Arqueólogos que atuavam na antiga cidade de Kibyra, localizada no sudoeste da Turquia, desenterraram em 2024 um bloco de calcário inscrito com um oráculo da época romana. A peça foi identificada no interior
de uma capela e apresenta um texto em grego que registra um método de adivinhação fundamentado no arremesso de ossos de animais, prática que cobria o sul da Ásia Menor.
O achado provém originalmente do terceiro terraço da antiga ágora de Kibyra. Gravadas nas quatro faces do bloco, as inscrições trazem um panorama detalhado de como as populações urbanas do período romano buscavam orientação para o cotidiano.
Um estudo elaborado por Şenkal Kileci, Nihal Tüner Önen e Şükrü Özüdoğru, publicado na revista Gephyra, comparou o texto com monumentos análogos em cidades vizinhas, vinculando o achado de Kibyra a uma tradição regional mais ampla que possuía adaptações locais.
Conhecida como astragalomancia, essa modalidade de adivinhação utilizava pequenos ossos do tornozelo — conhecidos como astrágalos — retirados de ovelhas, cabras e bezerros. Cada osso dispunha de quatro faces, com valores atribuídos de 1, 3, 4 ou 6.
A mecânica tradicional consistia no arremesso simultâneo de cinco ossos. A soma dos valores obtidos na jogada era então confrontada com a tabela gravada no monumento de pedra, que listava 56 combinações e resultados possíveis.
As mensagens ofereciam orientações práticas: algumas encorajavam a execução de planos, enquanto outras recomendavam prudência ou advertiam contra decisões específicas. Os temas abrangiam aspectos rotineiros como finanças, viagens, comércio, litígios e enfermidades. A presença dessas estruturas em espaços públicos permitia que os cidadãos buscassem conselhos sem a necessidade de deslocamento a santuários distantes.
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Contexto urbano, patrocínio e divindades
A figura central associada a essa tradição era o deus grego Hermes, ligado ao comércio, à obtenção de lucros e à sorte. A inscrição de Kibyra também cita divindades como Zeus, Atena, Apolo e Asclépio, repercute o Archaeology News.
Em um dos lados do bloco, uma inscrição de maior porte detalha o ato de benfeitoria por trás da edificação. O texto registra que um patrono financiou integralmente, com recursos próprios, a confecção do oráculo, uma estátua dedicada a Hermes, sua base e os demais elementos da estrutura.
A instalação na ágora de Kibyra garantia fácil acesso a comerciantes e visitantes no cotidiano da cidade. Em um momento posterior da história, o bloco de calcário foi reutilizado como material de construção na parede de uma capela, circunstância que garantiu a preservação de seu texto, embora fora da posição original.
Embora apresente forte semelhança com outras inscrições oraculares conhecidas, o texto de Kibyra exibe variações gramaticais e de ritmo. Os pesquisadores apontam que essas diferenças podem ter sido causadas por lapsos na cópia feita pelos escultores ou por modificações graduais ocorridas nas versões locais.
A redação de Kibyra possui a correspondência mais direta com o oráculo descoberto em Kremna, além de conexões com achados em Termessos, Ormeleis e Adada. O grande diferencial do monumento de Kibyra reside no fato de conservar a totalidade dos 56 resultados da adivinhação, enquanto os demais exemplares conhecidos apresentam lacunas em seus registros.











