Um novo estudo publicado na revista científica PLOS Biology apresentou uma possível explicação para um dos comportamentos mais comuns da espécie humana: a predominância de pessoas destras . Atualmente,
cerca de 90% da população mundial utiliza preferencialmente a mão direita, enquanto apenas 10% é canhota. Apesar de ser uma característica amplamente difundida, a origem dessa preferência ainda é alvo de debate científico.
A pesquisa, conduzida pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, e publicada em 27 de abril, sugere que a dominância manual pode estar diretamente ligada ao desenvolvimento do bipedismo e ao crescimento do cérebro humano ao longo da evolução. O estudo também investigou como a lateralidade se manifesta em outras espécies de primatas e concluiu que a forte preferência pela mão direita parece ser uma característica muito mais marcante nos seres humanos do que em macacos e símios.
Segundo os autores, trata-se do primeiro trabalho a testar simultaneamente algumas das principais hipóteses elaboradas por biólogos evolucionistas e neurocientistas para explicar a lateralidade humana. “Nossos resultados sugerem que ela provavelmente está ligada a algumas das principais características que nos tornam humanos, especialmente a postura ereta e a evolução de cérebros maiores”, afirmou Thomas Püsche, da Universidade de Oxford, em comunicado.
Detalhes do estudo
Para chegar às conclusões, os pesquisadores analisaram características comportamentais, neurológicas e sociais de 41 espécies de hominoides, comparando-as com os padrões observados em seres humanos. A equipe utilizou simulações estatísticas voltadas para relações evolutivas entre espécies e avaliou teorias já conhecidas sobre lateralidade, termo utilizado para descrever a preferência natural por um lado do corpo.
Durante a pesquisa, os cientistas inseriram duas variáveis principais nas análises: o tamanho do cérebro e a proporção entre pernas e braços, considerada um indicador importante da adaptação ao bipedismo. A partir dessa combinação de fatores, os resultados mostraram uma correlação direta entre cérebros maiores, pernas mais longas e a predominância do uso da mão direita.
Com base nesses dados, os autores também tentaram reconstruir padrões de lateralidade em ancestrais humanos já extintos. De acordo com Püsche, esse tipo de comparação ajuda a compreender quais traços são compartilhados entre primatas e quais podem ser exclusivos da espécie humana. “ao analisar diversas espécies de primatas, podemos começar a entender quais aspectos da lateralidade são ancestrais e compartilhados, e quais são exclusivamente humanos”.
Os resultados indicam que a preferência pela mão direita surgiu gradualmente ao longo da evolução humana. Espécies mais antigas, como Ardipithecus e Australopithecus, apresentavam apenas uma leve tendência à dominância da mão direita. Esse padrão teria se intensificado em espécies posteriores, como Homo ergaster, Homo erectus e Neandertais, alcançando o nível atual de predominância no Homo sapiens.
Os pesquisadores defendem que esse processo ocorreu em duas etapas principais. Primeiro, o desenvolvimento da locomoção bípede teria liberado os membros superiores para outras atividades além do deslocamento. Em seguida, com a expansão cerebral e o aumento das capacidades cognitivas, a especialização manual teria se consolidado, favorecendo o uso predominante da mão direita.
A equipe considera, portanto, que o bipedismo e a expansão neuroanatômica foram fatores decisivos para a lateralização humana. Ao mesmo tempo, o estudo aponta que essas mesmas características podem ajudar a compreender padrões mais amplos de dominância manual em diferentes espécies animais, repercute a Revista Galileu.
Como próximos passos, os pesquisadores pretendem investigar de que maneira fatores culturais contribuíram para fortalecer a predominância da mão direita entre os humanos. O grupo também quer avaliar se tendências semelhantes relacionadas ao desenvolvimento dos membros podem ser encontradas em outros animais além dos primatas.










