Uma coleção de dez pergaminhos do século 14 que retratam o julgamento das almas segundo a tradição budista foi reunida pela primeira vez em mais de 60 anos no Museu de Arte de Cleveland, nos Estados Unidos.
As pinturas, produzidas durante a dinastia coreana Goryeo (918–1392), integram a exposição Dez Reis do Inferno: A Vida Após a Morte na Coreia Medieval, organizada em parceria com o Museu Nacional da Coreia e aberta à visitação até 3 de janeiro de 2027.
A reunião do conjunto foi possível após a redescoberta de O Terceiro Rei do Inferno, pintura cujo paradeiro era desconhecido havia mais de 50 anos. A obra foi localizada no Museu de Arte Moderna de Gunma, no Japão, permitindo que os dez pergaminhos voltassem a ser exibidos juntos.
Descoberta em templo japonês
A localização da pintura também revelou informações sobre a trajetória da coleção. Uma anotação encontrada junto ao pergaminho continha um relato do historiador de arte japonês Wakimoto Rakushiken (1883–1963), segundo o qual as obras haviam sido preservadas em um templo budista em Nagoya, no Japão.
No final do século 19, o templo enfrentou dificuldades financeiras em decorrência das políticas antibudistas do governo Meiji, o que levou à venda das pinturas. Atualmente, os dez pergaminhos pertencem a seis museus diferentes ao redor do mundo.
A descoberta ajudou pesquisadores a reconstruir parte da história do acervo e a compreender melhor a circulação da arte budista entre a Coreia e o Japão.
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Morte e a vida após a morte
Segundo informações divulgadas pelo portal Medievalists.net, a exposição está dividida em três seções que acompanham a jornada imaginada da alma desde a morte, passando pelo purgatório, até chegar ao paraíso budista.
As pinturas representam os Dez Reis do Inferno, figuras associadas às crenças budistas sobre o julgamento após a morte. Juntas, ajudam a compreender como os coreanos medievais concebiam o destino da alma e sua passagem pelo além. Essas imagens faziam parte de uma cultura visual mais ampla, que incluía cerâmicas, tecidos e outros objetos ligados aos rituais funerários budistas.
A mostra também examina como as convulsões políticas e as pressões ambientais influenciaram as atitudes da população diante da morte. A instabilidade climática durante a Pequena Idade do Gelo e as consequências da Peste Negra integram o contexto histórico apresentado para explicar a preocupação da época com o destino após a morte.
Além dos dez pergaminhos, a exposição reúne mais de 100 obras de arte provenientes de coleções da Coreia, do Japão, dos Estados Unidos e do Reino Unido. Entre os objetos medievais estão uma bainha de faca do século 12, feita de prata dourada e latão, uma representação do bodhisattva Kṣitigarbha, do século 14, e uma pintura recém-descoberta do período Goryeo que retrata Avalokiteśvara, a Lua de Água.
A mostra também apresenta um santuário budista portátil de prata dourada, com uma estátua de 4,1 centímetros de altura.
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Reflexões sobre a existência
A curadora de arte coreana do Museu de Arte de Cleveland, Sooa Im McCormick, destacou que as questões abordadas pela exposição ultrapassam as fronteiras culturais e religiosas.
A crença na vida após a morte é comum em diversas tradições culturais e espirituais; muitos acreditam que a morte não é o fim, mas sim a continuação da existência em outra forma”, afirmou a curadora.
“Embora a exposição ofereça uma jornada imersiva pela vida após a morte na Coreia, ela também convida os visitantes a refletirem sobre a curiosidade universal da humanidade a respeito do que existe além da morte. Ao explorar a morte e a vida após a morte, espero que esta exposição ofereça uma perspectiva instigante para refletir sobre questões existenciais perenes que conectam a Coreia medieval ao público contemporâneo nos Estados Unidos”, acrescentou.
Arte medieval coreana e o mundo budista
A exposição também situa a arte budista coreana no contexto mais amplo do Leste Asiático, explorando a circulação de imagens e ideias religiosas entre a China, a Coreia e o Japão. Um dos temas abordados é a transmissão da tradição dos Dez Reis do Inferno, desde a China da dinastia Tang, passando pela península coreana, até o Japão medieval.
Como parte da programação relacionada à mostra, o Museu de Arte de Cleveland realizará, nos dias 20 e 21 de novembro de 2026, o simpósio internacional "A Ascensão dos ‘Dez Reis do Inferno’ na Rota da Seda”. Acadêmicos discutirão as origens e o desenvolvimento dessa tradição religiosa.
Além das obras históricas, os visitantes poderão conhecer trabalhos contemporâneos que exploram a morte e a vida após a morte. A exposição também oferece recursos interativos, como uma tela digital que permite examinar detalhes de pinturas selecionadas e uma representação tridimensional de um recipiente de sutra budista. A exposição Dez Reis do Inferno: A Vida Após a Morte na Coreia Medieval permanecerá em cartaz no Museu de Arte de Cleveland até 3 de janeiro de 2027.
*Sob supervisão de Fabio Previdelli











