Durante séculos, a memória de Maria Bolena ficou presa a um papel secundário na história inglesa: o da irmã menos brilhante de Ana Bolena, a rainha executada por ordem de Henrique VIII. Quando aparece
na cultura popular, Maria geralmente surge como “a outra Bolena” — sedutora, emocional, intelectualmente apagada e usada politicamente pelos homens ao seu redor.
Mas novas pesquisas históricas vêm tentando desmontar essa imagem construída ao longo do tempo. Um estudo recente da historiadora Sylvia Barbara Soberton sugere que grande parte da reputação de Maria foi moldada não por evidências sólidas, mas por interpretações equivocadas, traduções problemáticas e séculos de ficção histórica.
A infame Maria Bolena
Maria Bolena nasceu por volta de 1499 ou 1500, em uma das famílias mais ambiciosas da corte Tudor. Filha do diplomata Thomas Bolena, ela cresceu em um ambiente profundamente ligado ao jogo político da monarquia inglesa. Ainda hoje, historiadores discutem detalhes básicos de sua biografia, incluindo sua data exata de nascimento e até a ordem cronológica entre os irmãos Bolena.
Durante décadas, consolidou-se uma narrativa bastante específica sobre as irmãs Bolena. Ana passou a ser retratada como sofisticada, ambiciosa e intelectualmente brilhante — uma mulher capaz de desafiar o próprio rei. Já Maria acabou reduzida ao estereótipo da irmã impulsiva e escandalosa, lembrada principalmente por seus romances amorosos.
Essa visão foi amplificada pela literatura e pelo cinema, especialmente após o sucesso do romance A Outra, de Philippa Gregory, posteriormente adaptado para o cinema como A Outra Bolena. A obra ajudou a cristalizar a imagem de Maria como uma figura quase trágica, emocionalmente vulnerável e constantemente eclipsada pela irmã.
Segundo Soberton relata à Revista Smithsonian, a documentação histórica, entretanto, oferece um quadro muito mais complexo.
Revisão do papel histórico
Uma das principais controvérsias envolve a suposta reputação promíscua de Maria na corte francesa. Durante muito tempo, historiadores repetiram a alegação de que o rei francês Francisco I teria se referido a ela como “uma grande prostituta”, insinuando que Maria mantinha múltiplos relacionamentos durante sua permanência na França.
O problema é que essa frase talvez nunca tenha sido direcionada a ela.
Ao revisar documentos originais em italiano, Soberton concluiu que o texto não mencionava Maria explicitamente. A referência provavelmente dizia respeito apenas a “uma das irmãs” da rainha inglesa, sem especificar qual delas. Além disso, o autor da carta demonstrava desconhecimento sobre diversos acontecimentos da corte inglesa, o que coloca em dúvida sua credibilidade.
Caso essa interpretação esteja correta, uma das bases centrais da fama escandalosa de Maria Bolena teria surgido de uma tradução equivocada repetida durante séculos.
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Outra hipótese revisitada pela pesquisa envolve a juventude das irmãs nos Países Baixos. Tradicionalmente, acredita-se que Ana Bolena tenha sido enviada ainda jovem para servir na corte de Margarida da Áustria — experiência considerada fundamental para sua formação intelectual e política. Mas Soberton argumenta que os registros originais talvez indiquem justamente o contrário: a jovem enviada para aquela corte poderia ter sido Maria, não Ana.
Se verdadeira, essa hipótese altera profundamente a forma como as duas irmãs foram interpretadas pela historiografia Tudor. Durante séculos, Ana foi tratada como a irmã cosmopolita e sofisticada, enquanto Maria aparecia como alguém menos preparada intelectualmente. A nova leitura sugere que essa oposição talvez tenha sido artificialmente ampliada por historiadores posteriores.
Ainda assim, Maria permanece inevitavelmente ligada a Henrique VIII. Em algum momento da década de 1520, ela se tornou amante do rei inglês, embora a duração exata do relacionamento continue desconhecida. Historiadores também debatem até hoje se Henrique VIII poderia ser pai de um ou ambos os filhos de Maria.
A ausência de provas definitivas transformou o tema em um dos maiores mistérios da corte Tudor. Alguns pesquisadores apontam semelhanças físicas e o tratamento privilegiado dado às crianças como possíveis indícios. Outros consideram as evidências insuficientes para qualquer conclusão segura.










