Uma análise realizada em instrumentos cirúrgicos de cerca de 600 anos revelou o que pode ser a evidência química mais antiga já encontrada de um anestésico tópico. O estudo identificou resíduos de aconitina
— substância tóxica presente na planta acônito — em ferramentas médicas da dinastia Ming, na China.
A descoberta foi detalhada em um estudo publicado na revista Antiquity. Os pesquisadores analisaram uma tesoura e uma pinça de ferro encontradas décadas atrás no túmulo de Xia Quan, pertencente ao período da dinastia Ming, que governou a China entre 1368 e 1644. O sepultamento fica em Jiangyin, cidade localizada a cerca de 150 quilômetros de Xangai.
"Há seis séculos, um cirurgião da Dinastia Ming realizou uma operação com uma tesoura e uma pinça de ferro, e hoje conseguimos ler os vestígios de anestésico deixados nesses instrumentos usando um feixe de luz laser", disse em comunicado o arqueólogo Congcang Zhao, da Universidade do Noroeste, na China, e coautor do estudo.
Os pesquisadores começaram a investigação utilizando fluorescência de raios X, método que permitiu identificar a composição metálica das ferramentas sem danificá-las. A análise confirmou que ambos os instrumentos eram feitos de ferro. Em seguida, a equipe selecionou pequenas partículas de resíduo de aparência enferrujada encontradas nas superfícies dos objetos.
Para identificar os compostos presentes nesses resíduos, os cientistas recorreram à espectroscopia micro-Raman, técnica que utiliza laser para analisar a estrutura molecular das amostras. O exame revelou a presença do grupo funcional ciano, associado ao cianeto de hidrogênio, além de substâncias orgânicas ligadas a óleos e gorduras.
Substâncias medicinais
Segundo os autores, os resultados indicam “propriedades medicinais e potencialmente anestésicas para os resíduos”. “Sugere-se que a toxina alcaloide aconitina seja um componente provável dos resíduos”, escreveram os pesquisadores.
A aconitina é encontrada em plantas do gênero Aconitum, conhecidas popularmente como acônito, erva-de-lobo ou mata-lobos. Apesar de extremamente venenosas, essas plantas são utilizadas há séculos na medicina tradicional asiática devido às suas propriedades analgésicas.
O estudo aponta que médicos da dinastia Ming dominavam métodos para reduzir a toxicidade da substância. Entre as técnicas citadas pelos pesquisadores estavam o uso de substâncias ácidas, como feijão-mungo, vinagre e urina de meninos, para detoxificar o acônito antes de transformá-lo em anestésico líquido ou em pó.
"Os médicos da dinastia Ming usavam instrumentos cirúrgicos de ferro e controlavam a toxicidade da aconitina por meio de aplicação tópica, prescrições compostas e controles rigorosos de procedimento, demonstrando uma capacidade prática de equilibrar a potência do medicamento com a segurança do paciente", disse Zhao.
Os cientistas acreditam que os instrumentos fossem utilizados em pequenas cirurgias. O procedimento provavelmente começava com a aplicação do anestésico sobre a pele. Depois, a pinça era usada para segurar a área enquanto a tesoura removia a camada superficial do tecido, repercute o Live Science.
Os resíduos do anestésico foram encontrados justamente nas partes funcionais das ferramentas, o que reforça a hipótese de uso médico. Segundo os pesquisadores, o anestésico provavelmente estava em forma líquida e pode ter respingado sobre os instrumentos durante os procedimentos, permanecendo no metal após a limpeza e contribuindo para a corrosão observada.
Os autores afirmam que esta é a primeira vez que evidências químicas diretas de anestésicos são encontradas em instrumentos cirúrgicos antigos. "Em conjunto com registros de prescrições de anestésicos em textos médicos da Dinastia Ming, o estudo confirma que o Acônito era empregado como anestésico tópico, aplicado com segurança e precisão durante procedimentos cirúrgicos", disse Zhao.










