Um novo estudo publicado nesta segunda-feira, 27, na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, mostra como a extinção de animais gigantes — como os tigres-dentes-de-sabre, preguiças do tamanho
de elefantes e mamutes-lanosos com presas superiores a 3,5 metros —, ocorrida entre 5 mil e 10 mil anos atrás, remodelou profundamente as teias alimentares atuais. A pesquisa também busca entender por que essas mudanças foram mais intensas em algumas regiões do planeta do que em outras.
Ainda não há consenso sobre o que levou ao desaparecimento desses grandes mamíferos. Parte dos cientistas atribui o fenômeno a mudanças climáticas e pressões ambientais ao longo de milênios, enquanto outros defendem que a expansão dos seres humanos para fora da África aumentou a pressão sobre essas espécies de grande porte.
Independentemente da causa, há um ponto de concordância: o impacto dessas extinções foi duradouro. Afinal, quando uma espécie desaparece, não se perde apenas o animal em si, mas toda a rede de interações da qual ele fazia parte. A ausência de um único elo pode desencadear efeitos em cascata, como o crescimento descontrolado de presas na falta de predadores.
Segundo a pesquisadora Lydia Beaudrot, da Universidade Estadual de Michigan, essa hipótese já era considerada há algum tempo, mas faltavam dados robustos para comprová-la. Para contornar essa limitação, a equipe desenvolveu métodos capazes de integrar informações em escalas geográficas mais amplas.
Com essa abordagem, os cientistas analisaram as relações entre predadores e presas em 389 localidades distribuídas pelas Américas, África e Ásia, considerando cerca de 440 espécies de mamíferos, incluindo ursos, lobos, elefantes e leões.
O caso das Américas
Embora todas as teias alimentares sigam um princípio básico — organismos que se alimentam e, por sua vez, servem de alimento —, elas diferem na diversidade e na quantidade de espécies envolvidas. E foi justamente nesse ponto que surgiu uma descoberta inesperada: as teias alimentares das Américas apresentam menos presas e, consequentemente, menor diversidade de animais em comparação com as da África e da Ásia.
De acordo com Chia Hsieh, também da mesma universidade, essa diferença não se explica apenas por fatores ambientais, como clima ou sazonalidade, mas principalmente pela intensidade das extinções em cada região. Nesse sentido, a América foi as mais afetada: nos últimos 50 mil anos, o continente perdeu mais de três quartos dos mamíferos com mais de 45 quilos.
Essa perda atingiu tanto predadores quanto presas. Na América do Sul, por exemplo, a extinção de grandes herbívoros, como cervos gigantes, provocou o colapso de seus predadores, incluindo tigres-dentes-de-sabre e lobos-terríveis. No fim, esse efeito em cadeia acabou por enfraquecer as estruturas das teias alimentares, com reflexos que podem ser observados ainda hoje.
Ao constatar que grande parte da base dessas cadeias foi eliminada, os pesquisadores passaram a considerar os possíveis impactos futuros para espécies atualmente ameaçadas. O próximo passo, segundo Beaudrot, é investigar se essas extinções do passado tornam certos ecossistemas mais vulneráveis a novas perdas no futuro.













