da Universidade Tcheca de Ciências da Vida de Praga, afirmou ter se surpreendido com o resultado. Segundo ela, o trabalho levanta questões relevantes sobre como os animais percebem os humanos em ambientes urbanos.
Este estudo destaca como os animais nas cidades 'veem' os humanos, o que tem implicações para a ecologia urbana e a igualdade na ciência. Muitos estudos comportamentais assumem que um observador humano é neutro, mas esse não foi o caso das aves urbanas em nosso estudo", destacou, segundo o portal Live Science.
Especialistas que não participaram da pesquisa consideram os achados interessantes, mas ressaltam que ainda são preliminares. É o caso de John Marzluff, professor emérito de ecologia da Universidade de Washington, que destacou que, embora seja evidente que aves prestam atenção aos humanos, ainda faltam explicações sólidas para essa diferença específica.
O estudo analisou espécies como pombo-torcaz, corvos, pardais, pegas e melros em cidades da República Tcheca, França, Alemanha, Polônia e Espanha. Algumas aves, como pombos, demonstraram maior tolerância à presença humana, enquanto outras, como as pegas, se mostraram mais cautelosas.
Durante os experimentos, homens e mulheres com características físicas semelhantes e vestindo roupas parecidas se aproximavam das aves em linha reta, mantendo o olhar fixo. Ao todo, quatro homens e quatro mulheres, todos ornitólogos, participaram dos testes. Com base em 2.701 observações realizadas entre abril e julho de 2023, os pesquisadores concluíram que, em média, homens conseguiam se aproximar cerca de um metro a mais antes que as aves fugissem.
Sem explicação definitiva
Embora os dados apontem uma diferença consistente, os próprios autores admitem que ainda não há explicação definitiva. Entre as hipóteses levantadas estão fatores como odores corporais, formato físico ou até a forma de caminhar.
Alguns especialistas sugerem que a maneira de andar pode ser um sinal relevante para as aves, mas ponderam que, se esse comportamento for aprendido, seria esperado que experiências variadas com humanos — homens e mulheres — levassem a respostas menos uniformes.
Os pesquisadores também observaram que o estudo não incluiu mulheres durante o período menstrual, quando alterações no odor corporal poderiam influenciar os resultados.
A equipe ressalta que são necessários mais estudos para confirmar se o padrão observado é consistente. Investigações futuras podem isolar variáveis específicas, como movimento, cheiro ou características físicas, para entender melhor o que realmente influencia o comportamento das aves.












