O supervulcão Campi Flegrei, localizado a oeste de Nápoles, na Itália, pode estar se aproximando rapidamente de uma mudança decisiva em seu comportamento geológico.
Isso é o que sugere um novo estudo conduzido
por pesquisadores internacionais, que identificaram uma aceleração incomum na atividade sísmica e na deformação do solo da caldeira vulcânica. Apesar disso, os cientistas ainda não conseguem afirmar se essa possível transição resultará em uma erupção ou em outro tipo de alteração interna do sistema vulcânico.
A caldeira de Campi Flegrei possui cerca de 15 quilômetros de diâmetro e abriga aproximadamente 500 mil pessoas em áreas consideradas de risco em caso de atividade eruptiva. A estrutura se formou há cerca de 40 mil anos durante uma gigantesca erupção vulcânica. Desde então, outros episódios menores ocorreram na região, incluindo a erupção de 1528, responsável pela formação do Monte Nuovo, um cone vulcânico de 132 metros de altura.
Nas últimas décadas, Campi Flegrei vem apresentando sinais recorrentes de instabilidade. Entre os anos 1950 e 1980, a região registrou períodos de intensa atividade sísmica e elevação do solo, fenômenos que contribuíram para enfraquecer a crosta terrestre da caldeira. Desde 2005, os sinais de atividade voltaram a crescer, e o fundo da estrutura vulcânica já se elevou cerca de 1,4 metro, possivelmente devido à movimentação de gases vulcânicos abaixo da superfície.
Agora, a nova pesquisa indica que o processo entrou em uma fase ainda mais crítica. Segundo os autores, não apenas a atividade aumentou, mas a própria velocidade dessa aceleração também está crescendo. Isso significa que o sistema vulcânico pode estar se aproximando de um limite estrutural.
“Nosso artigo identifica quando o sistema provavelmente atingirá um ponto de ruptura, mas não pode determinar o que acontecerá nesse ponto de ruptura com os dados atuais”, disse o primeiro autor do estudo, Davide Zaccagnino, pesquisador de pós-doutorado especializado em riscos geológicos na Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul, em Guangdong, China, em e-mail ao Live Science.
O trabalho ainda não foi oficialmente publicado em periódico científico e permanece em fase de revisão por pares. Mesmo assim, os pesquisadores disponibilizaram o estudo na plataforma de pré-publicações arXiv.
Detalhes do estudo
Para chegar às conclusões, os cientistas utilizaram um modelo baseado em princípios físicos capaz de diferenciar dois tipos de comportamento em sistemas vulcânicos. O primeiro é a aceleração exponencial, em que a atividade cresce em ritmo constante. O segundo, considerado mais preocupante, é chamado de singularidade de tempo finito, quando a própria aceleração aumenta continuamente.
Segundo Zaccagnino, o ponto central não é apenas o crescimento da atividade vulcânica, mas a capacidade da crosta terrestre de resistir à pressão acumulada no interior da caldeira. Quando esse limite é atingido, alguma mudança significativa tende a ocorrer.
O vulcanólogo Christopher Kilburn, do University College London, que não participou da pesquisa, afirmou que os episódios anteriores de instabilidade são fundamentais para compreender o estado atual do vulcão. “A cada emergência, a crosta terrestre é esticada um pouco mais, de modo que as emergências posteriores se acumulam sobre as anteriores”, disse Kilburn ao Live Science.
Os resultados apontam que a atividade sísmica de Campi Flegrei segue justamente esse padrão de aceleração crescente. Dados de terremotos e de deformação do solo sugerem que o processo pode continuar até aproximadamente entre 2030 e 2034. Nesse momento, segundo os pesquisadores, o sistema deverá passar por algum tipo de transição.
O estudo atribui o fenômeno à movimentação de fluidos magmáticos profundos, que estariam elevando e fraturando a crosta fragilizada da caldeira. Ainda assim, permanece impossível prever qual será o desfecho desse processo. Os cientistas destacam que a transição pode resultar em uma erupção, mas também em outro tipo de reorganização geológica capaz de reduzir ou alterar a atividade vulcânica, repercute o Live Science.
Além disso, o trabalho não permite estimar qual seria a magnitude ou o tipo de erupção caso ela aconteça. Kilburn ressaltou que é necessário cautela ao tentar estabelecer datas precisas para um possível evento eruptivo, embora considere o estudo um importante indicativo de mudanças profundas no comportamento do vulcão. “As coisas estão mudando”, disse ele, “e, portanto, a experiência passada não é necessariamente um bom guia para o futuro.”










