Em Utqiagvik, cidade localizada no extremo norte do Alasca, o Sol só voltará a se pôr em 2 de agosto. Até lá, os quase 5 mil moradores da região viverão sob claridade constante, mesmo durante a madrugada.
O fenômeno, conhecido como “sol da meia-noite”, começou no último domingo, 10, e deve durar 84 dias consecutivos.
Durante esse período, não haverá pôr do sol na cidade. Mesmo em horários tradicionalmente associados à noite, como 4h da manhã, a luz solar continuará presente, obrigando muitos moradores a recorrerem a cortinas blackout para conseguir dormir no escuro.
O fenômeno ocorre em diversas áreas localizadas entre o Círculo Polar Ártico e o Polo Norte, embora sua duração varie de acordo com a latitude. Quanto mais próxima do polo a região estiver, maior tende a ser o período de luz contínua.
Entenda o fenômeno
A explicação para esse fenômeno está relacionada principalmente a dois fatores: a inclinação do eixo de rotação da Terra e o formato esférico do planeta.
A Terra gira em torno de si mesma com seu eixo inclinado em aproximadamente 23,5 graus em relação ao plano de sua órbita ao redor do Sol. Essa inclinação faz com que, em determinadas épocas do ano, um dos hemisférios receba mais luz solar que o outro.
Durante o verão no Hemisfério Norte, é o Polo Norte que fica inclinado em direção ao Sol. Isso faz com que, enquanto o planeta realiza seu movimento de rotação diária, as regiões acima do Círculo Polar Ártico permaneçam constantemente iluminadas.
É como se a parte superior do planeta, como o próprio Alasca, estivesse sempre voltada para o Sol, independentemente do giro terrestre.
“Se você tivesse um eixo de rotação perpendicular [formando ângulo de 90º] ao plano da órbita da Terra, não teríamos estações do ano. E o Sol estaria sempre no horizonte, nos dois polos, o ano inteiro”, explica João Batista Garcia Canalle, astrônomo e coordenador da Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA) e da Olimpíada Brasileira de Foguetes (OBAFOG).
Além da inclinação, o formato esférico da Terra também ajuda a compreender o fenômeno. Em Utqiagvik, o Sol não realiza o movimento clássico de nascer e se pôr em um arco vertical. Em vez disso, ele parece circular horizontalmente no céu, como se girasse em torno da cidade.
Esse comportamento reforça, mais uma vez, a explicação científica sobre a forma do planeta. Se a Terra fosse plana, o Sol precisaria simplesmente desaparecer ou “se apagar” quando estivesse do outro lado do suposto disco, e não haveria diferenças tão marcantes entre as estações do ano em diferentes regiões.
Apesar da presença constante do Sol, as temperaturas em Utqiagvik continuam baixas e raramente ultrapassam os 0°C. Isso acontece por causa da obliquidade dos raios solares.
Próximo à Linha do Equador, os raios do Sol atingem a superfície de forma mais direta e perpendicular, concentrando mais energia em uma área menor. Já nas regiões polares, mesmo durante o sol da meia-noite, o astro permanece sempre baixo no horizonte.
Assim, a luz chega de maneira mais inclinada e espalhada, reduzindo seu poder de aquecimento. É como apontar uma lanterna diretamente para uma parede e depois incliná-la: quando inclinada, a luz se dispersa e perde intensidade.
Por isso, embora o Sol permaneça visível por meses, ele não aquece a superfície o suficiente para eliminar o frio intenso da região.
Mais adiante, ainda em 2026, a situação se inverterá completamente. Quando o Hemisfério Norte passar a se inclinar para longe do Sol, Utqiagvik entrará no período da noite polar.
A partir de novembro, a cidade deverá enfrentar cerca de 65 dias de escuridão total. Sem a radiação solar para aquecer a superfície, as temperaturas cairão ainda mais, podendo variar entre -25°C e -30°C, segundo o g1.
Assim, entre meses de claridade ininterrupta e longos períodos de escuridão absoluta, Utqiagvik segue como um dos exemplos mais extremos de como a inclinação terrestre e a forma esférica do planeta influenciam diretamente a vida cotidiana.











